Céu e Inferno
por
ALLAN KARDEC
Nesta obra Kardec reafirma o caráter científico do Espiritismo
e avalia como ciência de observação, a nova doutrina,
enfrentando o problema das penas e recompensas futuras à luz
da História, estabelecendo comparações entre as
idealizações do céu e do inferno nas religiões
anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes
históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas
dessas idealizações na formulação dos dogmas
cristãos.
CAPÍTULO VII
As penas futuras segundo o Espiritismo
- Código penal da vida futura
Com relação às penas futuras, a Doutrina Espírita,
não se baseia na legislação terrena e em nenhuma
teoria preconcebida. Portanto não é um sistema substituindo
outro sistema sua autoridade se apóia nas observações
realizadas. São os próprios indivíduos,deixando
seu corpo material, depois da morte, que nos vêm iniciar nos mistérios
da vida futura, descrevendo suas situações felizes ou
desgraçadas, as impressões, a transformação
pela morte do corpo, completando, em uma palavra, os ensinamentos do
Cristo sobre este ponto.
O código penal da vida futura, pode ser resumido nos seguintes
pontos:
1°)
"A alma ou Espírito sofre na vida espiritual as conseqüências
de todas as imperfeições que não conseguiu corrigir
na vida corporal. O seu estado, feliz ou desgraçado é
inerente ao seu grau de pureza ou impureza".
2º) "A completa felicidade prende-se à perfeição,
isto é, à purificação completa do Espírito.
Toda imperfeição é, por sua vez, causa de sofrimento
e privação do gozo, do mesmo modo que toda perfeição
adquirida é fonte de gozo e atenuante de sofrimento".
3º) "Não há uma única imperfeição
da alma que importe em funestas e inevitáveis conseqüências,
como não há uma só qualidade boa que não
seja fonte de um gozo".
4º) "Em virtude da lei do progresso - que dá a toda
alma a possibilidade de adquirir o bem que lhe falta - como de despojar-se
do que tem de mau, conforme o esforço e vontade próprios,
vemos que o futuro é franco para todas as criaturas".
5º) "Dependendo o sofrimento da imperfeição,
como o gozo da perfeição, a alma traz consigo o próprio
castigo ou prêmio, onde quer que se encontre, sem necessidade
de lugar circunscrito. O inferno está por toda parte onde haja
almas sofredoras, e o céu igualmente onde houver almas felizes".
6º) "O Espírito sofre pelo mal que fez, de maneira
que, sendo a sua atenção constantemente dirigida para
as conseqüências desse mal, melhor compreende os seus inconvenientes
e trata de corrigir-se".
7º) "Toda falta cometida, todo mal realizado é uma
dívida contraída que deverá ser paga".
8º) "A expiação varia segundo a natureza e
gravidade da falta".
9º) "Não há regra absoluta nem uniforme quanto
à natureza e duração do castigo: - a única
lei geral é que toda falta terá punição
e todo ato meritório recompensa, segundo o seu valor".
10º)"A duração do castigo depende da melhoria
do Espírito culpado e nenhuma condenação por tempo
determinado lhe é prescrita".
11º)"O arrependimento, conquanto seja o primeiro passo para
a regeneração não basta por si só; são
precisas a expiação e a reparação".
12º)"O arrependimento pode dar-se por toda parte e em qualquer
tempo; se for tarde, porém, o culpado sofre por mais tempo".
13º)"A responsabilidade das faltas é toda pessoal,
ninguém sofre por alheios erros, salvo se a eles deu origem,
quer provocando-os pelo exemplo, quer não os impedindo quando
poderia fazê-lo".
14º)"Um fenômeno mui freqüente entre os Espíritos
de certa inferioridade moral é o acreditarem-se ainda vivos,
podendo esta ilusão prolongar-se por muitos anos, durante os
quais eles experimentarão todas as necessidades, todos os tormentos
e perplexidades da vida".
15º)"Espíritos há mergulhados em densa treva;
outros se encontram em absoluto isolamento no espaço, atormentados
pela ignorância da própria posição, como
da sorte que os aguarda".
16º)"Para o orgulhoso relegado às classes inferiores,
é suplício ver acima dele colocados, os que na Terra desprezara".
17º)"O único meio de evitar ou atenuar as conseqüências
futuras de uma falta, está no repará-la desfazendo-a no
presente. quanto mais nos demoramos na reparação de uma
falta, tanto mais penosas e rigorosas serão, no futuro, as suas
conseqüências".
18º)"A situação do Espírito, no mundo
espiritual, não é outra senão a por si mesmo preparada
na vida corpórea".
19º)"Certo, a misericórdia de Deus é infinita,
mas não é cega. Por infinita misericórdia, devemos
entender que Deus não é inexorável, deixando sempre
viável o caminho da redenção".
20º)"As penas que o Espírito experimenta na vida espiritual
ajuntam-se as da vida corpórea e é nesta que ele repara
o mal de anteriores existências, pondo em prática resoluções
tomadas na vida espiritual".
21º)"Podendo todo homem libertar-se das imperfeições
por efeito da vontade, pode igualmente anular os males consecutivos
e assegurar a futura felicidade.
A cada um segundo as suas obras, no Céu como na Terra - tal é
a lei de Justiça Divina".