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Nesta obra Allan Kardec reafirma o caráter científico
do Espiritismo e avalia como ciência de observação,
a nova doutrina, enfrentando o problema das penas e recompensas futuras
à luz da História, estabelecendo comparações
entre as idealizações do céu e do inferno nas religiões
anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes
históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas
dessas idealizações na formulação dos dogmas
cristãos.
CapituloV : Suicidas
"Todo aquele suicida
presume que a morte é o fim do amargor, sem saber que o desespero
é a porta para outra dor." - Casimiro Cunha
"...Estou com
minhas emoções a flor da pele. Só de escrever esta
quase choro. Tenho me sentido deprimido e não sei se realmente
estou pensando em me matar, porém ultimamente me indago se o
suicídio não seria uma saída, mas não sei
se realmente penso em me matar, apenas me questiono a respeito"
"....Ouvi dizer que pessoas que dizem que vão se suicidar
não se suicidam é verdade ou podem vir a fazê-lo.
Quem apenas pensa, ñ fala, correm o mesmo perigo? Ou é
só uma forma de escapismo? Sou casada, duas filhas adultas, moro
só com meu marido. Estou atravessando uma fase muito difícil
em minha vida.1"
Depoimentos como os acima transcritos descrevem o mundo emocional dos
que vivem esse drama. O suicídio altera a ordem natural da vida
em escala abrangente. Sua ocorrência se faz nas mais variadas
faixas etárias , da adolescência à velhice e mais
raramente na infância e nas mais diversas culturas . Incide tanto
nas populações dos grandes centros como também
naquelas das pequenas comunidades, na zona rural, estendendo-se até
às reservas indígenas, nestas, acredita-se que o suicídio
é o resultado da perda de suas raízes, o contato com as
cidades, a miséria, o abandono das tradições e
dos cultos. Um maior número de suicídios ocorre entre
adultos que vivem sozinhos, principalmente os idosos, porque nesse período
vivenciam situações desvitalizantes: isolamento social,
desemprego, problemas econômicos e perda de pessoas queridas.2.
A Organização Mundial da Saúde adverte que o suicídio
ocupa o terceiro lugar entre as principais causas de morte no mundo.E
entre as doenças considera-se a depressão como uma das
causas mais freqüentes do suicídio, podendo instalar-se
de forma secundária, advindos de várias condições
médicas ou dos mais diversos eventos morais.
"Como é possível que o extraordinariamente poderoso
instinto de vida seja vencido?3
Espera-se que cumprindo as leis naturais o homem nasça, cresça
e se desenvolva . Espera-se ainda que o ser humano consiga, ao longo
da vida, elaborar suas perdas, seus lutos, transformando-os, adquirindo
novas aquisições, trabalhando seus sentimentos e preservando
assim o seu mais precioso dom - o dom da vida!
O suicídio, além de constituir uma perda irrecuperável
para a própria pessoa - a perda da vida, promove nas outras pessoas
diferentes formas de reação - que vão desde a abominação
do ato até o seu incentivo com fins ideológicos e/ou religiosos.
Suscita ainda a perplexidade, podendo gerar vários sentimentos,
entre os quais a culpa, a vergonha, o sentimento de perda e de impotência
de mais nada se poder fazer frente à pessoa que se foi.
É um ato multi-determinado e atrás de um ato suicida há
sempre uma motivação desencadeante. A importância
de fatores psiquiátricos, biológicos e sociais, da psicodinâmica
e das doenças físicas já está bem estabelecida
.As pessoas podem tentar ou cometer suicídio por diversos motivos4
:
- uma tentativa de
se livrarem de uma situação de extrema aflição,
para a qual acham que não há solução
- por estarem num estado
psicótico, isto é, fora da realidade
- por se acharem perseguidas,
sem alternativa de fuga
- por se acharem deprimidas,
achando que a vida não vale a pena
- por terem uma doença
física incurável e se acharem desesperançados
com sua situação
- por serem portadores
de um transtorno de personalidade e atentarem contra a vida num impulso
de raiva ou para chamar a atenção.
Por que alguém se
suicida ? Algumas hipóteses podem ser consideradas: Pulsão
de morte?3; retorno à matéria inorgânica
na qual não há tensões?5; uma incapacidade
de suportar frustrações regredindo ao estado de desamparo?3;
poder sobre o próprio destino, sobre a vida e a morte e, de certa
maneira, sobre o outro, sobre a vida daquele que se quis atingir com tal
gesto?4; a passagem súbita de um "Eu" com
sentimento de grandiosidade para a total desvalorização,
bem como o sentimento de ser injustiçado, configura-se algo difícil
de suportar?5. Suicídio pode implicar punição:
teria sido X tomado de sentimentos de culpa para autopunir-se através
do suicídio?5. Havia a característica narcisista:
matar-se em vez de ser executado para conservar no íntimo a ilusão
de onipotência e pelo ato do suicídio tornar-se senhor da
vida e da morte?6. Estas são as perguntas feitas pelos
estudiosos da psique humana, todos tem hipóteses . Mas todos têm
em comum que objetivo é fugir das dificuldades deste mundo, passando
para um mundo melhor ou simplesmente para o nada.
