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O Céu e o Inferno
por
ALLAN KARDEC
Nesta obra Allan Kardec reafirma
o caráter científico do Espiritismo e avalia como ciência
de observação, a nova doutrina, enfrentando o problema
das penas e recompensas futuras à luz da História, estabelecendo
comparações entre as idealizações do céu
e do inferno nas religiões anteriores e nas religiões
cristãs, revelando as raízes históricas, antropológicas,
sociológicas e psicológicas dessas idealizações
na formulação dos dogmas cristãos.
CAPITULO I O PASSAMENTO
Item 6 a 13 - .....O último alento quase nunca
é doloroso, uma vez que ordinariamente ocorre em momento de inconsciência,
mas a alma sofre antes dele a desagregação da matéria,
nos estertores da agonia, e, depois, as angústias da perturbação.
Demo-nos pressa em afirmar que esse estado não é geral,
porquanto a intensidade e duração do sofrimento estão
na razão direta da afinidade existente entre corpo e perispírito.
Assim, quanto maior for essa afinidade, tanto mais penosos e prolongados
serão os esforços da alma para desprender-se. Há
pessoas nas quais a coesão é tão fraca que o desprendimento
se opera por si mesmo, como que naturalmente; é como se um fruto
maduro se desprendesse do seu caule, e é o caso das mortes calmas,
de pacífico despertar. (1)
A desencarnação é
um processo de libertação do Espírito imortal.
Quando o corpo morre, o Espírito está pronto para libertar-se,
pois "não é a partida do Espírito que causa
a morte do corpo; esta é que determina a partida do Espírito;"(
2) . No processo do desencarne a liberação energética
do corpo físico e do perispírito, que se encontravam dela
impregnados, desde o primeiro instante da concepção, realiza-se
de forma suave ou abrupta de acordo com a sua distribuição,
que é peculiar a cada ser, a cada órgão, a cada
célula; há nos centros vitais ou de força, maior
atividade vital e pontos de ligação com maior densidade
entre o Espírito-perispírito e o corpo físico,
como por exemplo, no centro coronariano. "(...) A alma se desprende
gradualmente, não se escapa como pássaro cativo a que
se restitua subitamente a liberdade. Aqueles dois estados se tocam e
confundem, de sorte que o Espírito se solta pouco a pouco dos
laços que o prendiam. Estes laços se desatam, não
se quebram. (3)".
Dois fatores ocorrem paralelamente e seqüenciais à morte
sempre vinculada às circunstâncias e ao grau evolutivo
do Espírito desencarnante : o desprendimento do
corpo físico; a perturbação do Espírito.
O desprendimento em geral acontece de forma lenta por esgotamento do
fluido vital nos casos de envelhecimento natural, doenças crônicas,
etc,assim o desligamento já vinha se fazendo quando ocorreu a
morte. Por outro lado quando da morte violenta: acidentes, desastres,
assassinatos, suicídios, ou seja, de forma abrupta determinando
a incapacidade funcional orgânica definitiva, a morte corresponde
ao início do processo desencarnatório cuja duração
dependerá do total esgotamento do fluido vital .Com os Espíritos
evoluídos ocorre que o momento da morte corresponde ao da libertação,
mas, ao contrário, quando o Espírito têm seu perispírito
ainda muito densificado, ficam presos ainda ao corpo, após o
cessamento das atividades orgânicas e até mesmo sua decomposição.
