O CÉU E O INFERNO
OU
A JUSTIÇA DIVINA SEGUNDO O ESPIRITISMO
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Exame
comparado das doutrinas sobre a passagem da vida corporal
à vida espiritual, sobre as penalidades e recompensas futuras,
sobre os anjos e demônios, sobre as penas, etc., seguido de
numerosos exemplos acerca da situação real da alma durante
e depois da morte |
Por
ALLAN
KARDEC
(Autor
de “O Livro dos Espíritos”)
Século
Vinte e Um: construindo a tolerância...
“14.
- (...) A unificação feita relativamente à sorte futura das almas será
o primeiro passo de contato dos diversos cultos, um passo imenso para
a tolerância religiosa em primeiro lugar e, mais tarde, para a completa
fusão.”
Mencionávamos no artigo
passado sobre a variedade das expressões da verdade, propostas pelo
pensamento do homem, adequadas às visões de mundo e de si mesmo que
ele já logrou atingir. À primeira vista essa observação pode parecer
incoerente com a afirmação de Kardec acima, acerca da tolerância religiosa.
Pois, se a verdade é relativa ao grau de amadurecimento do senso moral,
então, como ficamos em relação às diferentes interpretações sobre o
que comumente chamamos verdade? Nesse presente artigo, vamos, pois,
explorar um pouco mais essa questão, i.e., tratemos da verdade. segundo as idéias que podemos colher na doutrina espírita.
Antes, porém, façamos uma incursão sobre os significados que pode assumir
a palavra verdade.
Quando escutamos alguém mencionar a
palavra verdade não nos ocorre
que ela possa ter vários significados conforme o contexto. Em português
a palavra verdade possui algumas variações quanto à significação, mas
podemos agrupá-las em três grandes grupos. Nossa idéia da verdade foi construída
a partir de três concepções vindas do grego, do latim e do hebraico.
Aletheia, do grego, quer dizer não-oculto,
não dissimulado. Verdadeiro é o que se manifesta aos olhos do corpo
e do espírito; a verdade é a manifestação daquilo que é ou existe tal como é. O verdadeiro
é o evidente ou o plenamente visível para a razão. As coisas, os fatos ou são reais ou imaginários. Surge aqui a dimensão das nossas
experiências objetivas. Veritas, do latim, refere-se á precisão, à exatidão de um relato, no qual se
diz com detalhes e fidelidade o que aconteceu. O enunciado corresponde
aos fatos acontecidos. Os relatos e enunciados sobre as coisas e os
fatos são verdadeiros ou falsos. Trata-se aqui da coerência lógica das
idéias e das cadeias de idéias que formam um raciocínio. A marca do
verdadeiro é a validade lógica
de seus argumentos. Surge, então, a dimensão do pensamento, uma vez que a linguagem é sempre a expressão do pensamento
para o Espírito. Emunah, do hebraico, significa confiança.
Um Deus verdadeiro ou um amigo verdadeiro são aqueles que cumprem o
que prometem, são fiéis à palavra dada, ou seja, não traem a confiança.
Aqui a verdade é uma crença fundada na esperança e na confiança, referidas
ao futuro. Aqui percebemos surgir o outro
no contexto de nossas experiências. A dimensão ética toma vulto no campo da compreensão
mútua, da imparcialidade
necessária para tal compreensão. Assim, a verdade estará ligada ao ver,
ao perceber; ao falar, às
palavras (e, por conseqüência,
ao pensar); por último, ao crer,
ao acreditar. Teríamos, então:
ver-perceber
falar-dizer
crer-confiar
Por fim, a nossa concepção da verdade
é uma síntese dessas três fontes, referindo-se, portanto, à realidade,
à linguagem e à confiança-esperança. Agora surge, então, uma questão interessante.
Quando podemos saber se o
que conhecemos é verdadeiro? Tomemos três casos a título de exemplo. Um cientista, um
juiz e uma mãe cuidadosa na relação com seu filho. Para um cientista,
por exemplo, a marca do conhecimento verdadeiro é a evidência, isto é. a visão
intelectual e racional da realidade tal como é em si mesma e alcançada
pela nossa razão (uma idéia é verdadeira quando corresponde à coisa que
é seu seu conteúdo). Para um juiz, ela vai depender da precisão e do rigor
na criação e no uso de regras que devem exprimir o nosso pensamento
ou nossas idéias, como também os fatos exteriores a nós e que nossas
idéias relatam (coerência
interna ou lógica). Finalmente, para uma mãe, a verdade depende de um
consenso
ou de um pacto de confiança entre ela e o filho, definindo um conjunto de convenções
universais
sobre o que é verdadeiro e que deve ser respeitado por ambos.
Qual das três concepções deveríamos
adotar, então, em relação às nossas experiências? Pode parecer elas são independentes
entre si, mas é justamente aqui que devemos examinar com mais cuidado
essa questão. Qualquer que seja a concepção que tomemos como critério
de validade para o que conhecemos, ela estará sempre incompleta. Vejamos.
Há coisas que existem e nem sempre são percebidas diretamente, como
a influênciação
espiritual, entre outros. Por outro lado, por mais completa
que seja uma linguagem, por melhor que procure descrever, simbolizar
alguma coisa, há sempre o fato de que o exemplo vale por mil palavras, recurso
sobejamente conhecido na educação. Por fim, a própria história mostra
que nem sempre consensos levaram à verdade dos fatos, como no julgamento
do Cristo levando-o à crucificação inocente.
