(Guia
dos Médiuns e dos Doutrinadores)
por
ALLAN KARDEC
Contém
o ensino especial dos Espíritos sobre a teoria de todos os
gêneros de manifestações, os meios de comunicação
com o Mundo Invisível, o desenvolvimento na mediunidade, as
dificuldades e os escolhos que se podem encontrar na prática
do Espiritismo.
SEGUNDA PARTE
DAS MANIFESTAÇÕES
ESPIRITAS
CAPITULO III
MANIFESTAÇÕES
INTELIGENTES
Estudo 24: itens 65 a 71
Referindo-se
estudo do capítulo anterior ( estudo
23 de Junho / 2003 ), afirma Allan Kardec que nada certamente
revela a intervenção de uma potência oculta e
os efeitos analisados poderiam ser perfeitamente explicados pela ação
de uma corrente magnética, ou elétrica, ou, ainda, pela
ação de um fluido qualquer. Tal foi, precisamente, a
primeira solução dada a tais fenômenos e que,
com razão, podia passar por muito lógica. Teria, não
há dúvida, prevalecido, se outros fatos não viessem
demonstrar a sua insuficiência. Estes fatos são as provas
de inteligência que eles deram. Ora, como
todo efeito inteligente deve ter uma causa inteligente,
tornou-se evidente que, mesmo admitindo-se a ação da
eletricidade ou de qualquer outro fluido, havia a presença
de outra causa. Qual seria? Qual era essa inteligência? Foi
o que o prosseguimento das observações revelou.
Para que uma manifestação seja inteligente,
não precisa ser convincente, espiritual ou sábia.
Basta ser um ato livre e voluntário, exprimindo uma intenção
ou correspondendo a um pensamento. Quando se vê um
papagaio de papel agitar-se, sabemos que obedece ao impulso do vento;
mas se reconhecemos nos seus movimentos sinais intencionais, se gira
para a direita ou para a esquerda, rápida ou lentamente, obedecendo
ordens, tem-se de admitir, não que o papagaio tenha inteligência,
mas que obedece a uma inteligência. Foi o que aconteceu com
a mesa.
Viu-se, então, a mesa mover-se, levantar-se, dar
pancadas, sob a influência de um ou de muitos médiuns.
O primeiro efeito inteligente que se observou foi precisamente o de
obediência às ordens dadas. Assim é que, sem mudar
de lugar, a mesa se erguia sobre os pés que lhes eram indicados.
Depois, ao abaixar-se, dava um determinado número de pancadas
respondendo a uma pergunta. De outras vezes, sem o contato de ninguém,
passeava sozinha pelo aposento, avançando para a direita ou
esquerda, para frente ou para trás, executando movimentos diversos
que os assistentes ordenavam. É claro que foram afastadas as
suspeitas de fraude, aceitando-se a perfeita lealdade dos assistentes.
Por meio de pancadas e, sobretudo, por meio dos estalidos,
os quais foram tratados no estudo anterior (número 23), obteve-se
efeitos ainda mais inteligentes. Era, como bem se compreende, um vasto
campo a ser explorado. Raciocinou-se que, se naquilo havia uma inteligência
oculta, forçosamente lhe seria possível responder a
perguntas e ela de fato respondeu, por um sim, por um não,
dando o número de pancadas convencionado. Por serem muito insignificantes
essas respostas, surgiu a idéia de fazer-se que a mesa indicasse
as letras do alfabeto e compusesse assim palavras e frases.
Estes fatos, repetidos à vontade por milhares de
pessoas e em todos os países, não podiam deixar dúvida
sobre a natureza inteligente das manifestações. Foi
então que apareceu um novo sistema, segundo o qual essa inteligência
seria a do médium, do interrogante, ou mesmo dos assistentes.
A dificuldade estava em explicar como semelhante inteligência
podia refletir-se na mesa e se expressar por pancadas. Averiguado
que estas não eram dadas pelo médium, deduziu-se que,
então, o eram pelo pensamento. Mas, o pensamento a dar pancadas
constituía fenômeno ainda mais prodigioso do que todos
os que haviam sido observados.