No item 9 CAPITULO I de O Céu e o Inferno,comenta Allan Kardec
...." Em se tratando de morte natural resultante da extinção
das forças vitais por velhice ou doença, o desprendimento
opera-se gradualmente; para o homem cuja alma se desmaterializou e cujos
pensamentos se destacam das coisas terrenas, o desprendimento quase
se completa antes da morte real, isto é, ao passo que o corpo
ainda tem vida orgânica, já o Espírito penetra a
vida espiritual, apenas ligado por elo tão frágil que
se rompe com a última pancada do coração. Nesta
contingência o Espírito pode ter já recuperado a
sua lucidez, de molde a tornar-se testemunha consciente da extinção
da vida do corpo, considerando-se feliz por tê-lo deixado. Para
esse a perturbação é quase nula, ou antes, não
passa de ligeiro sono calmo, do qual desperta com indizível impressão
de esperança e ventura. No homem materializado e sensual, que
mais viveu do corpo que do Espírito, e para o qual a vida espiritual
nada significa, nem sequer lhe toca o pensamento, tudo contribui para
estreitar os laços materiais, e, quando a morte se aproxima,
o desprendimento, conquanto se opere gradualmente também, demanda
contínuos esforços. As convulsões da agonia são
indícios da luta do Espírito, que às vezes procura
romper os elos resistentes, e outras se agarra ao corpo do qual uma
força irresistível o arrebata com violência, molécula
por molécula." ( 4).
O homem não possui de seu senão o que pode levar deste
mundo. O que encontra ao chegar, e o que deixa ao partir goza durante
sua permanência na Terra; mas, uma vez que é forçado
a abandoná-lo, dele não tem senão o uso e não
a posse real. Este será muito afetado se os bens que cultivou
não forem outros que não os de uso da alma: a inteligência,
os conhecimentos, as qualidades morais; eis o que traz e o que leva,
o que não está no poder de ninguém lhe tirar, o
que lhe servirá mais ainda no outro mundo do que neste; dele
depende ser mais rico em sua partida do que em sua chegada, porque daquilo
que tiver adquirido em bem depende sua posição futura.
Ao contrario, quando o Ser ainda encarnado, tinha uma relação
de usuário da matéria e não de proprietário
e se espiritualizou durante a vida, continua Allan Kardec no item 11
do mesmo livro :- "Quão diversa é a situação
do Espírito desmaterializado, mesmo nas enfermidades mais cruéis!
Sendo frágeis os laços fluídicos que o prendem
ao corpo, rompem-se suavemente; depois, a confiança do futuro
entrevisto em pensamento ou na realidade, como sucede algumas vezes,
fá-lo encarar a morte qual redenção e as suas conseqüências
como prova, advindo-lhe dai uma calma resignada, que lhe ameniza o sofrimento.Após
a morte, rotos os laços, nem uma só reação
dolorosa que o afete; o despertar é lépido, desembaraçado;
por sensações únicas: o alívio, a alegria!
" (5) Entretanto na morte violenta as sensações não
são precisamente as mesmas.Nenhuma desagregação
inicial há começado previamente a separação
do perispírito; a vida orgânica em plena exuberância
de força é subitamente aniquilada. Nestas condições,
o desprendimento só começa depois da morte e não
pode completar-se rapidamente. O Espírito, colhido de improviso,
fica como que aturdido e sente, e pensa, e acredita-se vivo, prolongando-se
esta ilusão até que compreenda o seu estado. Este estado
intermediário entre a vida corporal e a espiritual é dos
mais interessantes para ser estudado, porque apresenta o espetáculo
singular de um Espírito que julga material o seu corpo fluídico,
experimentando ao mesmo tempo todas as sensações da vida
orgânica. Há, além disso, dentro desse caso, uma
série infinita de modalidades que variam segundo os conhecimentos
e progressos morais do Espírito. Para aqueles cuja alma está
purificada, a situação pouco dura, porque já possuem
em si como que um desprendimento antecipado, cujo termo a morte mais
súbita não faz senão apressar. Outros há,
para os quais a situação se prolonga por anos inteiros.
É uma situação essa muito freqüente até
nos casos de morte comum, que nada tendo de penosa para Espíritos
adiantados, se torna horrível para os atrasados. No suicida,
principalmente, excede a toda expectativa. Preso ao corpo por todas
as suas fibras, o perispírito faz repercutir na alma todas as
sensações daquele, com sofrimentos cruciantes.(6)
Considerando que a consciência é do Espírito, ao
deixar o corpo, tem imediatamente consciência de si mesmo? Tentando
elucidar essa questão, Allan Kardec inquiriu os Espíritos
e deles recebeu o esclarecimento de que "(...) A consciência
é do Espírito e após a morte corporal, ele passa
por um período variável de perturbação,
de acordo com o estado moral da alma".(7)
Seria este estado de perturbação normal? Como é
este estado?
