Estudo 116 – Questão
230
Na
conclusão do capítulo XX, considerando a importância
e atualidade das instruções espíritas, transcrevemos
a dissertação do Espírito Erasto sobre a influência
moral dos médiuns:
“Já
o dissemos: os médiuns, como médiuns, exercem influência
secundária nas comunicações dos Espíritos.
Sua tarefa é a de uma máquina elétrica de transmissão
telegráfica entre dois lugares distantes da Terra. Assim, quando
queremos ditar uma comunicação, agimos sobre o médium
como o telegrafista sobre o aparelho. Quer dizer, da mesma maneira que
o tique-taque do telégrafo vai traçando, a milhares de
léguas, numa tira de papel, os sinais reprodutores do despacho,
nós também nos comunicamos através das distâncias
imensuráveis que separam o mundo visível do mundo invisível,
o mundo imaterial do mundo encarnado, aquilo que desejamos vos ensinar
por meio do aparelho mediúnico.
Mas,
assim também como as influências atmosféricas frequentemente
atuam sobre as transmissões telegráficas e as perturbam,
a influência moral do médium age algumas vezes sobre a
transmissão dos nossos despachos de além-túmulo
e o perturbam, por que somos obrigados a fazê-los atravessar um
meio contrário. Entretanto, na maioria das vezes essa influência
é anulada pela nossa energia e a nossa vontade, e nenhuma perturbação
se verifica. Com efeito, os ditados de elevado alcance filosófico,
as comunicações de moralidade perfeita são transmitidas
às vezes por médiuns pouco apropriados a essa função
superior, enquanto, de outro lado, comunicações pouco
edificantes chegam às vezes por médiuns que se envergonham
de lhes servir de condutores.
De
maneira geral, pode-se afirmar que os Espíritos similares se
atraem, e que raramente os Espíritos das plêiades elevadas
se comunicam por mal condutores, quando podem dispor de bons aparelhos
mediúnicos, de bons médiuns, numa palavra.
Os
médiuns levianos, pouco sérios, chamam, pois, os Espíritos
da mesma natureza. É por isso que as suas comunicações
se caracterizam pela banalidade, a frivolidade, as ideias truncadas
e quase sempre muito heterodoxas, falando-se espiriticamente. Certamente
eles podem dizer e dizem, às vezes, boas coisas, mas é
precisamente nesse caso que é preciso submetê-las a um
exame severo e escrupuloso. Porque, no meio das boas coisas, certos
Espíritos hipócritas insinuam com habilidade e calculada
perfídia fatos imaginados, asserções mentirosas,
como fim de enganar os ouvintes de boa fé. Deve-se então
eliminar sem piedade toda palavra e toda frase equívocas, conservando
no ditado somente o que a lógica aprova ou o que a Doutrina já
ensinou. As comunicações dessa natureza só são
perigosas para os espíritas que agem isolados, os grupos recentes
ou pouco esclarecidos, porque, nas reuniões de adeptos mais adiantadas
e experientes, é inútil a gralha de se adornar com penas
de pavão, pois será sempre impiedosamente descoberta.
Não
falarei dos médiuns que se comprazem em solicitar e receber comunicações
obscenas. Deixá-los que se comprazam na sociedade dos Espíritos
cínicos. Aliás, as comunicações dessa espécie
exigem por si mesmas a solidão e o isolamento. Não poderiam
acontecer, em qualquer circunstância, entre os membros de grupos
filosóficos e sérios.
Mas,
onde a influência moral do médium se faz realmente sentir
é quando este substitui pelas suas ideias pessoais aquelas que
os Espíritos se esforçam por lhe sugerir. É ainda
quando ele tira, da sua própria imaginação, as
teorias fantásticas que ele mesmo julga, de boa fé, resultar
de uma comunicação intuitiva. Nesse caso, há mil
possibilidades contra uma de que isso não passe de reflexo do
Espírito do médium. Acontece mesmo este fato curioso:
a mão do médium se movimenta, às vezes, quase mecanicamente,
impulsionada por um Espírito secundário e zombeteiro.
