O Céu e Inferno
por
ALLAN KARDEC
Nesta
obra Allan Kardec reafirma o caráter científico do Espiritismo
e avalia como ciência de observação, a nova doutrina,
enfrentando o problema das penas e recompensas futuras à luz
da História, estabelecendo comparações entre as
idealizações do céu e do inferno nas religiões
anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes
históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas
dessas idealizações na formulação dos dogmas
cristãos.
CAPITULO III
Céu
Em
geral, a palavra céu designa o espaço indefinido que circunda
a Terra, e mais particularmente a parte que está acima do nosso
horizonte. Vem do latim
crelum, formada do grego
coilos,
côncavo, porque o céu parece uma imensa concavidade.
Os antigos acreditavam na existência de muitos céus superpostos,
de matéria sólida e transparente, formando esferas concêntricas
e tendo a Terra por centro.Girando essas esferas em torno da Terra,
arrastavam consigo os astros que se achavam em seu circuito.Essa idéia,
provinda da deficiência de conhecimentos astronômicos, foi
a de todas as teogonias, que fizeram dos céus, assim escalados,
os diversos degraus da bem-aventurança: o último deles
seria abrigo da suprema felicidade.Segundo a opinião mais comum,
havia sete céus , daí a expressão "
estar
no sétimo céu" para exprimir a idéia da
perfeita felicidade. Os muçulmanos admitem nove céus,
em cada um dos quais se aumenta a felicidade dos crentes. A teologia
cristã reconhece três céus: o primeiro é
o da região do ar e das nuvens; o segundo, o espaço em
que giram os astros, e o terceiro, para além deste, é
a morada do Altíssimo, a habitação dos que O contemplam
face a face. É conforme a esta crença que se diz que S.
Paulo foi alçado ao terceiro céu.Nas diferentes doutrinas
religiosas a figura do Paraíso é , não só
o lugar da bem aventurança das almas, bem como a morada do Todo-Poderoso,
limitada esta região e se chama Céu (fig.1).
CÉU
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Fig.1:-Pintura
realizada por Gustave Dore (1832-1883),imortalizando a idéia
que o Céu é a morada de Deus. Na concepção
do artista para atingir a presença de Deus o Homem teria
que percorrer inúmeros Céus habitados por anjos. |
Os
Espíritos são criados simples e ignorantes, mas dotados
de aptidões para tudo conhecer e para progredir, em virtude do
seu livre-arbítrio. Pelo progresso adquirem novos conhecimentos,
novas faculdades, novas percepções.Graças a lei imutável
do Progresso a Terra não é mais entendida como o eixo do
Universo, porém um dos menores astros que rolam na imensidão;
o próprio Sol mais não é do que o centro de um turbilhão
planetário; as estrelas são outros tantos inumeráveis
sóis, em torno dos quais circulam mundos sem conta, separados por
distâncias apenas acessíveis ao pensamento, embora se nos
afigure tocarem-se. Neste conjunto grandioso, regido por leis eternas
reveladoras da Sabedoria e Onipotência do Criador a Terra não
é mais que um ponto imperceptível e um dos planetas menos
favorecidos quanto à habitabilidade. Assim sendo, é lícito
perguntar por que Deus faria da Terra a única sede da vida e nela
degredaria o homem, obra prima da criação ? Especialmente
agora, que valor teriam essas idéias, quando o conhecimento científico
nos indica a presença de formas devidas em outros planetas ?Mais
ainda, que singular anomalia colocaria o Autor de todas as coisas, Aquele
que as governa, nos confins da criação, em vez de no centro,
de onde o seu pensamento poderia, irradiante, abranger tudo!
As idéias
do homem estão na razão do que ele sabe; como todas as descobertas
importantes, a da constituição dos mundos deveria imprimir-lhes
outro curso. Sob a influência desses conhecimentos novos, as crenças
se modificaram; o Céu como centro da bem aventurança foi
deslocado à região estelar.Onde está ele, pois? E
ante esta questão emudecem todas as religiões.
O espiritismo,
demonstrando o verdadeiro destino do homem,tomando-se por base sua natureza
e os atributos divinos, chega-se à conclusão; de que o céu
não é um local delimitado, circunscrito, mas decorrente
do trabalho vibratório íntimo.
