Nesta obra Allan Kardec reafirma o caráter científico
do Espiritismo e avalia como ciência de observação,
a nova doutrina, enfrentando o problema das penas e recompensas futuras
à luz da História, estabelecendo comparações
entre as idealizações do céu e do inferno nas religiões
anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes
históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas
dessas idealizações na formulação dos dogmas
cristãos
CapituloV : Suicidas
Duplo suicídio, por amor e por dever
....."Aproximados um dia por circunstâncias fortuitas
e independentes da própria vontade, os dois amantes deram-se
ciência do mal que os torturava e acharam que a morte era, no
caso, o único remédio que se lhes deparava. Assentaram
que se suicidariam juntamente, no dia seguinte,...( 1 )
O suicídio
é um tema sempre presente na mídia e na literatura. Nela,
os personagens buscam a morte voluntária motivados por razões
diversas, mas entre elas ,o amor impossível e / ou não
correspondido se destaca.
O casal luta pela concretização de seus sentimentos, passando
por todo tipo de provações, mas com a permanente idéia
de que sua união através do amor poderá ser conseguida
na morte, se esgotados todos os recursos em vida. Era o que esperava
o casal no exemplo de suicídio que Allan Kardec denominou : Duplo
suicídio, por amor e por dever. Assim como neste
caso verídico, personagens da literatura mundial retratam este
drama onde chama a atenção, a permanente vinculação
do amor à idéia da morte.Como exemplo poderíamos
citar a mais célebre historia de amor, descrita por Willian Shakespeare
“....Já dentro do jazigo, Romeu bebe o veneno e morre ao
lado da sua amada. Momentos depois, Julieta acorda e vê a seu
lado, o corpo morto de seu marido. O Frei entra e conta a Julieta o
que se passou. Inesperadamente, Julieta pega no punhal de Romeu e mata-se,
pois já não tem motivos para viver ( 2 )”
Por que o amor , no sentido romântico, não correspondido
ou imposibilitado leva a esta busca tão desesperada, nesse profundo
desânimo e desinteresse pela existência, que não
vislumbra outra saída senão a fuga aos compromissos assumidos
desertando da vida? A resposta a esta questão é dada de
diferentes formas:
Marcado pelo pessimismo, o pensador Arthur Schopenhauer (1788-1860)
por ex,classifica o amor como um sentimento falso e enganoso. Segundo
ele, por mais etéreo que possa parecer, o sentimento amoroso
está sempre enraizado no instinto sexual e seu objetivo final
é o ardente desejo de reproduzir, o que pode levar à redenção,
ou seja, à entrega total do anseio pela vida. Em nome do amor,
o ser humano está disposto a cometer qualquer perversidade e
aceitar qualquer sofrimento( 3 ). O amor para este filósofo é
melhor definido como paixão. E sobre a paixão os Espíritos
Superiores respondem a Allan kardec que esta ...” se torna um
perigo quando perdemos o domínio sobre ela e causamos males aos
outros ou a nós mesmos. O amor enquanto o fogo da paixão
não pode ser chamado ou considerado como tal.( 4 ) O amor verdadeiro,
abre a duras penas o portal para a conquista da felicidade, enquanto
que paixão lança –se sobre o espaço a procura
de uma realização egoística entre aqueles que se
acham em estado de Amor. O amor, como comumente se entende na Terra,
é um sentimento, um impulso do ser. que o leva para outro. ser
com o desejo de unir-se a ele. Mas, na realidade, o amor reveste formas
infinitas, desde as mais vulgares até as mais sublimes. Principio
da vida universal, proporciona à alma, em suas manifestações
mais elevadas e puras, a intensidade de radiação que aquece
e vivifica tudo em roda de si; é por ele que ela se sente estreitamente
ligado ao Poder Divino, foco ardente de toda a vida, de todo o amor.(5)
Na concepção do Espírito Fénelon, “...
o amor deve manifestar--se por meio da caridade, da humildade,da paciência,
do devotamento,da abnegação, da resignação
e do sacrifício..” ,pois o amor é a essência
da vida e não um passaporte para a morte; não sendo portanto
justificativa para o suicidio.
“As razões com que se justificam o suicídio ou que
o suicida arranja para si próprio para explicar o ato, não
são, na maior parte das vezes, senão as causas aparentes.
