Nesta obra Allan
Kardec reafirma o caráter científico do Espiritismo e
avalia como ciência de observação, a nova doutrina,
enfrentando o problema das penas e recompensas futuras à luz
da História, estabelecendo comparações entre as
idealizações do céu e do inferno nas religiões
anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes
históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas
dessas idealizações na formulação dos dogmas
cristãos.
Capitulo VI : Criminosos
arrependidos:- O
ESPÍRITO DE CASTELNAUDARY
(continuação)
“...O Espírito
que dera a bofetada foi evocado na Sociedade de Paris, em 1859, e manifestou-se
por sinais de tal violência, que foram improfícuos todos
os esforços para acalmá-lo. Interrogado S. Luís
a esse respeito, respondeu: "É um Espírito da pior
espécie, verdadeiro monstro: fizemo-lo comparecer, mas a despeito
de tudo quanto lhe dissemos não foi possível obrigá-lo
a escrever. Ele tem o seu livre-arbítrio, do qual o infeliz tem
feito triste uso1."
O livre arbítrio
e o determinismo são correntes filosóficas antagônicas
que possuem implicações religiosas, morais, psicológicas
e científicas.Por exemplo, no domínio religioso o livre-arbítrio
pode implicar que uma divindade onipotente não imponha seu poder
sobre a vontade e as escolhas individuais.Já o determinismo considera
que não só Deus sabe quais decisões o indivíduo
tomará amanhã, mas também que Deus determina tais
escolhas. Em ética, o livre-arbítrio pode implicar que
os indivíduos possam ser considerados moralmente responsáveis
pelas suas ações. Ao determinismo ligam-se coisas muito
importantes, como o destino e a fatalidade, defendendo que cada estado
de coisas é inteiramente necessitado e por conseguinte determinado
pelos estados de coisas que o precedem . Para o livre-arbítrio,
o homem é livre para a prática do bem e do mal. Mas arca
com as conseqüências dessa liberdade2.
A questão do determinismo é levada na maioria das religiões
cristãs como uma visão maniqueísta onde a vontade
do homem é fraca e divida entre as forças poderosas do
universo : a do Bem representado por Deus e a do Mal representada pelo
Diabo ou Satanás. Em teologia freqüentemente se alega que
a doutrina da onisciência divina está em conflito com o
livre-arbítrio. Desta forma, se Deus sabe exatamente o que ocorrerá,
incluindo cada escolha feita por cada pessoa, o status das escolhas
como livres está em questão. Por esta visão, o
conhecimento eterno de Deus sobre as escolhas individuais constrange
a liberdade individual.
Os calvinistas por exemplo,defendem a idéia que Deus escolhe
aqueles que serão salvos antes da criação. Um dos
maiores defensores dessa visão teológica é Jonathan
Edwards. Em seu livro Liberdade da Vontade,Edwards defende o determinismo
teológico, ele considera o livre arbítrio é incompatível
com a dependência dos indivíduos em relação
a Deus e por conseguinte, com sua soberania3.
Os Teólogos católicos aceitam a idéia de livre-arbítrio
universalmente, mas geralmente não vêem o livre-arbítrio
como existindo separadamente ou em contradição com a graça
divina. A ênfase católica no livre-arbítrio e na
graça divina freqüentemente é contrastada com a predestinação
no cristianismo protestante, especialmente após a contra-reforma4.
Os Espíritas crêem que toda causa provoca um efeito e que
todo efeito advém de uma causa. Neste contexto, Deus é
a causa primária de todas as coisas. Acreditam que o livre-arbítrio
ganha proporções maiores na medida em que o grau de evolução
(moral e intelectual) do Espírito se desenvolve.
Nos reinos animal e humano inferior prevalece o determinismo; o instinto
dá o melhor sem o perigo da escolha mal feita e o selvagem age
movido por impulsos semelhantes. O livre-arbítrio é progressivo
e relativo, evoluindo do determinismo físico à medida
que a consciência (razão) se desenvolve. Crescendo a razão,
aumenta a liberdade de decidir; os padrões fixos de comportamento
cedem lugar à opção inteligente. Em suma, o livre-arbítrio
é uma conquista evolutiva. E, com ele, desponta um novo fator
moral - responsabilidade ou necessidade de enfrentar as conseqüências
dos atos praticados, que a Lei impõe a todos5.
Assim para os espíritas a questão do livre-arbítrio
se pode resumir assim:
O homem não é fatalmente levado ao mal; os atos que pratica
não foram previamente determinados; os crimes que comete não
resultam de uma sentença do destino. Sem o livre-arbítrio,
o homem não teria nem culpa por praticar o mal, nem mérito
em praticar o bem. E isto a tal ponto está reconhecido que, no
mundo, a censura ou o elogio são feitos à intenção,
isto é, à liberdade de pensar6.