Mostra
que o homem compõe-se de corpo Espírito e perispírito(Livro
dos Espíritos capVI questão 135), o Espírito é
o ser principal, racional, inteligente; o corpo é o invólucro
material do qual o Espírito se serve temporariamente, para cumprimento
da sua missão na Terra e execução de trabalhos necessários
ao seu adiantamento. O corpo, usado, se destrói e o Espírito
sobrevive à sua destruição, envolto pelo perispírito.
Ausente do Espírito, o corpo é apenas matéria inerte,
qual instrumento privado da mola real de função; sem o corpo,
o Espírito é tudo: a vida, a inteligência. Em deixando
o corpo, torna ao mundo espiritual, onde avalia a ultima existência,
estuda aprende e planeja o próximo reencarne.
Existe,
portanto, duas realidades vibratórias que se interpenetram: a dimensão
corporal, composta de Espíritos encarnados; e a espiritual,
formado pelos Espíritos desencarnados. Os seres do mundo corporal,
devido à materialidade do seu envoltório, estão ligados
à Terra ou a qualquer globo; o mundo espiritual ostenta-se por
toda parte, interage na matéria como no Espaço, sem limite
algum designado. Em razão da natureza fluídica do seu envoltório,conforme
o grau evolutivo que detenha muitos, em lugar de se locomoverem penosamente,
transpõem as distâncias com a rapidez do pensamento
Os Espíritos respondendo a Allan Kardec sobre a questão
da existência de Céu ,Inferno e Paraíso , na Questão
1.011 de "O Livro dos Espíritos" : Haverá no Universo
lugares circunscritos para as penas e gozos dos Espíritos, segundo
seus merecimentos?
Ensinam :- "Já respondemos a esta pergunta. As penas e os
gozos são inerentes ao grau de perfeição dos Espíritos.
Cada um tira de si mesmo o princípio de sua felicidade ou de sua
desgraça. E como eles estão pôr toda a parte, nenhum
lugar circunscrito ou fechado existe especialmente destinado a uma ou
outra coisa. "
"A
felicidade está na razão direta do progresso realizado,
de sorte que, de dois Espíritos, um pode não ser tão
feliz quanto outro, unicamente por não possuir o mesmo adiantamento
intelectual e moral, sem que por isso precisem estar, cada qual, em lugar
distinto. Ainda que juntos, pode um estar em trevas, enquanto que tudo
resplandece para o outro, tal como um cego e um vidente que se dão
as mãos: este percebe a luz da qual aquele não recebe a
mínima impressão."
Uma
comparação vulgar fará compreender melhor esta situação.
Caso se encontrarem em um concerto dois homens, um, bom músico,
de ouvido educado, e outro, desconhecedor da música, de sentido
auditivo pouco delicado, o primeiro experimentará sensação
de felicidade, enquanto o segundo permanecerá insensível,
porque um compreende e percebe o que nenhuma impressão produz no
outro. Assim sucede quanto a todos os gozos dos Espíritos, que
estarão na razão da sua sensibilidade.
Sendo
a felicidade inerente às suas qualidades, haurem-na eles em toda
parte em que se encontram, seja à superfície da Terra, no
meio dos encarnados, ou no espaço.O progresso é o fruto
do próprio trabalho; mas, como são livres, investem no seu
adiantamento com maior ou menor atividade, com mais ou menos negligência,
segundo sua vontade, acelerando ou retardando o progresso e, por conseguinte,
a própria felicidade.
Dando continuidade à resposta da Questão 1.011 de "O
Livro dos Espíritos". Confirmam os Espíritos:-
"Quanto aos encarnados, esses são mais ou menos felizes
ou desgraçados, conforme é mais ou menos adiantado o mundo
em que habitam."
Nessa imensidade ilimitada, onde está o Céu? Em toda parte.
Nenhum contorno lhe traça limites. Os mundos adiantados são
as últimas estações do seu caminho, que as virtudes
franqueiam e os vícios interditam. Ante este quadro grandioso que
povoa o Universo, que dá a todas as coisas da Criação
um fim e uma razão de ser, quanto é pequena e mesquinha
a doutrina que circunscreve a Humanidade a um ponto imperceptível
do Espaço que no-la mostra começando em dado instante para
acabar igualmente com o mundo que a contém, não abrangendo
mais que um minuto na Eternidade!
Bibliografia:
Allan Kardec "Livro dos Espíritos".
Allan Kardec " Céu e Inferno" capitulo III.
Laurelucia Orive Lunardi
Março / 2004