Não só não são senão as repercussões
individuais de um estado geral, mas exprimem-no muito infielmente, dado
que permanecem as mesmas e que ele difere. Estas razões marcam,
por assim dizer, os pontos fracos do indivíduo, através
dos quais a corrente que vem do exterior para incitá-lo a destruir-se
se introduz mais facilmente”.( 5 )
Havendo impedimentos ao amor, igualmente há uma saída
para que ele triunfe, mesmo no caos. Essa saída não é
a morte,como transcendência do amor não possibilitado em
vida. Esta visão do suicídio :- o que seria o amor na
vida perante a eternidade do amor na morte? , é equivocada. Porque
a morte não reunirá os amantes , pelo contrario os separará.
Evocação
da suicida. - Vedes o vosso amante, com o qual vos suicidastes? - R.
Nada vejo, nem mesmo os Espíritos que comigo erram neste mundo.
Que noite! Que noite! E que véu espesso me circunda a fronte...( 1 )
Os Espíritos
comentam sobre este caso:- "Os dois amantes suicidas não
vos podem responder ainda. Vejo-os imersos na perturbação
e aterrorizados pela perspectiva da eternidade. As conseqüências
morais da falta cometida lhes pesarão por migrações
sucessivas, durante as quais suas almas separadas se buscarão
incessantemente, sujeitas ao duplo suplício de se pressentirem
e desejarem em vão.( 1 )....”
Os suicidas que por motivos nobres praticaram este ato, sofrem os mesmos
tormentos que os demais suicidas? Não haverá para eles
uma misericórdia especial?
Dentro dos ensinamentos revelados pelos Espíritos, os suicidas
poderiam ser sinceros ao supor que seus atos se efetivasse por um motivo
nobre. Entretanto o que um suicida suporia motivo honroso ou nobre,
poderia ser um falso conceito, um sofisma, a que se adaptou, resultado
dos preconceitos acatados pelos homens como princípios inabaláveis.
A honra espiritual se apóia em pontos muito diferentes, mas acima
de tudo, ao respeito das leis de harmonia da Criação.
Mas, sendo o suicida sincero no julgar que motivos honrosos o impeliram
ao fato, certamente haverá atenuantes, mas não justificativa
ou isenção de responsabilidades.
Quanto as atenuantes a que esses infratores teriam direito como filho
de Deus, não os isentará da reparação do
ato que praticaram com o desrespeito às leis da Criação,
e uma nova existência os aguardará, certamente em condições
mais precárias do que aquela que foi destruída. A misericórdia
de Deus se estende tanto sobre esses suicidas como sobre os demais,
sem predileções nem protecionismo. Ela se revela no concurso
desvelado dos bons Espíritos, que auxiliarão o soerguimento
do culpado para a devida reabilitação, infundindo-lhe
ânimo e esperança e cercando-o de toda a caridade possível,
inclusive com a prece. Se assim não fosse, o raciocínio
indica que haveria derrogação das mesmas leis de harmonia
da Criação , o que não poderá ser admitido.
“.....As conseqüências morais
da falta cometida lhes pesarão por migrações sucessivas,
durante as quais suas almas separadas se buscarão incessantemente,
sujeitas ao duplo suplício de se pressentirem e desejarem em
vão.Completa a expiação, ficarão reunidos
para sempre, no seio do amor eterno.....( 1 )"
Suicidar-se é ilusão. Os desafios existenciais surgem
exatamente para promover o progresso, convidando à conquista
de virtudes e o desenvolvimento da inteligência e do exercício
no amar. A oportunidade de viver e aprender a amar independe da presença
física do ser amado e é muito rica para ser desprezada.
| Bibliografia: |
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1.
Kardec ,Allan, “ Céu e Inferno” CapituloV : Suicidas
|
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2.
Willian Shakespeare “Romeu e Julieta” |
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3.
Arthur Schopenhauer” Parerga e Paralipomena |
| |
4.
Kardec ,Allan,"O Livro dos Espíritos", questão
908 |
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5.
DURKHEIM, Émile. Da divisão do trabalho social; As
regras do método sociológico; O suicídio; As
formas elementares da vida religiosa |
| |
6.
Leon Denis "O Problema do Ser do Destino e da Dor" |
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|
Laurelucia
Orive Lunardi
Março / 2007 |
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