Nesta obra Allan
Kardec reafirma o caráter científico do Espiritismo e
avalia como ciência de observação, a nova doutrina,
enfrentando o problema das penas e recompensas futuras à luz
da História, estabelecendo comparações entre as
idealizações do céu e do inferno nas religiões
anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes
históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas
dessas idealizações na formulação dos dogmas
cristãos.
CAPÍTULO
VII:- Espíritos endurecidos :- UM ESPÍRITO ABORRECIDO
XUMÈNE
(Bordéus, 1862)
“...Sofro todos os tormentos do inferno.
- P. Mas se o inferno não existe, como podeis sofrer-lhe as torturas?
- R. Pergunta inútil.
- P. Compreendo, mas outros precisam de explicações...
- R. Isso pouco me incomoda.
- P. O egoísmo não será uma das causas do vosso
sofrimento? - R. Pode ser.(1)
O egoísmo é
descrito como das mais terríveis enfermidades da alma e o maior
obstáculo ao melhoramento ,Na questão 913 de “O
Livro dos Espíritos”, Allan Kardec questiona os Amigos
Espirituais:
...- Dentre
os vícios, qual o que se pode considerar radical?
R.:Temo-lo dito muitas vezes: o egoísmo. Daí deriva todo
o mal. Estudai todos os vícios e vereis que no fundo de todos há egoísmo.”
(2).
Do egoísmo derivam a ambição,
o ciúme, a inveja, o ódio, o orgulho e toda sorte de males
que infelicitam o Ser, pelas mágoas que produzem, pela desarmonia
que provocam e pelas perturbações tanto sociais como intimas
que acarretam.
Em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, no capítulo
XIV – Amar o próximo como a si mesmo – os Espíritos Emmanuel
e Pascal afirmam que o egoísmo é a negação da caridade,
obstando a felicidade dos homens,pois fundamenta-se num sentimento exagerado de
interesse pessoal, no cuidado exclusivo de si mesmo e no desamor a todos
os outros.
...”P.
Se quiserdes ser aliviado, começai repudiando as más tendências
...
- R. Não te incomodes com o que não é da tua conta;
principia orando por mim, como praticas com os outros, e depois veremos.
- P. A não me auxiliardes com o vosso arrependimento, a prece
pouco valor poderá ter.
- R. Mas falando, em vez de orares, menos ainda me adiantarás.
- P. Então desejais adiantar-vos?
- R. Talvez... não sei. Vejamos o essencial, isto é, se
a prece alivia os sofrimentos.
- P. Unamos então os nossos pensamentos com a firme vontade de
obter o vosso alívio.
- R. Vá lá.(1)
Na maioria das vezes o ser humano
prefere viver nas ilusões efêmeras da matéria do
que enfrentar a si mesmo. Isso ocorre toda vez que uma pessoa dá
mais valor ao que é material do que ao seu verdadeiro eu, situações
que se traduzem através do prazer ao se adquirir “algo”
ou ao ser tratado com deferência em relação aos
demais.
Na questão 917 de “O Livro dos Espíritos”,
Allan Kardec questiona os Amigos Espirituais:
...”.
Qual é o meio de se destruir o egoísmo?
-- De todas as imperfeições humanas, a mais difícil
de desenraizar é o egoísmo, porque se liga à influência
da matéria, da qual o homem, ainda muito próximo da sua
origem, não pode libertar-se. Tudo concorre para entreter essa
influência; suas leis, sua organização social, sua
educação. O egoísmo se enfraquecerá com
a predominância da vida moral sobre a vida material...(3)
A orientação para
que ocorra essa predominância e dada por Allan Kardec ,no preâmbulo
das Obras Postumas
“...O homem que trabalha seriamente pelo seu próprio
aperfeiçoamento assegura a sua felicidade desde esta vida ; além
da satisfação de sua consciência , isenta-se das
misérias , materiais e morais , que são a conseqüência
inevitável de suas imperfeições . Terá a
calma porque as vicissitudes não farão senão de
leve roçá-lo; terá a saúde porque não
usará o seu corpo para os excessos ; será rico , porque
se é sempre rico quando se sabe contentar-se com o necessário
; terá a paz da alma , porque não terá necessidades
fictícias, não será mais atormentado pela sede
das honras e do supérfluo , pela febre da ambição
, da inveja e do ciúme ; indulgente para com as imperfeições
de outrem , delas sofrerá menos ; excitarão a sua piedade
e não a sua cólera ; evitando tudo o que pode prejudicar
o seu próximo , em palavras e em ações , procurando,
ao contrário , tudo o que pode ser útil e agradável
aos outros , ninguém sofrerá com o seu contato . Assegura
a sua felicidade na vida futura , porque , quanto mais estiver depurado,
mais se elevará na hierarquia dos seres inteligentes , e logo
deixará esta Terra de provas por mundos superiores ; porque o
mal que tiver reparado nesta vida não terá mais que reparar
em outras existências ; porque , na erraticidade, não encontrará
senão seres amigos e simpáticos , e não será
atormentado pela visão incessante daqueles que teriam do que
se lamentar dele”.(4)
O egoísmo é a fonte de todos os vícios, como a
caridade é a fonte de todas as virtudes. Desgastar um e desenvolver
a outra deve ser alvo de todos os esforços do homem, quando deseja
assegurar a sua felicidade neste mundo, tanto quanto no futuro.(5)
Xuméne, pensando só em si, fechava-se ‘a tudo quanto
o rodeava, impossibilitando-se de receber qualquer ajuda. Os “tormentos
do inferno”, por decorrência, eram mantidos por ele, na
sua visão restrita que sendo o centro de tudo,não recebia
o que lhe era de direito, acrescendo-se aí a revolta, a queixa
a inconformaçao . Ele é um exemplo daquele que ao morrer
leva consigo só aquilo que os fez grandes ou importantes na Terra;
a fortuna , o poder, os títulos.Chega a vida espiritual desprovidos
de tudo, conservando apenas o egoísmo e o orgulho, o que torna
mais conflitada sua situação . Esqueceu-se do cultivo
das virtudes, da prática do bem, estas sim, verdadeiras grandezas
que alem de não se perderem atraem auxilio, entendimento , consolo
e disposição para retomadas.
| Bibliografia: |
| 1 |
Kardec Allan ,O Céu
e o Inferno, cap VII:- Espíritos endurecidos :- UM ESPÍRITO
ABORRECIDO. XUMÈNE |
| 2 |
Kardec Allan , O LIVRO
DOS ESPÍRITOS, questão 913 |
| 3 |
Kardec Allan , O LIVRO
DOS ESPÍRITOS, questão 917 |
| 4 |
Allan Kardec “Obras
Póstumas“, Credo Espírita — Preâmbulo
|
| 5 |
O LIVRO DOS ESPíRITOS
- LIVRO 3, CAP. 12 - DO EGOíSMO |
| |
|
Laurelucia Orive Lunardi e
Leda Marques Bighetti
Junho / 2009 |
|
Voltar ao Índice
Imprimir
|