O Céu e o Inferno

por

Allan Kardec

 


Nesta obra Allan Kardec reafirma o caráter científico do Espiritismo e avalia como ciência de observação, a nova doutrina, enfrentando o problema das penas e recompensas futuras à luz da História, estabelecendo comparações entre as idealizações do céu e do inferno nas religiões anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas dessas idealizações na formulação dos dogmas cristãos.


CapituloVI : Criminosos arrependidos:- O ESPÍRITO DE CASTELNAUDARY

(continuação)

“...Assim, foi a dita casa exorcizada em 1848, aliás sem resultado. O proprietário, Sr. D..., pretendendo habitá-la, faleceu repentinamente alguns anos depois; um seu filho, animado do mesmo desejo, ao penetrar-lhe um dos compartimentos, recebeu de mão desconhecida vigorosa bofetada, e, como estivesse só, não teve a menor dúvida de uma origem oculta, razão esta que o levou a abandonar a casa definitivamente...”1A idéia do exorcismo é encontrada no mundo em todas as tradições culturais.A palavra exorcismo deriva do grego exorkizein, que significa "unir por juramento ou desalojar Espíritos". Nas culturas egípcias, babilônica, assíria e judáica, atribuíam-se certas doenças e calamidades naturais à ação dos demônios. Para afastá-los, recorria-se a algum esconjuro ou exorcismo. A cultura ocidental recebeu essas idéias através da Bíblia e do cristianismo primitivo.O exorcismo é definido, na Enciclopédia Católica como "o ato de expulsar, ou repelir, os demônios ou Espíritos do mal de pessoas, lugares ou coisas, que acredita-se estarem possuídas ou infestadas por eles, ou propensos a se tornarem vítimas ou instrumentos de sua malignidade".2

No Judaísmo por ex: os ensinamentos da Cabala contam sobre um Espírito malévolo chamado Dibuk. Esse Espírito é a alma de uma pessoa morta que voltou para encaminhar um negócio inacabado e que habita o corpo de uma pessoa para atingir seus objetivos. O Dibuk pode ser expulso por meio de um ritual de exorcismo e deixa o corpo ,que havia possuído, através dos dedos do pé.

Na crença islâmica conta sobre um jinn - um Espírito do mal, escravo de Satã - que pode invadir o corpo humano e causar doenças, dor, tormento e pensamentos ruins. Esse jinn pode ser expulso pela pessoa possuída recitando-se passagens específicas do Alcorão.

Nas escrituras dos Vedas (Hinduísmo) contam sobre um Espírito do mal que pode não apenas prejudicar humanos, mas também ficar no caminho das vontades dos deuses. O tradicional exorcismo hindu inclui rituais como queimar excremento de porco, recitar orações e oferecer doces aos deuses.(3)

A Igreja Católica, admite os exorcismos ordinários, contidos no rito do batismo, como símbolo da libertação do pecado e do poder do demônio. O exorcismo ordinário é praticado na bênção da água batismal e na sagração dos santos óleos. O exorcismo solene , que têm por objetivo expulsar o demônio do corpo de um possuído, deve fazer-se de acordo com fórmulas consagradas, que incluem aspersão de água benta, imposição das mãos, conjurações, sinais da cruz, recitação de orações, salmos, cânticos, etc. Além disso, o ritual católico do exorcismo pode ser executado por sacerdotes somente quando são expressamente autorizados por bispos. O Rituale Romanum (Ritual Romano em latim) é um livro litúrgico que contém todos os rituais normalmente administrados por um padre, incluindo o único ritual formal para exorcismo sancionado pela Igreja Católica Romana. Além do exorcismo de demônios e Espíritos, esse manual de serviço para padres também contém instruções para o exorcismo de casas e outros lugares que se acredita estarem infestados por entidades malignas.O exorcismo católico começa com Adjure te, spiritus nequissime, per Deum omnipotentem... que significa: "eu te ordeno, Espírito maligno, pelo Deus Todo-Poderoso..." O processo pode ser longo e extenuante, chegando a se estender por vários dias. A possessão está associada ao mal. O processo de libertação é feito de forma dramática e violenta.2

