Nesta obra Allan
Kardec reafirma o caráter científico do Espiritismo e
avalia como ciência de observação, a nova doutrina,
enfrentando o problema das penas e recompensas futuras à luz
da História, estabelecendo comparações entre as
idealizações do céu e do inferno nas religiões
anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes
históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas
dessas idealizações na formulação dos dogmas
cristãos.
CAPÍTULO VII:- Espíritos endurecidos :- Lapommeray
“A luz ofusca-me e penetra, qual flecha aguda, a sutileza
do meu ser. Castigaram-me com as trevas do cárcere e acreditavam
castigar-me ainda com as trevas do túmulo, senão com as
sonhadas pelas superstições católicas...”.
"Pois bem, sois vós que padeceis da obscuridade, enquanto
que eu, degredado social, me coloco em plano superior. Eu quero ser
o que sou!... Forte pelo pensamento, desdenhando os conselhos que zumbem
aos meus ouvidos... Vejo claro... Um crime! É uma palavra! O
crime existe em toda parte. Quando executado pelas massas, glorificam-no,
e, individualizado, consideram-no infâmia. Absurdo!
"Não quero que me deplorem... nada peço... lutarei
por mim mesmo, só, contra esta luz odiosa. Aquele que ontem era
um homem."
O depoimento de Lapommeray(1)
representa o que na teoria psicanalítica, é chamado de
negação. Segundo Jacques-Marie Émile Lacan, psicanalista
criador de uma escola de pensamento psicanalítico, a negação
ocorre quando o individuo se coloca em posição de recusa
absoluta, podendo, por exemplo, isolar-se em seu mutismo, ou adotar
uma posição irônica, pontuando a inconsistência
de todas as referências que lhe são apresentadas. Nessa
liberdade negativa , não se trata de uma inexistência de
sujeito, mas de uma exclusão em relação ao social,
onde um sujeito se constitui no próprio ato de subtração,
em disjunção com o Outro(2).
Esta recusa absoluta tem uma origem , segundo alguns autores,o processo
de negação resulta da exarcebaçaõ do ego
do individuo que torna-se demasiadamente intenso. Ego intenso é
sinônimo de egoísmo(3)
O filosofo Arthur Schopenhauer, discorrendo sobre o egoísmo
comenta que (...) “Por natureza, o egoísmo
é ilimitado: o homem quer conservar a sua existência utilizando
qualquer meio ao seu alcance, quer ficar totalmente livre das dores
que também incluem a falta e a privação, quer a
maior quantidade possível de bem-estar e todo o prazer de que
for capaz, e chega até mesmo a tentar desenvolver em si mesmo,
quando possível, novas capacidades de deleite. Tudo o que se
opõe ao ímpeto do seu egoísmo provoca o seu mau
humor, a sua ira e o seu ódio: ele tentará aniquilá-lo
como a um inimigo.(4)
Nas respostas dadas às questões quanto ao egoísmo
de "O Livro dos Espíritos", observa-se que :-
“...De todas as imperfeições humanas, a mais difícil
de extinguir é o egoísmo, porque se liga à influência
da matéria da qual o homem, ainda muito próximo de sua
origem, não se pode libertar. Tudo concorre para manter essa
influência: suas leis, sua organização social, sua
educação... É o choque que o homem experimenta
do egoísmo dos outros que o torna freqüentemente egoísta
por si mesmo, porque ele sente a necessidade de se colocar na defensiva.
Ao ver que os outros pensam só em si mesmos e não nos
demais, é conduzido a se ocupar de si mais do que dos outros...Quanto
maior o mal, mais se torna horrível. Será preciso que
o egoísmo cause muito mal para fazer compreender a necessidade
de extingui-lo”(5).
Quanto ao egoísmo,Joanna de Ângelis comenta ser este “...
herança do primarismo animal e constitui-se no maior adversário
de nossa evolução...”(6).
