Nesta obra Allan
Kardec reafirma o caráter científico do Espiritismo e
avalia como ciência de observação, a nova doutrina,
enfrentando o problema das penas e recompensas futuras à luz
da História, estabelecendo comparações entre as
idealizações do céu e do inferno nas religiões
anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes
históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas
dessas idealizações na formulação dos dogmas
cristãos.
CAPÍTULO VIII EXPIAÇÕES TERRESTRES
MARCEL,
o menino do nº 4 (continuação)
...O médico que o assistia, cheio de compaixão pelo pobre
um tanto abandonado, visto que seus parentes pouco o visitavam, tomou
por ele certo interesse. E achava-lhe um quê de atraente na precocidade
intelectual. Assim, não só o tratava com bondade, como
lia-lhe quando as ocupações lho permitiam, admirando-se
do seu critério na apreciação de coisas a seu ver
superiores ao discernimento da sua idade. Um dia, o menino disse-lhe:
-
"Doutor tenha a bondade de me dar ainda uma vez aquelas pílulas
ultimamente
receitadas." Para quê? replicou-lhe o médico, se já
te ministrei o suficiente, e maior
quantidade pode fazer-te mal...
- "É que eu sofro tanto, que dificilmente posso orar a Deus
para que me dê
forças, pois não quero incomodar os outros enfermos que
aí estão. Essas pílulas
fazem-me dormir e, ao menos quando durmo, a ninguém incomodo."
Aqui está quanto basta para demonstrar a grandeza dessa alma
encerrada num corpo informe
... Onde teria ido essa criança haurir tais sentimentos? (1)
Na vida diária seja através da mídia ou através
de relacionamentos, deparamos com pessoas envolvidas em situações
tão difíceis de pobreza extrema e de marginalidade social
que, apesar do meio em que nasceram e vivem, transcendem ao meio, por
exemplo, ao devolverem uma carteira recheada de dinheiro, que certamente
resolveria alguns de seus problemas primários, ou ao acolher
em seus barracos filhos abandonados de outrem dividindo com eles sua
miséria. Como compreender a delicadeza encontrada em seres que
vivem em condições tão inóspitas para a
proliferação da ética e da bondade?
O que dizer de filhos que receberam a mesma educação pautada
no respeito ao próximo a conduta honesta e ética e um
deles enveredou-se na criminalidade. O meio em que se educou foi propicio
aos outros irmãos, mas não a ele?
O que dizer de valores considerados inatos sejam para o bem ou para
o mal? Que justiça divina pode ser esperada de um Deus que criou
seres com uma única oportunidade de viver na Terra em situações
tão díspares? Ou em condições desiguais
de obterem valores no meio em que vivem ou já portadores ao nascer
de deformações de caráter?
Como conseguir grandeza de alma neste cenário?
No caso de Marcel, essa grandeza de alma, como comenta Allan Kardec
não adveio do meio em que vivia ou da educação
recebida ‘‘... Certo, não foi no meio em que
se educou; além disso, na idade em que principiou a sofrer, não
possuía sequer o raciocínio. Tais sentimentos eram-lhe
inatos: - mas então por que se via condenado ao sofrimento, admitindo-se
que Deus houvesse concomitantemente criado uma alma assim tão
nobre e aquele mísero corpo instrumento dos suplícios?É
preciso negar a bondade de Deus, ou admitir a anterioridade de causa;
isto é, a preexistência da alma e a pluralidade das existências.
(1)
No livro dos Espíritos na questão 166 b em reposta a pergunta
de Kardec se a alma teria muitas existências corpóreas,
a resposta afirmativa se complementou na questão 168 “...
A cada nova existência, o Espírito dá um passo na
senda do progresso; quando se despoja de todas as suas impurezas, não
precisa mais das provas da vida corpórea. “(2 e 3)
Reconhecendo por impurezas todo o sentimento e emoção
que aproxima o homem da animalidade dentro da escala evolutiva, torna-se
fácil considerar que uma única existência seria
muito pouco para executar tamanha tarefa, assim comenta Kardec...
”Todos os Espíritos tendem à perfeição,
e Deus lhes proporciona os meios de consegui-la com as provas da vida
corpórea. Mas, na sua justiça, permite-lhes realizar,
em novas existências, aquilo que não puderam fazer ou acabar
numa primeira prova. Não estaria de acordo com a eqüidade,
nem segundo a bondade de Deus, castigar para sempre aqueles que encontraram
obstáculos ao seu melhoramento, independentemente de sua vontade,
no próprio meio em que foram colocados. Se a sorte do homem fosse
irrevogavelmente fixada após a sua morte, Deus não teria
pesado as ações de todos na mesma balança e não
os teria tratado com imparcialidade. (4).
“... Em virtude da lei do progresso que dá a toda alma
a possibilidade de adquirir o bem que lhe falta, como de despojar-se
do que tem de mau, conforme o esforço e vontade próprios
temos que o futuro é aberto a todas as criaturas. Deus não
repudia nenhum de seus filhos, antes recebe-os em seu seio à
medida que atingem a perfeição, deixando a cada qual o
mérito das suas obras. O bem e o mal são praticados em
virtude do livre-arbítrio, e, conseqüentemente, sem que
o Espírito seja fatalmente impelido para um ou outro sentido.
(5)
A pluralidade das existências traz ao homem a explicação
de todas as aparentes anomalias da vida humana; desde as físicas,
as diferenças sociais; a desigualdade de aptidões intelectuais
e morais até mesmo as mortes prematuras. Desaparecem os preconceitos
de raça e de casta, pois o mesmo espírito pode tornar
a nascer nesta ou naquela raça ou país, podendo ser rico
ou pobre, chefe ou subordinado ou como homem ou como mulher. Assim a
reencarnação é um processo de aperfeiçoamento
espiritual não havendo experiência reencarnatória
sem um objetivo. Pois o estado corporal é transitório
e passageiro. O estado espiritual é o estado definitivo do espírito.