Como ficamos, então, em relação ao
tipo de verdade com que lidamos na Doutrina Espírita? Ela se caracteriza
pela multidimensionalidade acima: é preciso perceber
os fatos, dentro de um contexto lógico, racional,
onde somos levados a "pensar
por nós mesmos", animado de espírito de confiança-esperança,
sem prevenções. Ou seja, trata-se de um amadurecimento espiritual acontecendo,
propiciando-nos maior abertura, receptividade à Vida. Diante de cada
experiência, somos convidados a dilatar a capacidade de ver o essencial (somos Espíritos em manifestações humanas), enquadrando
essa experiência dentro da razoabilidade
que conseguimos desenvolver (a nossa vida tem um propósito dentro de
um planejamento realizado por nós), sem perdermos de vista o sentimento de compreensão cada vez maior a vitalizar
a nossa própria manifestação (conseguido através do relacionamento de
qualidade com o próximo pela segurança que a compreensão do Evangelho
do Cristo nos dá). Repensemos, então, a título de exercício do entendimento, no sentido que
damos a colocações como:
a verdade das comunicações mediúnicas;
a verdade da vida após a morte;
a verdade da lei de progresso, da lei de
ação e reação;
etc.
É interessante destacar que ocorre
com o Espiritismo o mesmo que se dá com as concepções de caráter integral,
holístico: não é possível classificar em um único critério ou grupo
suas concepções básicas. Pelo menos com os instrumentos de percepção
de que dispomos no momento (capacidade intelecto-moral), pois, sempre
“Cada um vive nas dimensões do entendimento
e na altura da visão espiritual que já conquistou.”
Que grande apelo ao espírito de tolerância!
Onde vemos que somente pela
educação do caráter, das tendências passionais da animalidade ancestral,
será possível dilatar as dimensões do entendimento e a própria visão
espiritual. Eis aí a nossa grande contribuição aos dias do novo século.
Somos chamados a educar educando-nos dentro das três dimensões da verdade:
·
viver o fato de sermos Espíritos, e não
apenas dele falar,
·
explicando a vida com racionalidade, como
a "prova buscada", por nós mesmos, sem as muletas das aparências
e fantasias, dos mitos e das místicas,
·
tudo dentro de um clima emocional fraterno,
de solidariedade, construtivo, no respeito à liberdade de pensar,
e de gratidão e otimismo – numa "reverência
à Vida", no dizer de Albert Schweitzer.
Os dias de hoje pedem-nos, então, visão integral para a validação
daquilo que conhecemos acerca do espírito humano, como afirma Ken Wilber,
num dos seus inúmeros livros. Em outras palavras, uma coalizão multicolor ou uma
visão de muitos níveis, integrando diversos aspectos do espírito humano:
arte, moral e ciência; eu, ética e meio-ambiente; o belo, o bem e o
verdadeiro. E é segundo essa visão de ampla perspectiva (vision-logic) que encontraremos no Espiritismo
os três aspectos mencionados integrados numa sinergia, numa coerência
proposital por haver uma finalidade em tudo isso: o progresso espiritual,
percebido como quota de maior felicidade para o Espírito.
Assim, a verdade na Doutrina Espirita pode ser compreendida pelas palavras
de Kardec no nosso livro de estudo (capítulo I, item 13 – grifos nossos),
“O espiritismo
dá coisa melhor (pois, apresenta
um futuro condicionalmente lógico, digno em tudo
da grandeza, da justiça da infinita bondade de Deus);
eis porque é acolhido pressurosamente
por todos os atormentados da dúvida...O Espiritismo tem por
si a lógica do raciocínio e a sanção dos fatos...“
O que vemos aqui? Aletheia (“fatos materias que se desdobram
à nossa vista” sobre o futuro), veritas
(coerência lógica na composição do seu corpo de princípios – não há
contradição interna) e emunah
(esperança-confiança na crença sobre o futuro condicionado à nossa capacidade
de amar ao nosso irmão como a nós mesmos). Três raízes a sustentar a
nossa experiência na Terra durante a encarnação e além dela! Mas há
que fixá-las no solo das experiências reais, vividas, para que
possam ser sorvidos os nutrientes adequados ao nosso amadurecimento
espiritual, firmando-nos no campo das nossas realizações. Em outras
palavras, três nutrientes são necessários para validar nosso aprendizado
no campo das verdades
do espírito: o da ação
no bem, o da reflexão em
torno do que é o bem e o do sentimento
de caridade que será sempre o nosso próprio bem em marcha triunfante.
Nas palavras de João Lustosa, para nossa reflexão final,
“Por isso mesmo,
se nos afeiçoamos ao trato com a verdade, é muito fácil reconhecer
que há acontecimentos de fundo espírita, conversas de feição espírita,
referências de caráter espírita, e realizações de inspiração espírita,
mas o de que necessitamos, sobretudo, é de orientação espírita no
sentimento e na experiência individual, de conformidade com o Espiritismo,
porque o espírita que aceitou a supervisão do Cristo já não pode agir
como quer e, sim, agir como deve querer.”
Vanderlei Luiz Daneluz Miranda
Novembro / 2001
CHAUÍ, Marilena, “Convite à Filosofia”, Unidade 3 – A Verdade,
Cap. 3 – As concepções da verdade. Editora Ática. 5ª ed. São Paulo.
1995.
BATUÍRA (Espírito),
Lourdes Catherine (Espírito),[psicografado por] Francisco do Espírito
Santo Neto. “Conviver e Melhorar”,
Boa Nova Editora, 1ª ed. Catanduva, SP,1999.
VIEIRA, Waldo, [psicografia
de]. “Seareiros de Volta”,
Estados da Consciência. FEB. 4ª ed. Rio, RJ. 1987.
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