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Nesta obra Allan Kardec reafirma o caráter
científico do Espiritismo e avalia como ciência de observação,
a nova doutrina, enfrentando o problema das penas e recompensas futuras
à luz da História, estabelecendo comparações
entre as idealizações do céu e do inferno nas religiões
anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes
históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas
dessas idealizações na formulação dos dogmas
cristãos.
CAPÍTULO VIII EXPIAÇÕES TERRESTRES
MARCEL, o menino do nº 4 (continuação)
P.- Pelo que afirmais, parece que
os vossos sofrimentos não eram expiação de
faltas anteriores...
R. - Não seria uma expiação direta, mas asseguro-vos
que todo sofrimento tem uma
causa justa. Aquele a quem conhecestes tão míseros foi
belo, grande, rico e adulado. Eu tivera turiferários e cortesãos,
fora fútil e orgulhoso. Anteriormente fui bem culpado reneguei
Deus, prejudiquei meu semelhante, mas expiei cruelmente, primeiro no
mundo espiritual e depois na Terra. Os meus sofrimentos, de alguns anos
apenas, nesta última encarnação, suportei-os eu
anteriormente por toda uma existência que ralou pela extrema velhice.
Por meu arrependimento reconquistei a graça do Senhor, o qual
me confiou muitas missões, inclusive a última, que bem
conheceis. E fui eu quem as solicitou, para terminar a minha depuração.
Adeus, amigos; tornarei algumas vezes. A minha missão é
de consolar, e não de instruir. Há, porém, aqui
muitas pessoas cujas feridas jazem ocultas, e essas terão prazer
com a minha presença.
Marcel...(1)
O vocábulo expiação,
(do latim, expiatione), tem como significado o ato ou efeito de expiar.
Nos dicionários expiar significa: punição divina,
arrependimento, remorso de haver ofendido a Deus, castigo infligido
por alguma falta ou castigo impingido ao pecador. Pecado designa todas
as transgressões de uma Lei ou de princípios religiosos,
éticos ou normas morais.
Na maioria das religiões o pecado é a desobediência
à vontade de Deus ou as suas Leis . No Judaísmo a violação
de um mandamento divino é considerada como um pecado(2), assim
como o Islam vê o pecado (khati'a ") como algo que vai contra
a vontade de Alá (Deus)(3). Entretanto em outras religiões
como no Budismo e no Hinduismo o pecado é mais um engano do que
uma transgressão contra a natureza do Deus onipotente. O budismo,
por exemplo, ensina que o pecado é um ato e não um estado
de ser e no hinduismo o termo pecado papa (em sânscrito) é
freqüentemente usada para descrever as ações que
criam carma negativo por violar códigos de ética e moral(4)
(5)
Nas religiões cristãs tanto o(s) pecado(s) como sua expiação
diferem. Na doutrina católica por exemplo, o pecado é
distinguido em 3 categorias:
O pecado original, que é transmitido a todos
os homens, sem culpa própria, devido à sua origem, que é
Adão e Eva
O pecado mortal, que é cometido "quando, ao mesmo tempo, há
matéria grave, plena consciência e deliberado consentimento
E o pecado venial, "que difere essencialmente do pecado mortal, comete-se
quando se trata de matéria leve, ou mesmo grave, mas sem pleno
conhecimento ou sem total consentimento”(6)
Na
perspectiva Protestante e dos diferentes ramos Evangélicos, os
pecados não são classificados como venial, mortal ou capital
e, expiação tem sentido mais genérico e significa
“pagamento dos pecados” ou “remissão da culpa,
pela aplicação da pena”. Segundo esta perspectiva
não existe pecado pequeno ou grande,o pecado nada mais é
do que a transgressão aos mandamentos de Deus por exemplo a transgressão
de qualquer um dos dez mandamentos apresentados nas tábuas das
leis de Moises é classificado como um pecado. Assim, quando uma
criatura transgride a Lei, esta suscita a ira de Deus, a qual só
pode ser aplacada com o pagamento do salário do pecado, que é
a expiação.(7) No Antigo Testamento,
a doutrina da expiação é um conceito de justiça
e misericórdia baseado no arranjo figurativo do sacrifício
de animais. O sangue de um animal era derramado no altar como "resgate"
dos pecados cometidos de natureza menor da Lei de Deus, este sacrifício
,historicamente era derivado dos cultos pagãos onde cordeiros eram
sacrificados aos seus diferentes deuses No Novo Testamento o cordeiro
sacrificado foi Jesus Cristo, o filho de Deus, que morreu e ressuscitou
para salvar a humanidade do pecado(8) por isso em algumas
religiões ele é denominado de Cordeiro de Deus.(9)
Segundo Willian Shedd(9) algumas Teorias da Expiação podem
apresentar uma luz aos diferentes posicionamentos frente a expiação
dos pecados nas diferentes religiões cristãs.
1ª. Teoria
do resgate pago a Satanás – sustentada por Orígenes,
teólogo de Alexandria: afirmava que Cristo pagou o resgate a Satanás,
em cujo reino se encontravam todas as pessoas devido ao pecado.