A experiência não tardou a demonstrar que
essa opinião era inadmissível. Com efeito, as respostas
se mostravam muito freqüentemente em completa oposição
ao pensamento dos assistentes, fora do alcance intelectual do médium
e até mesmo em idiomas ignorados por ele ou relatando fatos
desconhecidos de todos. São tão numerosos os exemplos,
que é quase impossível alguém haver se ocupado
de comunicações espíritas, sem os ter muitas
vezes testemunhado.
Allan Kardec apresentou o seguinte caso relatado por uma
testemunha: Num navio da marinha imperial francesa, nos mares da China,
toda a equipagem, desde os marinheiros até o comando, ocupava-se
das mesas falantes. Resolveram evocar o Espírito de um tenente
do mesmo navio, que morrera havia dois anos. Ele atendeu, e depois
de várias comunicações que espantaram a todos,
disse o seguinte, por meio de pancadas: "Peço-vos insistentemente
que paguem ao capitão a soma de (indicou a quantia), que lhe
devo e que lamento não ter podido pagar-lhe antes de morrer."
Ninguém sabia do fato. O próprio capitão esquecera
essa dívida, aliás, mínima. Mas, procurando nas
suas contas, encontrou um registro da dívida do tenente, na
importância indicada. Perguntou-se: do pensamento de quem essa
indicação podia ter sido refletida?
Ao traduzir O Livro dos Médiuns, Herculano
Pires recorda que o problema do inconsciente deu margem no passado
e continua a dá-la ainda hoje, a numerosas hipóteses
fantásticas sobre a possibilidade de serem telepáticas
essas transmissões. Mas, os fatos são mais complicados
do que o citado acima e essas hipóteses não abrangem
a todos. As pesquisas parapsicológicas, longe de beneficiarem
essas hipóteses fantásticas, vêm confirmando progressivamente
a explicação espírita.
Apesar do aperfeiçoamento da arte de comunicação
pelo sistema alfabético de pancadas, o meio continuava muito
moroso. Algumas, entretanto, trouxeram interessantes revelações
sobre o Mundo dos Espíritos. Desse meio surgiram outros e assim
se chegou ao de comunicações escritas.
As primeiras comunicações desse gênero
foram obtidas adaptando-se um lápis ao pé de uma mesa
leve, colocada sobre uma folha de papel. Movimentada pela influência
de um médium, a mesa começou traçando alguns
caracteres, depois escreveu palavras e frases. Simplificou-se gradualmente
o processo, pelo emprego de mesinhas do tamanho de uma mão,
construídas expressamente para isso; em seguida, pelo emprego
de cestinha, de caixas de papelão e por fim de simples pranchetas.
A escrita era tão fluente, rápida e fácil
como a manual, mas reconheceu-se mais tarde que todos esses objetos
serviam apenas de apêndices da mão, verdadeiros porta-lápis
que podiam ser dispensados. De fato, a própria mão do
médium, impulsionada de maneira involuntária, escrevia
sob a influência do espírito sem o concurso da vontade
ou do pensamento daquele. Desde então, as comunicações
entre os dois planos não têm mais dificuldades do que
a correspondência habitual entre os encarnados.
Concluindo, compreendemos que esse desenvolvimento gradual
do processo da psicografia representa um dos episódios mais
significativos da Ciência Espírita, mostrando a naturalidade
do fenômeno. A prancheta, como se vê, não é
mais do que uma miniatura da mesa girante, conservando-se assim, a
forma do instrumento primitivo através da evolução
para a escrita manual. O aparecimento da cesta e da caixa de papelão
assinala o momento de transição dos meios materiais
para o meio psíquico.
BIBLIOGRAFIA:
KARDEC, Allan - O Livro dos Médiuns:
2.ed. São Paulo: FEESP, 1989 - Cap. III - 2ª Parte
Tereza Cristina D'Alessandro
Julho / 2003