O Céu e o Inferno
por
ALLAN KARDEC
 
 

 

Nesta obra Allan Kardec reafirma o caráter científico do Espiritismo e avalia como ciência de observação, a nova doutrina, enfrentando o problema das penas e recompensas futuras à luz da História, estabelecendo comparações entre as idealizações do céu e do inferno nas religiões anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas dessas idealizações na formulação dos dogmas cristãos.

CapituloIV : ESPÍRITOS SOFREDORES :-(Lisbeth)
(...)" Em que época vivestes? -
R. Há cento e cinqüenta anos, na Prússia "( 1 )

Quem já se despediu de um ente querido que partiu para a pátria espiritual certamente pensou, no estado em que ele se encontra agora. Será que ele já despertou para vida espiritual? Será que ainda se encontra em estado de perturbação? Será que seu anjo da guarda, seu espírito protetor já foi visto por ele? Será que ele está bem? Perguntas como essas são comuns...

E´sobre isto que o depoimento de Lisbeth trazido neste capítulo nos esclarece:

(...)"Tive um nascimento de elevada condição. Possuía tudo o que os homens julgam a fonte da felicidade. Rica, tornei-me egoísta; bela, fui vaidosa, insensível, hipócrita; nobre, era ambiciosa. Calquei ao meu poderio os que se me não rolavam aos pés e oprimia ainda mais os que sob eles se colocavam..........." ( 1 )

Em que época você viveu , perguntou Allan Kardec?

Ao que ela responde (..... ) "Há cento e cinqüenta anos, na Prússia".

ContinuaAllan Kardec (..... ) "Desde então não fizestes progresso algum como Espírito? "

Responde Lisbeth (..... ) " Não; a matéria revoltava-se sempre, e tu não podes avaliar a influência que ela ainda exerce sobre mim, a despeito da separação do corpo. Sentia-se presa pelo orgulho. (...)"..."O orgulho agrilhoa-nos a brônzeas cadeias, cujos anéis mais e mais comprimem o mísero que lhe hipoteca o coração. ...... (...)". Dizem que isto pode ter um termo, mas onde e quando? Há muito que o procuro e só vejo sofrimento, sempre, sempre, sempre!"


Muitos seres ao desencarnar não se apercebem de que sua realidade mudou. Outros mesmo sabendo que já não têm o corpo físico não conseguem se libertar do sentir da matéria, como por exemplo aqueles que viciados ainda sentem a falta do vicio seja bebida, cigarro ou drogas e ficam pertubados, fixos nessa necessidade.Outros ainda ficam detidos na pertubaçaõ causada por seus atos ou sentimentos.

Em que momento ocorre o despertar?

Continuando o dialogo Kardec traz esta resposta ao comentar com Lisbeth: (...) " Deus é muito bom para não condenar seus filhos a penas eternas. Confiai na sua misericórdia. E como você veio hoje aqui?"

Ao que ela respondeu (..... )" Conduzida por um Espírito que me acompanha muitas vezes".

Questiona Allan Kardec (..... ) "Desde quando o vedes, a esse Espírito? "

Ela responde (..... ) Não há muito tempo.

Continua Allan Kardec (..... ) E desde quando tendes consciência das faltas que cometestes? Lisbeth depois de longa reflexão responde (..... ) Sim, tendes razão: foi dai para cá que principiei a vê-lo.


Allan Kardec explica para os leitores deste capítulo através de uma Nota -

(..... ) "Provavelmente, que Lisbeth diz não ter feito progresso algum, por ser a sua situação sempre penosa; mas a maneira pela qual descreve o orgulho e lhe deplora as conseqüências é, incontestavelmente, um progresso. Certo, quando encarnado e mesmo logo após a morte, ela não poderia raciocinar assim. Compreender o mal, já é alguma coisa, e a coragem e o propósito de o evitar lhe advirão mais tarde."