2ª. Teoria da influência moral – defendida por Abelardo,
teólogo francês: sustenta que a morte de Cristo foi apenas
um exemplo de como Deus ama o homem e não o pagamento de uma exigência.
Esta demonstração de amor nos leva à gratidão
e ao amor e, portanto, ao arrependimento e à fé.
3ª. Teoria da Satisfação – proposta por Anselmo:
diz que o pecado ofende a honra de Deus, o que exige satisfação.
Como os homens, não poderiam pagar uma dívida tão
grande e somente Deus poderia pagar este preço e como eram os homens
os devedores, somente um Deus-homem ( Cristo)poderia dar uma satisfação
plena
4ª. Teoria Governamental – proposta por Hugo Grotius, teólogo
holandês: sustenta que Deus não tinha realmente que exigir
pagamento pelo pecado, mas para mostrar que Ele é o Legislador
do Universo e quando uma de Suas leis é quebrada uma pena terá
que ser paga. Assim, Cristo não paga a pena por nossos pecados,
mas apenas cumpre a lei divina.
5ª. Teoria da Substituição Penal – declara que
Cristo suportou em nosso lugar a total penalidade que deveríamos
pagar. Ele morreu não somente em nosso benefício, mas em
nosso lugar. Cristo identifica-se com a raça humana, tornando-se
igual a nós, mas sem pecado.
A
5ª. Teoria seria a base da expiação da maioria das
religiões cristãs protestantes e alguma evangélicas,
onde a aceitação de Cristo como Salvador libertaria o homem
da condição de devedor a Deus visto que este segmento não
crê em purgatório, mas sim no Juízo final(10).
Já a doutrina católica considera a expiação
segundo o pecado cometido. Assim no pecado venial por exemplo impede o
progresso da alma no exercício das virtudes e na prática
do bem moral; merece penas purificatórias temporais", nomeadamente
no Purgatório(11) já o pecado original,
pelo qual Cristo morreu na cruz e´ perdoado pelo sacramento do Batismo
(6). A linha que une a maioria das religiões cristãs entretanto
não é o pecado ou a expiação deste , mas sim
uma visão muito humanizada de Deus, cruel e vingativo, e como um
pai autoritário e rigoroso castiga seus filhos. A esse respeito
comenta Allan Kardec(12).
...” Impotente para compreender a essência mesma da Divindade,
o homem não pode fazer dela mais do que uma idéia aproximativa,
mediante comparações necessariamente muito imperfeitas,
mas que, ao menos, servem para lhe mostrar a possibilidade daquilo que,
à primeira vista, lhe parece impossível... Vendo-se limitados
e circunscritos, eles o imaginam também circunscrito e limitado.
Imaginando-o circunscrito, figuram-no quais eles são, à
imagem e semelhança deles. Os quadros em que o vemos com traços
humanos não contribuem pouco para entreter esse erro no espírito
das massas, que nele adoram mais a forma que o pensamento. Para a maioria,
é ele um soberano poderoso, sentado num trono inacessível
e perdido na imensidade dos céus.”(12)
O Espiritismo nos dá outra visão. Deus é a suprema
perfeição, causa primária de todas as coisas. Deus
é infinitamente bom e justo e não castiga os seus filhos,
os criou a todos iguais, sem nenhum privilégio . Ao contrario,
os criou no início simples e ignorante, destinado a alcançar,
por seu próprio esforço, a perfeição e a felicidade.
Dotou o homem do livre-arbítrio para que cada um possa caminhar
com liberdade de ação para aprender com o próprio
erro. Tendo a consciência das conseqüências de seus erros,
ele não só aprende como se propõe a corrigi-los,
utilizando-se da misericórdia divina, nos processos de resgate
e reajustamento em novos processos reencarnatorios. A expiação
é, assim, a alavanca que move o espírito estacionário
ao caminho da perfeição.
| Bibliografia: |
| 1 |
Kardec ,Allan,“
Céu e Inferno” CAPÍTULO VIII Expiações
Terrestres Marcel, o menino do nº 4 (continuação) |
| 2 |
Marques, Leonardo A.
História das Religiões e a Dialética do Sagrado.
Madras, 2005 |
| 3 |
Alcorão 12 : 53
Kardec ,Allan, |
| 4 |
Gyatso ,Geshe Kelsang
Introdução ao Budismo . |
| 5 |
Stoddart William ,O Hinduismo. |
| 6 |
Compêndio do Catecismo
da Igreja Católica n. 76 e 77 |
| 7 |
Revista Eclesiástica
Brasileira Vol. 43 - Fascículo 172 , Lutero Entre a Reforma
e a Libertação |
| 8 |
Grudem, Wayne. Teologia
Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999. |
| 9 |
Shedd Willian ,Teologia
Sistemática |
| 10 |
Ryrie, Charles Caldwell,
Teologia Básica |
| 11 |
Compêndio do Catecismo
da Igreja Católica, n. 396. |
| 12 |
Kardec Allan,A Gênese
, cap.II,itens 21 e 22 |
| |
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Laurelucia Orive Lunardi
Junho / 2010 |
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