É
essa a pedra de toque das imaginações ardentes. Porque,
levados pelo ardor das suas próprias ideias, pelos artifícios
dos seus conhecimentos literários, os médiuns desconhecem
a modéstia do ditado de um Espírito sábio e desprezam
a presa pela sombra, o substituem por uma paráfrase empolada.
Contra esse temível escolho se chocam também as personalidades
ambiciosas que, na falta de comunicações que os Espíritos
bons lhes recusam, apresentam as suas próprias obras como sendo
deles. Eis porque é necessário que os dirigentes de grupos
sejam dotados de tato apurado e de rara sagacidade, para discernir as
comunicações autênticas e ao mesmo tempo não
ferir os que se deixam iludir.
Na
dúvida, abstém-te, diz um dos vossos antigos provérbios.
Não admitais, pois, o que não for para vós de evidência
inegável. Ao aparecer uma nova opinião, por menos que
vos pareça duvidosa, passai-a pelo crivo da razão e da
lógica. O que a razão e o bom senso reprovam, rejeitai
corajosamente. Mais vale rejeitar dez verdades do que admitir uma única
mentira, uma única teoria falsa.¹ Com efeito, sobre essa
teoria podereis edificar todo um sistema que desmoronaria ao primeiro
sopro da verdade, como um monumento construído sobre a areia
movediça. Entretanto, se rejeitais hoje certas verdades, porque
não estão para vós clara e logicamente demonstradas,
logo um fato chocante ou uma demonstração irrefutável
virá vos afirmar a sua autenticidade.
Lembrai-vos,
entretanto, ó espíritas! de que nada é impossível
para Deus e para os Espíritos bons, senão a injustiça
e a iniquidade.
O
Espiritismo já está, hoje, bastante divulgado entre os
homens, e já moralizou suficientemente os adeptos sinceros da
sua doutrina, para que os Espíritos não se vejam mais
obrigados a utilizar maus instrumentos, médiuns imperfeitos.
Se agora, portanto, um médium, seja qual for, por sua conduta
ou seus costumes, por seu orgulho, por sua falta de amor e de caridade,
der um motivo legítimo de suspeição, rejeitai as
suas comunicações, porque há uma serpente oculta
na relva. Eis a minha conclusão sobre a influência moral
dos médiuns.”– ERASTO.
Em
nota constante em O Livro dos Médiuns, aqui estudado,
o Prof. Herculano Pires (tradutor) destaca a
regra de ouro do Espiritismo, dada pelo Espírito
Erasto, e informa ainda que essa regra espalhou-se como sendo do próprio
Kardec e em forma diferente, ou seja: Mais vale rejeitar
noventa e nove verdades do que aceitar uma mentira. Foi
por esse motivo que ele, o tradutor, a grifou no texto e afirma que
ela deve ser constantemente observada nos trabalhos e estudos espíritas.
Concluindo,
então, os estudos do capítulo XX - INFLUÊNCIA MORAL
DOS MÉDIUNS -, compreende-se o quanto é importante para
o médium cultivar valores ético-morais que lhe permitam
oferecer sintonia adequada às entidades superiores, que poderão
utilizar-se dos recursos oferecidos, levando socorro e esclarecimento
aos necessitados dos planos material e espiritual.
A
imperfeição moral, que se manifesta nos encarnados ou
desencarnados, é indício do estágio inferior no
qual transita o seu portador, o qual deve se esforçar por superá-la,
trabalhando com empenho para libertar-se de suas amarras, e o estudo
aprofundado de O Livro dos Médiuns é essencial
para aquele médium que deseja ser instrumento confiável
dos Bons Espíritos.
| Bibliografia: |
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KARDEC, Allan -
O Livro dos Médiuns: 2.ed. São Paulo, FEESP.
1989 - Cap. XX, q. 230 |
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Tereza Cristina D'Alessandro
Janeiro / 2012 |