Sair da perturbação pós -desencarne envolve reconhecimento do grilhão que aprisiona, como mostra a seqüência do dialogo de Allan Kardec com Lisbeth:

(...)"Compreendeis agora a relação existente entre o arrependimento e o auxílio prestado por vosso protetor? Tomai por origem desse apoio o amor de Deus, cujo fim será o seu perdão e misericórdia infinitos. "

- R. (...)" Oh! como desejaria que assim fosse


Joanna de Angelis ensina (2) " ( ...) Toda e qualquer aflição, é o processo de cobrança que chega ao tribunal da consciência, impondo reparação". E Allan Kardec comenta (1)

(...) .''.O arrependimento é inútil quando apenas produzido pelo sofrimento. O arrependimento profícuo tem por base a mágoa de haver ofendido a Deus, e importa no desejo ardente de uma reparação. Ainda não posso tanto, infelizmente. Este ensinamento é uma grande verdade; às vezes o sofrimento provoca um brado de arrependimento menos sincero, que não é a expressão de pesar pela prática do mal, visto como, se o Espírito deixasse de sofrer, não duvidaria reencetá-la. Eis por que o arrependimento nem sempre acarreta a imediata libertação do Espírito. Predispõe-no, porém, para ela - eis tudo''.

Geralmente, cansado de guiado pelo orgulho e egoísmo,sofrer; o desencarnado percebe o quanto se distanciou do amor de Deus e como infringiu as leis naturais impressas na sua consciência.Estabelece-se o arrependimento, o desejo de mudar, de recomeçar de novo, para poder transformar-se.

Max Scheler, psicólogo e filósofo alemão, comenta (...) "a elevação da alma pelo arrependimento mostra o que em nós havia de inferior. O arrependimento é sofrimento e ao mesmo tempo higiene mental (3)

Na Questão 990 de " O Livro dos Espíritos" Allan Kardec pergunta os Espíritos (...)"- O arrependimento se verifica no estado corpóreo ou no espiritual? E obteve a a seguinte resposta (...) " No estado espiritual. Mas pode também se verificar no estado corpóreo, quando bem compreendeis a distinção entre o bem e o mal".

O despertar, a tomada de consciência sobre si mesmo, a determinação e a aceitação de ser criado para ser perfeito e que atingir a perfeição é a meta,e´a alavanca que nos impulsiona independente de estarmos aqui na Terra usando uma roupagem de carne ou sem ela no mundo Espiritual. A tomada de consciência leva como conseqüência ao arrependimento das escolhas menos felizes realizadas.Mas este por si só não basta. O arrependimento, puro e simples, se não acompanhado da ação reparadora, é tão inócuo e prejudicial quanto a falta dele.E a primeira ação reparadora é a do perdão. Não o perdão de Deus , mas o de nós mesmos , uma vezque não nos perdoamos.

Ter consciência de que o arrependimento é o inicio do processo refazedor, pois erros existem para serem modificados e não vitimizar à própria consciência. O pior erro é congelar-se mentalmente naquilo que faz sofrer. Esse erro, é quem gera psicopatologias que nos acompanha alem túmulo. O autoperdão ajuda o amadurecimento moral, porque propicia clara visão da responsabilidade, levando o indivíduo a cuidadosas reflexões, antes de tomar atitudes agressivas ou negligentes, precipitadas ou contraditórias no futuro.

E para nossa reflexão final André Luiz após reportar-se a dolorosas surpresas, em face de seu comprometimento com a inconseqüência nas lides humanas, faz dramático apelo" (...):

- Oh! Amigos da Terra! Quantos de vós podereis evitar o caminho da amargura com o preparo dos campos interiores do coração? Acendei vossas luzes antes de atravessar a grande sombra. Buscai a verdade antes que a verdade vos surpreenda. Suai agora para não chorardes depois. (5)

Bibliografia:

1. Kardec ,Allan, " Céu e Inferno " Segunda Parte,capitulo CapituloIV : ESPÍRITOS SOFREDORES -Lisbeth
2. Divaldo P. Franco /Joanna de Ângelis/. " Alerta " - Capítulo 32
3. O ressentimento e o juízo moral dos valores" publicado em 1912, comentado em HIRSCHBERGER, Johannes. História da Filosofia Contemporânea. São Paulo, Herder, 1963
4. ]Kardec ,Allan," O Livro dos Espíritos ", Questão 990
5. Francisco Cândido Xavier/ André Luiz " Nosso Lar ".
 
Laurelucia Orive Lunardi
Setembro / 2006
 

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