A Doutrina Espírita, prova que o nada não existe, que o
indivíduo sobrevive ao túmulo. A vida além da morte
caracteriza-se pela continuação do homem com todas as suas
características: moral, inteligência, angústias, problemas,
dores, felicidade. A única coisa que o ser deixa na Terra é
o corpo e seus bens materiais. Desta forma, ao tentar fugir de um sofrimento
através do suicídio, o espírito percebe que, além
de nada ter adiantado, ainda perdeu a oportunidade que tinha de conquistar
coisas boas enquanto estava no plano terreno.
"A Ciência Espírita ensina que, pelo suicídio
sempre se perde o que se queria ganhar. O suicídio é o corolário
da covardia moral, que por sua vez é o resultado a que leva a incredulidade,
a simples dúvida sobre o futuro e as idéias materialistas."7
"(...) Quando homens de ciência, apoiados na autoridade do
seu saber, se esforçam por provar aos que os ouvem ou lê
em que estes nada têm a esperar depois da morte, não estão
de fato levando-as
a deduzir que, se são desgraçados, coisa melhor não
lhes resta senão se matarem? Que lhes poderiam dizer para desviá-los
dessa conseqüência? Que compensação lhes podem
oferecer?
Que esperança lhes podem dar? Nenhuma, a não ser o nada...
Daí se deve concluir que, se o nada é o único remédio
heróico, a única perspectiva,mais vale buscá-lo imediatamente
e não mais tarde, para sofrer por menos tempo.8
O suicídio tem sempre por causa um descontentamento, quaisquer
que sejam os motivos particulares registrados. Aquele que está
certo de que só é desventurado por um dia e que melhores
serão os dias que hão de vir, enche-se facilmente de paciência.
Só se desespera quando nenhum termo divisa para os seus sofrimentos.
E que é a vida humana, com relação à Eternidade,
senão bem menos que um dia? Mas, para o que não crê
na Eternidade, e julga que com a Vida tudo se acaba, se os infortúnios
e as aflições o acabrunham, unicamente na morte vê
uma solução para as suas amarguras. Nada esperando, acha
muito natural, muito lógico mesmo, abreviar pelo suicídio
as suas misérias. Entretanto com o Espiritismo, torna-se impossível
a dúvida, muda-se o aspecto da Vida. O Espírita tem vários
motivos para contrapor à idéia do suicídio: a certeza
de uma Vida Futura, em que, sabe-o ele, será mais feliz, quanto
tenha elaborado suas perdas e dores na Terra.A certeza de que, abreviando
seus dias, chega, precisamente, a resultado oposto ao que esperava; que
se liberta de um mal, para incorrer num mal pior, mais longo e terrível.
Que se engana, quando o imagina, que ao matar-se, vai mais depressa para
o céu; que ao contrario o suicídio é um obstáculo
a que no outro mundo ele se reúna aos que foram objeto de suas
afeições e aos quais esperava encontrar.
Ao ler os relatos constantes do livro "O Céu e o Inferno",
de Allan Kardec,9 nos quais os suicidas mencionam os seus pungentes
sofrimentos, veremos que a idéia de suicídio, mesma que
esteja-se passando por situação dolorosa, esta passará,
enquanto que após o desencarne, as dores dos suicidas ultrapassam
tudo o que possamos imaginar.
Assim observemos a exortação de Santo Agostinho:
"(...) Até quando os vossos olhares se deterão nos
horizontes que a morte limita? Quando, afinal, vossa alma se decidirá
a lançar-se para além dos limites de um túmulo? Houvésseis
de chorar a Vida inteira, que seria isso, a par da eterna glória
e resignação? Buscai consolações para os vossos
males no porvir que Deus vos prepara e procurai-lhes a causa no passado.
E vós, que mais sofreis, considerai-vos os afortunados da Terra.8
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Bibliografia:
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1. Paiva,
Luiz Miller de. Depressão e suicídio: fanatismo, psicanálise
e psicossomática. Rio de Janeiro: Imago. 1982, V.2. |
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2. Kaplan,
Saddock & Grebb. Compêndio de psiquiatria. Porto Alegre:
Artes Médicas, 1997. |
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3. Freud,
Sigmund. Edição standard brasileira das obras psicológicas
completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969. |
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4. Roy
A, Nielsen D, Rylander G, Sarchiapone M, Segal N - J. Clin. Psychiatry,
1999; 602: 12-17) |
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5. Angerami,
Valter Augusto. Existencialismo e psicoterapia. São Paulo:
Afiliada, 1997. |
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6. Kovács,
Maria Júlia. Morte e desenvolvimento humano. São Paulo:
Casa do Psicólogo. 1992. |
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7. Kardec
,Allan, Livro dos Espíritos - conclusão VII |
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8. Kardec
,Allan ,O Evangelho Segundo o Espiritismo" - Capítulo
V, item 16 |
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9. Kardec
,Allan, " Céu e Inferno" Segunda Parte, Capitulo
V : Suicidas. |
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Laurelucia Orive Lunardi
Outubro / 2006
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