A maioria das religiões protestantes também acredita em possessões satânicas e em exorcismo. Michael Cuneo, sociólogo da Universidade Fordham, afirma que "segundo estimativas conservadoras, há pelo menos quinhentas ou seiscentas igrejas evangélicas exorcistas em operação, e é bem possível que o número seja duas ou três vezes maior". O Reverendo Brian Connor, da Carolina do Sul, diz que "lidar com o mal encarnado é isoladamente o componente mais negligenciado dos mandamentos bíblicos". Em 2001, Connor apareceu no programa "Dateline" da NBC sobre exorcismo . Ele e vários colegas passaram um dia inteiro tentando convencer os demônios a sair do corpo de um homem de cinqüenta anos, que tinha histórico de depressão e desânimo. Os exorcistas empunhavam Bíblias, que liam ocasionalmente e cruzes. Agruparam-se em torno de seu paciente por horas, entoando preces e ordenando aos demônios que saíssem. O homem ocasionalmente uivava como um animal e fazia caretas para seus protetores. Isso teve carga dramática e até catártica suficiente para que ele vomitasse um pouco. Connor declarou que ele estaria cuspindo Satanás, e que todos os demônios haviam saído. No entanto, um acompanhamento feito dois meses mais tarde descobriu que o grupo teve de repetir o exercício outras seis vezes.. Semelhante a esta situação no passado, a confusão de conceitos sobre a doença mental e a possessão demoníaca, gerou a idéia de espancar o doente para retirar o Demônio do seu corpo. Nos hospitais a cura se processava através de espancamentos diários.4

As formas de exorcismo mais conhecidas entre nós são a judaica e a católica, sendo a judaica mais racional, pois nela se empregavam também o apelo à razão do Dibuk. A tradução da palavra hebraica Dibuk, que nos parece mais acertada é a de alma penada, pois os judeus reconheciam e identificavam o Espírito obsessor como Espírito humano de pessoa morta que se vingava do obsedado ou cobrava débitos dele e da família. No exorcismo católico prevalece até hoje a idéia de possessão demoníaca.5

O mais estranho e fantasioso, é acreditar na existência e no poder de um rei dos infernos, dividindo o governo do Universo com Deus, sendo muito mais racional acreditar na existência de um só Poder oriundo do Criador, na sobrevivência do Espírito depois da morte e na comunicação com os vivos,não havendo luta do bem contra o mal. Há sim, o esforço evolutivo natural de transformar a ignorância e os sentimentos mais primitivos em inteligência e amor.
Allan Kardec em O Livro dos Médiuns6 questiona:

...”Que se deve pensar com relação à eficácia dos exorcismos, para expelir dos lugares mal-assombrados os maus Espíritos?
R :"Já tiveste ocasião de verificar a eficácia desse processo? Não tens visto, ao contrário, as tropelias redobrarem de intensidade, depois das cerimônias do exorcismo? É que os Espíritos que as causam se divertem com o serem tomados pelo diabo."6
A transformação moral dos indivíduos, é o fator preponderante da terapia espírita . A técnica espírita de afastar os Espíritos obsessores se faz através do esclarecimento levando-o a libertar-se do seu insulamento, levando o esclarecimento tanto ao obsessor como ao obsedado, através de sessões de desobsessão. Ambos necessitam de esclarecimento evangélico para superarem os conflitos do passado. Afastada a idéia terrorista do Diabo, o obsessor e obsedado são tratados com amor e compreensão, como criaturas humanas e não como algoz satânico e vítima inocente. Essa terapia foi criada e desenvolvida por Allan Kardec para substituir as práticas bárbaras do Exorcismo.

Bibliografia:

1. Kardec ,Allan, O Céu e o Inferno, CapituloVI : Criminosos arrependidos
2. The Catholic Encyclopedia: Exorcism.
3. Gerina Dunwich "Guia das Bruxas sobre fantasmas e o Sobrenatural"
4. Barry L. Beyerstein “Estados Dissociativos: Possessão e Exorcismo”
5. José Herculano Pires ,”Obsessão - O Passe - A Doutrinação”
6. Kardec ,Allan,"O Livro dos Médiuns,cap IX".
 
 
Laurelucia Orive Lunardi
Setembro / 2007

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