A liberdade reside no presente; pode-se agir com independência
por meio da faixa de consciente atual, que atende às necessidades
da vida presente. A determinação pró emana do passado
culposo. As causas que são geradas no passado pelas próprias
ações constituem a área de determinismo, conservada
em estado inconsciente. Assim as ações passadas constituem
a faixa determinada do destino, da qual não há fuga. Mesmo
nas piores condições, esclarece André Luiz7,
como uma prisão em cela, ainda vigora certa dose de liberdade
de decidir, que poderá ser empregada para melhorar ou piorar
a própria situação conforme o comportamento adotado.O
livre-arbítrio do próximo não pode ser violado
mediante a imposição de atitudes que ele deve assumir
espontaneamente, por convicção própria. Entendendo
isto fica clara a posição de S. Luís quanto ao
caso do Espírito de Castelnaudary.
...” Ele tem
o seu livre-arbítrio, do qual o infeliz tem feito triste uso." 1
E inevitavelmente
segue-se a questão levantada por Allan Kardec.
“... - P.
Este Espírito é passível de melhora? –
R. Por que não? Pois não o são todos, este como
os outros? E possível, entretanto que haja nisso dificuldades,
porém a permuta do bem pelo mal acabará por sensibilizá-lo.
Orai em primeiro lugar, e, se o evocardes daqui a um mês, vereis
a transformação operada.” 1
O pensamento e a
vontade representam um poder de ação que alcança
muito além dos limites da esfera corporal. A prece que feita
por outrem é um ato dessa vontade. Se for ardente e sincera pode
chamar os bons Espíritos em auxílio daquele que sofre,
afim de lhe sugerirem bons pensamentos e lhe darem a força necessária
para seu corpo e sua alma. A prece não pode ter por efeito mudar
os desígnios de Deus, mas a alma por quem se ora experimenta
alívio, porque recebe assim um testemunho do interesse que inspira
àquele que por ela pede e também porque o infeliz é
sempre consolado, quando encontra almas caridosas que se compadecem
de suas dores. Por outro lado, mediante a prece, aquele que ora ajuda
no despertar do infeliz para o arrependimento e o desejo de fazer o
que é necessário para ser feliz. Neste sentido é
que se lhe pode abreviar a pena, se, por sua parte, o infeliz contribui
com sua boa-vontade. O desejo de melhorar-se, despertado pela prece,
atrai para junto do Espírito sofredor Espíritos melhores,
que o vão esclarecer, consolar e dar-lhe esperanças. Jesus
orava pelas ovelhas desgarradas. Com isso vos mostrava que sereis culpados
se nada fizerdes pelos que mais necessitam das vossas preces8.
Quanto a utilização da prece como ferramenta de auxilio
aos seres enclausurados nas vibrações do passado André
Luiz comenta :-
...” Na floresta
mental em que avança, o homem freqüentemente se vê
defrontado por vibrações subalternas que o golpeiam de
rijo, compelindo-o à fadiga e à irritação,
sejam elas provenientes de ondas enfermiças, partidas dos desencarnados
em posição de angústia e que lhe partilham o clima
psíquico, ou de oscilações desorientadas dos próprios
companheiros terrestres desequilibrados a lhe respirarem o ambiente.
Todavia, tão logo se envolva nas vibrações balsâmicas
da prece, ergue-se-lhe o pensamento aos planos sublimados, de onde recolhe
as idéias transformadoras dos Espíritos benevolentes e
amigos, convertidos em vanguardeiros de seus passos, na evolução9.
| Bibliografia: |
| |
1.
Kardec ,Allan, O Céu e o Inferno, Capitulo VI : Criminosos
arrependidos |
| |
2.
http://pt.wikipedia.org |
| |
3.
Jonathan Edwards .“ Liberdade da Vontade," |
| |
4. Enciclopédia das ciências filosóficas em
compêndio (1830), tradução de Paulo Meneses,
São Paulo: edições Loyola, vol. I (A ciência
da lógica) 1995. |
| |
5.
Rizzini, C.T. ”Evolução para o Terceiro Milênio:
tratado psíquico para o homem moderno”. |
| |
6.
Kardec ,Allan, “O Livros dos Espíritos”, questão872 |
| |
7.
Francisco Cândido Xavier/ André Luiz. “AÇÃO
e REAÇÃO” |
| |
8.
Kardec ,Allan, “O Livros dos Espíritos”, questões
662 e 664 |
| |
9.
André Luiz/Chico Xavier/Waldo Vieira.”Mecanismos da
Mediunidade”,cap XXV |
| |
Laurelucia Orive Lunardi
Novembro / 2007 |
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