É, sobretudo no estado espiritual que ele recolhe os frutos
do progresso realizado durante a encarnação. (6)
O reaparecimento neste mundo do ser após a morte não é
uma novidade trazida pelo Espiritismo. Therezinha Oliveira (7) comenta
que na Antigüidade, povos da Ásia (como os hindus), da África
(os egípcios) e da Europa (gregos, romanos e os celtas) acreditavam
que o Espírito do homem poderia voltar a viver na Terra em uma
nova existência. Alguns deles acreditavam que pudesse vir a animar
um corpo de um animal e vice-versa, teoria esta denominada de Metempsicose.
Esclarece a Doutrina Espírita que essa volta em corpo animal
é impossível, pois o Espírito nunca retrocede no
grau de evolução alcançado, podendo apenas estacionar,
temporariamente.
Uma outra crença , existente entre os judeus antigos e depois
propagada por algumas religiões cristas era a idéia de
que uma pessoa, depois de morta, podia ressuscitar, isto é, ressurgir,
reaparecer neste mundo Algumas religiões atuais falam de ressurreição
como a volta à vida no mesmo corpo. Entretanto os judeus antigos
se referiam a ressurreição com exemplos que poderiam ser
analisados como a qualquer manifestação do Espírito,
fosse em vidência, aparição, materialização.
A ciência moderna demonstra, que a ressurreição
da carne é naturalmente impossível já que, com
a morte, o corpo entra em decomposição e as substâncias
que o compunham se transformam e são reaproveitadas dentro do
ciclo biológico.(7)
O conceito de Reencarnação proposto pela Doutrina Espírita
em nada se relaciona com a teoria de Metempsicose ou a da Ressurreição
da carne. Sendo o Espírito imortal, não se desfaz com
o corpo físico quando da morte deste, continua a viver com o
seu próprio corpo espiritual (perispírito) e na maioria
das vezes por escolha própria volta a se ligar com a matéria,durante
o desenvolvimento embrionário, formando um novo corpo, para viver
outra existência na Terra, onde adquire experiências , expia
erros passados ,progredindo sempre .(2 e3)
Comenta Emmanuel (8) ...” No instituto da reencarnação,
transportamos conosco, seja onde for, as oportunidades do presente e
os débitos do passado. É assim que os ricos de hoje, enquistados
na avareza e no egoísmo, voltarão amanhã no martírio
obscuro dos pobres, para conhecerem, de perto, as garras do infortúnio
e as duras lições da necessidade; e os pobres, envenenados
de inveja e ódio, retornarão no conforto dos ricos, a
fim de saberem quanto custam a tentação e a responsabilidade
de possuir; titulados distintos do mundo, quais sejam os magistrados
e os médicos, quando menosprezam as concessões com que
o Senhor lhes galardoa o campo da inteligência, delas fazendo
instrumento de escárnio às lutas do próximo, ressurgirão
no banco dos réus e no leito dos nosocômios, de modo a
experimentarem os problemas e as angústias do povo; filhos indiferentes
e ingratos tornarão como servos apagados e humildes no lar que
enlameiam, e recolhendo nos descendentes os frutos amargos da criminalidade
e do vício que cultivaram com as próprias mãos;
mulheres enobrecidas que fogem ao ministério familiar, provocando
o aborto delituoso pela fome de prazer, reaparecerão enfermas
e estéreis, tanto quanto homens válidos e robustos, que
envilecem a vida no abuso das forças respeitáveis da natureza,
ressurgirão na ribalta do mundo, carregando no próprio
corpo o desequilíbrio Não te esqueças, portanto,
de que o bem é o crédito infalível no livro da
eternidade, e recorda que o "depois" será sempre a
resultante do "agora". Todo instante é recurso de começar
o melhor. Todo dia é tempo de renovar o destino. (8) .
A reencarnação é uma necessidade da alma imperfeita
que, através das experiências na matéria, aprende
o que necessita para sua definitiva libertação da ignorância.O
destino estará sendo traçado por tudo o que se fizer.
A forma de se viver, bem ou mal, sadios ou doentes, felizes ou tristes,
será sempre resultado de escolhas. A plantação
é livre; porém, a colheita obrigatória. Tudo em
perfeita harmonia com a Justiça Divina.(9)
| Bibliografia: |
| 1 |
Kardec ,Allan, “Céu
e Inferno” CAPÍTULO VIII EXPIAÇÕES TERRESTRES
MARCEL, o menino do nº 4 |
| 2 |
Kardec ,Allan, O Livros
dos Espíritos, questão 166b |
| 3 |
Kardec ,Allan, O Livros
dos Espíritos, questão 168 |
| 4 |
Kardec ,Allan, O Livros
dos Espíritos, questão 171 |
| 5 |
Kardec ,Allan, “Céu
e Inferno” Capitulo VI, Código penal da vida futura |
| 6 |
Kardec ,Allan, “O
Céu e o Inferno” Capitulo III, |
| 7 |
Oliveira, Therezinha
Iniciação ao Espiritismo, cap. 15 - Reencarnação
(Therezinha Oliveira, ed. EME - 1993, pg 82 |
| 8 |
Francisco Cândido Xavier \
Emmanuel, Religião dos Espíritos . |
| 9 |
Denis Leon,O Problema
do Ser e do destino |
Laurelucia Orive Lunardi
Maio / 2010 |
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