O egoísmo contrai todas as forças do Espírito e
atrofia as sensibilidades, fazendo-as perderem o contato com a realidade
que o cerca. O orgulho está sempre ligado ao egoísmo,
estado deprimente daqueles que o possuem. Este Espírito, orgulhoso,
se supervaloriza, criando assim em torno de si, o seu próprio
mundo, de sorte a querer desconhecer o amparo e as mudanças de
valores.Deixando de conhecer os seus próprios poderes, negando-se
a reconhecer suas necessidades reais.
"Não quero
que me deplorem... nada peço... lutarei por mim mesmo, só,
contra esta luz odiosa. Aquele que ontem era um homem.”(1)
Na questão 913 de
O Livro dos Espíritos, Allan Kardec indaga qual o vício
mais radical, isto é, que tem mais raízes, e conseqüentemente
mais difícil de ser erradicado. A resposta obtida foi : o egoísmo,
orgulho, que cristaliza o ego na teimosia e na falsa grandeza, trazendo,
o sofrimento.(7)
Entre os Espíritos endurecidos, o número é grande
daqueles que, sem procurarem fazer o mal, permanecem atrasados pelo
orgulho, indiferença ou apatia. Eles não são por
isso menos infelizes, porque sofrem tanto mais de sua inércia
quando não têm por compensação as distrações
do mundo; a perspectiva do infinito torna a sua posição
intolerável, e, entretanto, não têm nem a força,
nem a vontade de sair dela. São aqueles que na encarnação,
conduzem existências desocupadas, inúteis para si mesmos
e para os outros. Qual a diferença entre se conduzir ao bem um
Espírito mau e um Espírito endurecido? Esses Espíritos
são, em geral, mais difíceis para se conduzirem ao bem
do que aqueles que são francamente maus, porque, nestes últimos
há energias; uma vez esclarecidos, são tão ardentes
para o bem quanto o foram para o mal. Serão necessárias,
sem dúvida, aos outros, muitas existências para progredirem
sensivelmente; mas, pouco a pouco, vencidos pelo tédio, como
outros pelo sofrimento, procurarão uma distração
numa ocupação qualquer que, mais tarde, tornar-se-á,
para eles, uma necessidade.
É neste estado que se encontrava Lapomaray: "Que
dizeis da perturbação? Para que essas palavras ocas? Sois
sonhadores e utopistas. Ignorais redondamente o assunto do qual vos
ocupais. Não, senhores, a perturbação não
existe, a não ser nos vossos cérebros. Estou bem morto,
tão morto quanto possível e vejo claro em mim, ao derredor
de mim, por toda parte!... A vida é uma comédia lúgubre!
Insensatos os que se retiram da cena antes que o pano caia. A morte
é terror, aspiração ou castigo, conforme a fraqueza
ou a força dos que a temem, afrontam ou imploram.(1)
Suas palavras se apresentam de forma cristalina como um exemplo ao comentário
de Allan Kardec abaixo descrito.
...” No momento
da morte corpórea, vemos o Espírito entrar numa perturbação
e perder a consciência de si mesmo, de sorte que jamais é
testemunha do último suspiro de seu próprio corpo. Pouco
a pouco a perturbação se dissipa e o Espírito se
reconhece, como o homem que sai de um profundo sono; a sua primeira
sensação é a de libertação de seu
fardo carnal; depois vem a surpresa da visão do novo meio em
que se encontra. Está na situação de um homem que
se cloroformiza* para fazer-lhe uma amputação, e que é
transportado, durante o sono, para um outro lugar. Ao despertar, sente-se
desembaraçado do membro que o fazia sofrer; freqüentemente,
procura esse membro que está surpreso de não mais sentir;
do mesmo modo, no primeiro momento, o Espírito procura o corpo;
ele o vê a seu lado; sabe que é o seu e se espanta por
estar dele separado; não é senão pouco a pouco
que ele se dá conta de sua nova situação.
