O Céu e o Inferno
por
ALLAN KARDEC


Nesta obra Allan Kardec reafirma o caráter científico do Espiritismo e avalia como ciência de observação, a nova doutrina, enfrentando o problema das penas e recompensas futuras à luz da História, estabelecendo comparações entre as idealizações do céu e do inferno nas religiões anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas dessas idealizações na formulação dos dogmas cristãos.

CAPITULO I O PASSAMENTO
Item 14 e 15. - ..." O espírita sério não se limita a crer, porque compreende, e compreende, porque raciocina; a vida futura é uma realidade que se desenrola incessantemente a seus olhos; uma realidade que ele toca e vê, por assim dizer, a cada passo e de modo que a dúvida não pode empolgá-lo, ou ter guarida em sua alma.(1)"


A Fé consiste na crença em postulados especiais, que constituem as diferentes religiões. Todas as religiões têm seus artigos de fé e sob esse aspecto ela tanto pode ser raciocinada como cega. A fé cega aceita, sem verificação tanto o verdadeiro como o falso e a cada passo se choca com a evidência e a razão,mais cedo ou mais tarde desmorona.Quando levada ao excesso, leva ao fanatismo. Somente a que se baseia no estudo e na analise racional, persiste no futuro, pois o que é verdadeiro na obscuridade, também o é à luz meridiana
(2). Cada religião pretende ter a posse exclusiva da verdade; preconizar alguém a fé cega sobre um ponto de crença é confessar-se impotente para demonstrar que está com a razão.
Fé não se prescreve, nem, se impõe; ela se adquire e todos podem possuí-la, mesmo os mais refratários. Não é à fé que compete encontrá-los; e sim, eles é que devem ir-lhe, ao encontro e se a buscarem sinceramente, não deixarão de achá-la. A necessita para isso da inteligência perfeita daquilo em que se deve crer. E, para tanto, não basta ver para crer; é preciso, sobretudo, compreender(3). O preconceito, a ignorância, o interesse, a vaidade, a hipocrisia, mantêm o homem no obscurantismo sendo um entrave ao progresso da humanidade.
Para alguns incrédulos na existência após a morte, há descaso; em outros, o temor pelo que os esperam; da parte da maioria, há o orgulho, negando-se a reconhecer a existência de uma força superior. A resistência do incrédulo, muitas vezes provém menos dele do que da maneira por que lhe apresentaram as coisas. As próprias Religiões se digladiam, execrando umas às outras, sob alegação de que o fazem em nome de Deus, porque a Verdade está do seu lado ou lhes pertence. Assim procedendo, envolvem as pessoas que aceitam tudo sem raciocinar, e que acreditam que um "sono eterno" lhe resolveriam os problemas. Ou como nos ensinou Jesus: - Conhecereis a verdade e a verdade vos fará livres(4).O Espiritismo vem ensinar que, dependendo da elevação alcançada pelo Espírito, o instante da morte pode, ou não, ser doloroso, e que os sofrimentos, algumas vezes experimentados, são um bálsamo pois, vê chegar o momento supremo de sua libertação(5). A confiança na vida futura não exclui as apreensões provocadas pelo desconhecimento da passagem de uma vida à outra
Diz-nos Allan Kardec "(...) a vida futura é uma realidade que se desenrola incessantemente a seus olhos; uma realidade que ele toca e vê, por assim dizer, a cada passo e de modo que a dúvida não pode empolgá-lo, ou ter guarida em sua alma." (1) Com base na Filosofia, na Ciência e na Ética, a Doutrina Espírita ensina e prova, a quantos queiram aprender, que o corpo é passageiro, mas a alma é imortal. Com farta literatura testemunhal demonstra que o corpo humano, na Terra, é instrumento de aprendizado - com expiações e provas - para o progresso do Espírito, que é o seu elemento nobre, pois todo conhecimento se manifesta por intermédio dele (Espírito), regente dos pensamentos, palavras e atos conscientes e voluntários do ser humano. O espírita não se limita a crer, porque compreende, mas compreende, porque raciocina; a vida futura é uma realidade que se desenrola incessantemente a seus olhos; uma realidade que ele toca e vê, por assim dizer, a cada passo e de modo que a dúvida não pode empolgá-lo, ou ter guarida em sua alma. A vida corporal, tão limitada, amesquinha-se diante da vida espiritual, da verdadeira vida. Que lhe importam os incidentes da jornada se ele compreende a causa e utilidade das vicissitudes humanas, quando suportadas com resignação? A alma eleva-se nas relações com o mundo visível; os laços fluídicos que o ligam à matéria enfraquecem-se, operando-se por antecipação um desprendimento parcial que facilita a passagem para a outra vida. A perturbação conseqüente à transição pouco perdura, porque, uma vez franqueado o passo, para logo se reconhece, nada estranhando, antes compreendendo, a sua nova situação.(1)

