O Céu e o Inferno
por
ALLAN KARDEC
 
 

 

Nesta obra Allan Kardec reafirma o caráter científico do Espiritismo e avalia como ciência de observação, a nova doutrina, enfrentando o problema das penas e recompensas futuras à luz da História, estabelecendo comparações entre as idealizações do céu e do inferno nas religiões anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas dessas idealizações na formulação dos dogmas cristãos.

CapituloIV : ESPÍRITOS SOFREDORES:

"(...)Fui no mundo um ser inútil; não fiz uso algum proveitoso das minhas faculdades; a fortuna serviu apenas à satisfação das minhas paixões, aos meus caprichos de luxo e à minha vaidade; não pensei senão nos gozos do corpo, desprezando os da alma e a própria alma. Descerá a misericórdia de Deus até mim, pobre Espírito que sofre as conseqüências das suas faltas terrenas? (...)"Auguste Michel(1)

O presente é resultado do passado, esta afirmativa é válida em qualquer período da existência do homem , seja quando encarnado na Terra ou desencarnado no mundo Espiritual. A liberdade para escolher caminhos e´acompanhada pela responsabilidade do que se realiza. É o que mostra o depoimento de Auguste Michel quando evocado alguns dias depois da morte .
Allan Kardec comenta que (...) Auguste Michel,era um moço rico, boêmio, gozando larga e exclusivamente a vida material. Conquanto inteligente, o indiferentismo pelas coisas sérias era-lhe o traço característico.

Sem maldade, antes bom que mau, fazia-se estimar por seus companheiros de pândegas, sendo apontado na sociedade por suas qualidades de homem mundano. Não fez o bem, mas também não fez o mal. Faleceu em conseqüência de uma queda da carruagem em que passeava.(....)(1 )e são suas as palavras que iniciam o estudo de hoje. "(...)Fui no mundo um ser inútil; não fiz uso algum proveitoso das minhas faculdades; a fortuna serviu apenas à satisfação das minhas paixões, aos meus caprichos de luxo e à minha vaidade; não pensei senão nos gozos do corpo, desprezando os da alma e a própria alma...(..)

O viver na Terra propicia ao homem prazeres materiais, que o induzindo a procurá-los, leva-o a amar a vida terrena, condição necessária para que ele queira permanecer na Terra, progrida e concorra para o progresso do mundo que o acolhe. Para prover as necessidade terrenas, Deus deu ao homem o instinto de conservação, desenvolvido desde os reinos vegetal e animal e o direito de ter, de usar os bens materiais, de usufruí-los, sentindo prazer no seu uso(2).

Na condição de espírito simples e ignorante ,no inicio de sua caminhada evolutiva ,o instinto de conservaçaõ foi o melhor guia do homen; à medida entretanto que vai desenvolvendo suas potencialidades como a inteligência e a vontade ,sua tendência apegar-se às sensações.Como a inteligência desenvolve-se mais rapidamente que os sentimentos, na ausência de sentimentos como a fé, a esperança, a caridade, o homem tende a prender-se à sensações materiais.
Vivendo em uma sociedade materialista, não é de surpreender que o homem se sinta impelido a aceitar como natural todas as atrações da matéria e todos os prazeres que isto proporciona.

Sobre isso Allan Kardec(3) expressa-se nestes termos;

(...) O Espírito encarnado se acha sob a influência da matéria; o homem que vence esta influência, pela elevação e depuração de sua alma, se aproxima dos bons Espíritos, em cuja companhia um dia estará. Aquele que se deixa dominar pelas más paixões, e põe todas as suas alegrias na satisfação dos apetites grosseiros, se aproxima dos Espíritos impuros, dando preponderância à sua natureza animal...(3)

O egoísmo e o orgulho compõem o que Kardec designa como sendo as paixões. (4) (...) Ensinam-nos que o egoísmo, o orgulho, a sensualidade são paixões que nos aproximam da natureza animal, prendendo-nos à matéria; que o homem que, já neste mundo, se desliga da matéria, desprezando as futilidades mundanas e amando o próximo, se avizinha da natureza espiritual.
Em seu depoimento Auguste Michel declara (...)Por que sofrer ainda, quando o corpo não mais sofre? Por que existir sempre esta dor horrenda, esta angústia terrível?...

A resposta a esta indagaçaõ pode ser encontrada na resposta dada à questão 933(5) onde os Espíritos comentam que" (...) o ser humano só é infeliz, geralmente, pela importância que liga às coisas deste mundo". " (...) O homem moral, que se elevou acima das necessidades artificiais criadas pelas paixões, tem, desde este mundo, prazeres desconhecidos do homem material(6)
Emmanuel ensina que (...) a nossa mente possui, entre outros, o "Departamento do Desejo no qual operam os propósitos e as aspirações"(7). O homem, que procura gozar a vida, tirar proveito das situações, explorar os sentidos até as últimas conseqüências, logicamente acredita que pode construir uma vida de prazeres e vitórias. Desejos sensuais, gozos de sensações exaltados, posse, poder, prestígio constituem-se em forma de aprisionamento do ser, atando-o aos aspectos materiais da vida. Quando da separação do corpo,matéria física, no momento do desencarne ,este aprisionamento permanece, como confirma o depoimento de Auguste Michel (...)Ainda estou ligado ao corpo. Apenas com dificuldade posso ver onde devo encontrar-me; meu corpo lá está, e por que também lá permaneço sempre?...(1)

A libertação deste processo se faz quando o homem se percebe como um ser espiritual, vivendo, provisoriamente, num corpo físico, continuando o exercício da vida no plano espiritual, após a morte desse corpo. Ao compreender que o viver tem um sentido definido de aprendizado e desenvolvimento contínuo; quando raciocina em torno das conseqüências desagradáveis ou dolorosas, produzidas muitas vezes pelos excessos dos prazeres terrenos de toda espécie, ele busca dominar-se, passando a perceber também a necessidade de ter, de usar esses bens, sem excesso, considerando-os como instrumentos do seu desenvolvimento espiritual.E para reflexão final que este capitulo traz ,fiquemos com Paulo, na Primeira epístola aos Coríntios, 10:23:-

"Tudo é permitido, mas nem tudo convém; tudo é permitido, mas nem tudo edifica."

Bibliografia:

Kardec ,Allan, " Céu e Inferno" Segunda Parte,capitulo CapituloIV : ESPÍRITOS SOFREDORES
Leda de Almeida Rezende Ebner," Gozo dos bens da Terra" artigo publicado Jornal Verdade e Luz Nº 170 de Março de 2000
Kardec ,Allan, "O Livro dos Espíritos", Introdução p.25
Kardec ,Allan, "O Livro dos Espíritos" Introdução p.27
Kardec ,Allan,"O Livro dos Espíritos" questão 933
Kardec ,Allan,"O Livro dos Espíritos", questão 941
Espírito Emmanuel/Francisco Candido Xavier, Pensamento e Vida capítulo 2
 
Laurelucia Orive Lunardi
Julho / 2006

 

 

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