A literatura espírita é rica em depoimentos como por exemplo
as mensagens, enviadas pelos desencarnados aos seus familiares, por
intermédio de Francisco Cândido Xavier, relatadas no livro
Nossa Vida no Além, confirmando as questões 163 a 165
de O Livro dos Espíritos (8). Comentando sobre o estado de perturbação
pelo qual a alma passa após a morte, de acordo com a elevação
de cada um, em tempo variável,o estado de torpor manifesta-se
como um sono profundo, irresistível, arrasador, a que se entrega
o Espírito, no momento da morte, podendo permanecer nele por
breves horas, dias, meses ou longos anos.Um exemplo deste fato é
a mensagem de Carlos Alberto Andrade Santoro, jovem de 20 anos, falecido
de acidente de avião, enviada em 11/3/1977:
"(.....) Chorei, dentro
de uma imobilidade que eu não saberia descrever, e, em seguida,
notei que mãos de enfermagem me anestesiavam. Era o sono, o
sono da bênção, porque, entre a morte do corpo
e o renascimento na Vida Espiritual, Deus colocou um desmaio providencial.
Quando acordei, me vi sem qualquer ligação com nosso
amigo Denizart ( falecido também no desastre) e com a nossa
gente amiga de Votuporanga" (9)
O estado do Espírito por ocasião da morte pode ser assim
resumido: Tanto maior é o sofrimento, quanto mais lento for o desprendimento
do perispírito; a presteza deste desprendimento está na
razão direta do adiantamento moral do Espírito; para o Espírito
desmaterializado, de consciência pura, a morte é qual um
sono breve, isento de agonia, e cujo despertar é suavíssimo
(10) .
- O estudo desperta-nos para que cada qual trabalhe na sua renovação,
reprima as tendências inferiores e eduque as paixões em prol
do futuro, visto como, Espírito imortal que é identifique-se
com a vida espiritual , encaminhando para ela as aspirações
.
Devemos considerar a vida atual sob um ponto de vista que satisfaça
ao mesmo tempo à razão, à lógica, ao bom senso
e ao conceito em que temos a grandeza, a bondade e a justiça de
Deus. Considerado deste ponto de vista, o Espiritismo, pela fé
inabalável que proporciona, é, de quantas doutrinas filosóficas
que conhecemos, a que exerce mais poderosa influência. (11)
Bibliografia:
- Kardec ,Allan, " Céu
e Inferno" Segunda Parte,capitulo I item 4 e5.
- KARDEC, Allan. "A Gênese".
22ª ed. Trad. Guillon Ribeiro. 1980, pg. 215.
- KARDEC, Allan. Da Volta do Espírito,
Extinta a Vida Corpórea, à Vida Espiritual. In: - O
Livro dos Espíritos. Trad. de Guillon Ribeiro. 57 ed. Rio de
Janeiro, FEB, 1983. Parte 2ª ,questão 155, p. 114.-115
-
- Allan ,Kardec , " Céu
e Inferno" Segunda Parte,capitulo I item 9
- Allan ,Kardec , " Céu
e Inferno" Segunda Parte,capitulo I item 11
- Allan ,Kardec , " Céu
e Inferno" Segunda Parte,capitulo I item 12
- Kardec Allan "O Livro Dos
Espíritos "- 76a. ed. - questão 163
- Xavier Chico Nossa Vida no Além
- A Vida Triunfa, caso 14; Viajores
da Luz, 1ª carta-mensagem, p.17
- Allan ,Kardec , " Céu
e Inferno" Segunda Parte,capitulo I item 13
- Allan ,Kardec , " Céu
e Inferno" Segunda Parte,capitulo I item 14
Laurelucia Orive Lunardi
Novembro / 2005
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