São eles, os sentimentos , pensamentos, palavras e atos responsáveis pela forma de viver nesta e na outra vida , a espiritual, que fará a diferença. Pois no Universo não há saltos . "O nascer e o morrer são os pontos de inflexão da gigantesca senóide biológica que se desenvolve em alternâncias , às quais ora chamamos de vida, ora chamamos morte. Viver e morrer são os dois aspectos de um mesmo fenômeno, ao qual poderíamos chamar, simplificadamente, de vida apenas, pois a morte já está nela implícita."(6).
Comenta Leon Denis(7) O conhecimento do futuro espiritual, o estudo das leis que presidem à desencarnação são de grande importância como preparativos à morte. Podem suavizar os nossos últimos momentos e proporcionar-nos fácil desprendimento, permitindo mais depressa nos reconhecermos no mundo novo que se nos desvenda.Porem, é importante ressaltar , que não basta apenas o conhecimento que a vida continua mas , que é a vivência nossa de cada dia é que nos permitirá fazer a transposição para o mundo espiritual de forma mais tranqüila. Lembra-nos o Espírito Irmão X, no capítulo 4 do livro Cartas e Crônicas(8), de alguns detalhes bastante valiosos para prepararmo-nos para a vida futura. Escreve-nos ele:
"(...) Comece a renovação de seus costumes pelo prato de cada dia. Diminua gradativamente a volúpia de comer carne dos animais;os excitantes largamente ingeridos constituem outra perigosa obsessão. Não se renda à tentação dos narcóticos;deixe os testamentos em dia;não se apegue demasiado aos laços consangüíneos."
Além desses detalhes valiosos, atentemo-nos para o nosso sentir , pensar e agir , Emmanuel(9) oferece, para nossa reflexão:
Depois da morte do corpo:
A frase amiga que houvermos proferido no estímulo ao bem será um trecho harmonioso do cântico de nossa felicidade.
A opinião caridosa que formulamos acerca dos outros converter-se-á em recurso de benignidade da Justiça Divina, no exame de nossos erros.
O pensamento de fraternidade e compreensão com que nos recordamos do próximo transformar-se-á em fator de nosso equilíbrio.
O gesto de auxílio aos irmãos de nosso caminho oferecer-nos-á farta colheita de alegria.
Mas, igualmente, além do túmulo:
A maledicência que partiu de nossa boca será espinheiro a provocar-nos dilacerações de ordem mental.
A nossa indiferença para com as amarguras do próximo nos aparecerá por geada desoladora.
A nossa preguiça surgirá por gerador de inércia.
A nossa possível crueldade exibirá, na tela de nossas consciências, a constante repetição dos quadros deploráveis de nossos delitos e de nossas vítimas, compelindo-nos à demora em escuras paisagens purgatórias.
A morte é o retrato da vida.
A verdade revelará na chapa do teu próprio destino as imagens que estiveres criando, sustentando e movimentando no campo da existência.
Se desejas alegria e tranqüilidade, além das fronteiras de cinza do sepulcro, semeia, enquanto é tempo, a luz e a sabedoria que pretendes recolher, nas sendas da ascensão espiritual.
Hoje - plantação, segundo a nossa vontade.
Amanhã - seara, conforme a Lei.
Se agora cultivamos a treva, decerto encontraremos, depois, a resposta respectiva.
Se, porém, semearmos o amor e a simpatia onde nos encontrarmos, indiscutivelmente, mais tarde, penetraremos a luz e a beleza da imortalidade vitoriosa.

Bibliografia:

  1. Allan ,Kardec , " Céu e Inferno" Segunda Parte,capitulo I item 14 e 15.
  2. Allan ,Kardec "O Evangelho Segundo o Espiritismo)254a ed.,ed.Instituto de difusão Espírita ,2000, Cap XIX item 6 .
  3. Allan ,Kardec "O Evangelho Segundo o Espiritismo" 254a ed.,ed.Instituto de Difusão Espírita ,2000, Cap XIX item 7 .
  4. Allan ,Kardec "O Evangelho Segundo o Espiritismo" 254a ed.,ed.Instituto de Difusão Espírita ,2000,
  5. Allan Kardec ,"O Livros dos Espiritos " questão 941
  6. Andrade, Hernani Guimarães. "Morte, Renascimento, Evolução". 9_ ed., São Paulo: PENSAMENTO, 1993, p. 155: Cap. XI.
  7. Léon Denis ," Depois da Morte". 18a. edição
  8. Xavier, F. C pelo Espírito Irmão X" Cartas e Crônicas", 3. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1974. capítulo 4 .
  9. Xavier F.C pelo Espírito Emmanuel , "Plantão de Paz" crônica Além Do Corpo Físico.

Laurelucia Orive Lunardi
Dezembro / 2005

 

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