O CÉU E O INFERNO
OU
A JUSTIÇA DIVINA SEGUNDO O ESPIRITISMO
Por ALLAN KARDEC (Autor de “O Livro dos Espíritos”)
Amizade, necessidade recíproca dos homens entre si…
“8 . – A encarnação é necessária ao duplo progresso moral e individual
do Espírito: ao progresso intelectual pela atividade obrigatória do trabalho;
ao progresso moral pela necessidade recíproca dos homens entre si.
A vida social é a pedra de toque das boas ou más qualidades“.
Uma pergunta para iniciar a nossa
“conversa” já que tratamos da “música” da alma no artigo passado: Qual é o gosto,
o tom, o cheiro, a cor, o ritmo da amizade?
Um amigo talvez seja como um jardim que nós cultivamos… nós o
conhecemos, sabemos dos detalhes, mas sempre que repararmos bem, isto é, sempre
que prestarmos um pouco mais de atenção, vamos notar algo que ainda não
havíamos notado. Algo que já estava lá ou que apareceu a partir de uma mudança:
uma nova flor, um broto que cresceu, tons diferentes. Um amigo é sempre uma novidade,
ao mesmo tempo em que não cansa e nem causa ansiedade. Quantos amigos teria o
leitor ?
Ora, mas um jardim necessita de quem
o cuide…senão as ervas daninhas crescem e consomem toda estesia do momento de
fruí-lo. Fruir. Isto é o que permite um amigo. De algum modo podemos
fruir, saborear a amizade. Se ela causa ansiedade, se ela provoca aqueles
vazios, quando procuramos as palavras certas com que preencher a conversa,
talvez (ainda) não seja amizade! É preciso cultivar mais, isto é, prestar mais
atenção e cuidar do jardim. Há no livro dos Espíritos uma pergunta sobre
a criação dos Espíritos. Eis a resposta: Eles são criados simples e
ignorantes. Que bela síntese! Simples, isto é, sem experiência. Ignorantes,
isto é , sem conhecimento. Ora, tomemos emprestada essa idéia e façamos um
paralelo com relação a um amigo novo: ignoramos quem ele seja e ainda
não construímos experiências com ele.
Então, seguindo o exposto no artigo
anterior (sobre os ingredientes da motivação,i.e., atividade, qualidade e
felicidade), qualidade é isso: o gosto daquilo que
experimentamos, daquilo que levamos na nossa exploração de um jardim que
ainda não conhecíamos. Mais tecnicamente, as qualidades são os recursos
empregados na ação (nosso conhecimento, nossas habilidades, tudo combinado,
caracterizando o ”tamanho”, a “clareza”
da nossa percepção para captar o essencial). Então a qualidade da ação
vai determinar a estreiteza ou amplidão do que “vemos”, como uma janela. Também
vai permitir distinguir o nível dos detalhes, a visão de profundidade. Ela
estará relacionada aos sentimentos – trata-se, lembrando Kardec, da qualidade
dos fluidos que produzimos no pensar. Gosto porque se trata de pensar
(ver) pequeno ou grande, mesquinho ou generoso.
Mas, então, repare o leitor que pode
não ser fácil fruir a estesia de um jardim. Há que se estar em certo estado
de espírito que permita captar o essencial. O coração precisa sorrir
e se sentir em paz. Só assim vai encontrar aquilo que procura: o
outro, isto é, alguém para amar. E isso tudo no justo momento que passa.
