O Céu e o Inferno

por

Allan Kardec

 

 

Nesta obra Allan Kardec reafirma o caráter científico do Espiritismo e avalia como ciência de observação, a nova doutrina, enfrentando o problema das penas e recompensas futuras à luz da História, estabelecendo comparações entre as idealizações do céu e do inferno nas religiões anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas dessas idealizações na formulação dos dogmas cristãos.

CAPÍTULO VII:- Espíritos endurecidos:- UM ESPÍRITO ABORRECIDO


... (Bordéus, 1862)
- P. Estais há muito em tal situação? - R. Faz cento e oitenta anos mais ou menos. - P. Que
fizestes na Terra? - R. Nada de bom.
2. - Qual a vossa posição entre os Espíritos? - R. Estou entre os entediados. –(1)


O tédio é um fenômeno que revela tudo que estagna a existência, o que molesta, enfada, cansa, aborrece, incomoda e enjoa. A identificação da palavra tédio,insistindo nas definições e na etimologia da palavra, não e’ feita por razões escolásticas, mas para captar tanto quanto possível o que esta nos comunica. Este termo procede do latim: tædium, do verbo tædere, e nos dicionários é traduzido como fastio, desgosto, aborrecimento, dissabor, enjôo, repugnância, tudo que enfada, molesta, cansa, incomoda. "Tædium movere si" (tacito) significa: tornar-se enfadonho a si mesmo (2). No grego antigo, além da palavra ANIA (anía) que corresponde ao significado, tédio, existe também a palavra - THTH (titi) do verbo titaome, que significa falta de algo, escassez (3). Nas línguas modernas como, por exemplo, no inglês: tediousness, tiresomely long or slow from dullnes, bored (cansativamente longo ou lento) (4). Em alemão: langweiligkeit (tempo vagaroso, longo) (5). Em francês: ce qui est fastidieux (6).
No tédio existe o aborrecimento, o desgosto, a falta de algo, especialmente na língua alemã e no inglês, é ressaltada nitidamente, a vivência do tempo que fica estagnado. Mas não somente o tempo vivencial se altera, também o espaço se torna mais reduzido no sentido do desgosto, enjôo, na falta de iniciativa. O tédio exala o tempo vagaroso que arrasta para um mundo desprovido de significações e esvaziado de sentidos(7). Como vivência existencial fundamental, o tédio faz parte da vida humana representando uma marca intersubjetiva diante da realidade esvaziada de significações sensíveis É como estar num mundo desprovido da mínima emoção humana.(8)

Nas diferentes culturas representadas pelas línguas analisadas e em diferentes tempos torna-se evidente que a ausência de significações emocionais torna o tédio uma forma de viver mental que incorporada no ser se manifesta em todo o viver mesmo na ausência de um corpo material.
É o que relata Allan Kardec neste caso trazido para análise.

... ”5. - Os Espíritos que, como vós, foram tomados de tédio, não podem libertar-se
de tal contingência desde que o desejem? - R. Não, nem sempre, porque o tédio lhes
paralisa a vontade. Sofrem as conseqüências da vida que levaram, e, como foram
inúteis, desprovidos de iniciativa, assim também não encontram entre si concurso
algum. Entregues a si mesmos, nesse estado permanecem, até que o cansaço,
decorrente de tal neutralidade os agite em sentido contrario, momento no qual a sua
menor vontade vai encontrar apoio e bons conselhos e secundar-lhes o esforço e a perseverança (1)
O tédio é o atestado permanente da infelicidade íntima e sua herança é uma espécie de hábito nocivo de mostrar para o maior número possível de pessoas sua condição de miserabilidade afetiva e social. O tédio funciona como uma couraça ou muro construído após sucessivas etapas de decepção, medo ou solidão. Não sofrer novamente é o único seguro para não procurar novas experiências frustrantes.(9)
...”7. - E não vos aproveitaram as existências anteriores? - R. Sim, todas, porém,
parcamente, visto serem reflexos umas das outras. O progresso existe sempre, porém
tão insensível que se nos torna inapreciável.
8. - Enquanto esperais uma nova encarnação, apraz-vos repetir as vossas
comunicações? - R. Evocai-me para me obrigardes a vir, pois com isso me prestareis
um beneficio.”(1)

O tédio ou frustração existencial ,caracteriza-se por um estado de aborrecimento, apatia e inutilidade no qual o indivíduo carece de direção e questiona a finalidade de todas as atividades da sua vida, optando por nada fazer(10).
Os comentários que se segue foram feitos pelos Espíritos a Allan Kardec a respeito do caso em questão :
“...” Este é um ocioso no mundo espiritual, assim como o foi no planeta. Trouxemo-lo a ti para que tentasses arrancá-lo dessa apatia, desse tédio que constitui verdadeiro sofrimento, às vezes mais doloroso que os sofrimentos agudos, por se poder prolongar
indefinidamente. Imagina a perspectiva de um tédio sem-fim. A maior parte das vezes são os Espíritos dessa categoria que buscam as vidas terrestres apenas como passatempo e
para interromper a monotonia da vida espiritual. Assim acontece aí chegarem
freqüentemente sem resoluções definidas para o bem, obrigados a recomeçarem
sucessivamente, até atingirem a compreensão do verdadeiro progresso.”(1)

Para tudo há um limite, seja a infelicidade ou a própria crueldade dirigida contra a si mesmo pela ociosidade.Aos poucos estes Espíritos aborrecidos a partir do enfrentamento da solidão, da vida, da finitude, da dor e do sofrimento, reconstroem as significações sensíveis, amadurecem e aproveitam melhor as novas existências.

Bibliografia:

1
Kardec Allan ,O Céu e o Inferno, cap VII:- Espíritos endurecidos :- UM ESPÍRITO ABORRECIDO.
2
Dicionário Latim-Português Português-Latim Ed Porto
3
Isidro Pereira, S. J, Dicionário Grego-Português E Português- Grego
4
Michaelis Moderno Dicionário Inglês
5
Jelssa Ciardi Avolio e Mára Lucia Faury Dicionário Escolar Francês
6
Alfred Josef Keller ,Dicionário Escolar Alemão.
7 Freud, Sigmund. O Mal Estar Da Civilização. Obras Completas, Madrid: Biblioteca Nueva, 1981
8 Lars Svendsen ,Filosofia Do Tédio
9 Adler, Alfred. O Caráter Neurótico. Buenos Aires: Paidós, 1912
10
J. Revers. Psicologia do Tédio
 
Laurelucia Orive Lunardi
Março / 2009

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