Pode parecer estranho ao leitor o
que vamos dizer, mas o passado e o futuro só devem existir no pensamento do
homem. Deus não foi e nem será. Deus é. Por isso, então, a vida que nos cabe
viver não é nem a que já foi e nem a que virá. A única que pode ser vivida é a
de agora. Não perca o agora, talvez cante o refrão divino... Ele nunca mais se
repetirá… E do que é feito o agora? É o espaço da nossa construção feito de
momentos marcados por encontros com o outro. Daí a importância dos relacionamentos,
segundo Kardec, sempre tão lúcido, a pedra de toque das qualidades…Porque
de alguma forma o encontro com o outro nos mantém no aqui e agora. O outro nos
solicita a atenção, levando-nos a confrontarmo-nos com as próprias qualidades
na relação. Ou como diz Kardec na nossa obra de estudo:
“A
bondade, a maldade, a doçura, a violência, a benevolência, a caridade, o
egoísmo, a avareza, o orgulho, a humildade, a sinceridade, a franqueza, a
lealdade, a má-fé, a hipocrisia, em uma palavra, tudo o que constitui o homem
de bem ou o perverso tem por móvel, por alvo e por estímulo
as relações do homem com os seus semelhantes.” (grifos nossos)
Não admira que tantos teimem a relação
aberta e transparente: o perigo de se encontrar e (ter) de se reconhecer… E de
quantas estratégias não lançamos mão para evitar esse encontro! Como dizia
Mário Quintana, “quantas vezes a gente, em busca de ventura, procede qual o avozinho infeliz: em vão, em toda
parte, os óculos procura, tendo-os na ponta do nariz!” É para evitar o agora
(o momento) do encontro… procurar, procurar, sofregamente, sem encontrar, para
fazer o tempo passar e não deixar nunca o agora chegar.
Mas é também por isso que não
podemos escolher todas as relações (encontros). Com quem vamos nos encontrar
amanhã? Uma coisa só é certa: Há que progredir, crescer em sensibilidade,
desenvolver a estesia na própria alma para poder enxergar(-se)! O que fazer,
então? Ficar sábio, isto é, aprender a ‘con + viver’, ‘viver
junto a’. E, nas palavras de Roland Barthes (professor do College de France)
sobre o sentido de ficar sábio:
“Nada de
poder;
Um
pouquinho de saber;
E o máximo possível de sabor…”
Em outras palavras: a vida vista com
uma imensa simplicidade. Não querer mandar, não se intoxicar de vaidades
intelectuais. Mas buscar encontros sucessivos e inesperados com a alegria de “con
+ viver”, que está sempre ao alcance da mão. E note o leitor que ela, a
alegria, mora no momento que passa, apenas. Nós a perdemos porque
pensamos que ela virá no futuro. Depois de alguma coisa incrível que mudará
nossa vida. Ou porque algo do passado
nos aprisiona (remorsos?), impedindo-nos o contato com o momento que passa!
E com isso podemos entender melhor a
colocação acima em O Céu e o Inferno sobre a importância dos relacionamentos,
onde é fundamental saber transformar a qualidade dos encontros no
sentido da amizade. Reparemos que os próprios Espíritos nos relatam essa
experiência nos romances que nos oferecem, as paixões, (i.e., relações de amor
e ódio) se transformando em sólidas e profundas experiências de amizade. Isso
deve nos apontar uma direção a seguir: Fazer do outro (mesmo quando um velho
conhecido) um amigo novo, onde saibamos dar sabor às nossas
atitudes, temperando-as pela perspectiva mais aberta com que enxergamos a
importância do momento que fruímos na convivência com ele. Às vezes , para
isso, é preciso desaprender, abandonar a casca velha, permitindo que a vida
possa brotar de novo, fresca, renovada: nascer de novo! Abandonar aquilo
que já é peso inútil, os entulhos que pesam no coração, idéias falsas como a de
que a encarnação tem por motivação equilibrar uma conta tipo débito / crédito.
Mas entendê-la como educação que promove a liberdade do espírito
para amar, onde os atos inteligentes são sempre intencionais. E o que seria o
Espiritismo nesse processo senão um bom motivo para os atos
inteligentes, onde buscamos a alegria na experiência de crescer? Nas palavras de Khalil Gibran:
“E que
não haja outra finalidade na amizade a não ser o amadurecimento do espírito.
(…) “
“Procurai-o
(o amigo) sempre com horas para viver:
O papel
do amigo é o de encher vossa necessidade, não vosso vazio.
E na
doçura da amizade, que haja risos e o partilhar dos prazeres.
Pois no
orvalho de pequenas coisas, o coração encontra sua manhã e sente-se
refrescado.”
Horas para viver com sabor os
momentos de crescer…Quantas horas reserva o leitor para viver ?
Vanderlei Luiz Daneluz Miranda
Setembro / 2002