Nesse fenômeno, não se opera senão uma mudança
de situação material; mas, no moral, o Espírito
é exatamente o que era algumas horas antes; não sofre
nenhuma modificação sensível; suas faculdades,
suas idéias, seus gostos, suas tendências, seu caráter
são os mesmos; as mudanças que ele pode sofrer não
se operam senão gradualmente pela influência do que o cerca.
Em resumo, não houve morte senão para o corpo somente;
para o Espírito não houve senão sono.(8)
Ao depoimento de Lapommeray(1)
comenta Allan Kardec “...Sob
o ponto de vista das existências, os Espíritos na erraticidade
podem considerar-se inativos e na expectativa; mas, ainda assim, podem
expiar, uma vez que o orgulho e a tenacidade formidável dos seus
erros não os tolham no momento da progressiva ascensão.
Tivestes disso um exemplo terrível na última comunicação
desse criminoso impenitente, debatendo-se com a justiça divina
a constringi-lo depois da dos homens.
Neste caso a expiação ou, antes, o sofrimento fatal que
os oprime, ao invés de lhes ser útil, inculcando-lhes
a profunda significação de suas penas, exacerba-os na
rebeldia, e dá azo às murmurações que a
Escritura em sua poética eloqüência denomina ranger
de dentes.
Esta frase, simbólica por excelência, é o sinal
do sofredor abatido, porém insubmisso, isolado na própria
dor, mas bastante forte ainda para recusar a verdade do castigo e da
recompensa! Os grandes erros perduram no mundo espiritual quase sempre,
assim como as consciências grandemente criminosas. Lutar, apesar
de tudo, e desafiar o infinito, pode comparar-se à cegueira do
homem que, contemplando as estrelas, as tivesse por arabescos de um
teto, tal como acreditavam os gauleses do tempo de Alexandre.
O infinito moral existe! E miserável e mesquinho é quem,
a pretexto de continuar as lutas e imposturas abjetas da Terra, não
vê mais longe no outro mundo, do que neste.
Para esse a cegueira, o desprezo alheio, o egoístico sentimento
da personalidade, são empecilhos ao seu progresso. Homem! é
bem verdade que existe um acordo secreto entre a imortalidade de um
nome puro, legado à Terra, e a imortalidade realmente conservada
pelos Espíritos nas suas sucessivas provações...
Precipitar um homem nas trevas ou em ondas de luz não dará
o mesmo resultado? Num como noutro caso, esse homem nada vê do
que o cerca, e habituar-se-á mesmo mais facilmente à sombra
do que à monótona claridade elétrica, na qual pode
estar submerso. O Espírito manifestado na última sessão
exprime bem a verdade quando diz: "Oh! eu saberei libertar-me dessa
odiosa luz." De fato, essa luz é tanto mais terrível,
horrorosa, quanto ela o penetra completamente e lhe devassa os pensamentos
mais recônditos. Aí está uma das circunstâncias
mais rudes de tal castigo espiritual. O Espírito encontra-se,
por assim dizer, na casa de vidro pedida por Sócrates. Disso
decorre ainda um ensinamento, visto como o que seria alegria e consolo
para o sábio, transforma-se em punição infamante
e contínua para o perverso, para o criminoso, para o parricida,
sobressaltado em sua própria personalidade. Meus filhos calculem
o sofrimento, o terror dos hipócritas que se compraziam em toda
uma existência sinistra a planejar, a combinar os mais hediondos
crimes no seu foro íntimo, quais feras refugiadas no seu antro,
e que hoje, expulsas desse covil intimo, não se podem furtar
à investigação dos seus pares... Arrancada que
lhe seja a máscara da impassibilidade, todos os pensamentos se
lhe estampam na fronte! Sim, e além de tudo nenhum repouso, nada
de asilo para esse formidando criminoso. Todo pensamento mau, e Deus
sabe se a sua alma o exprime -se lhe, trai por fora e por dentro, como
impelido por choque elétrico irresistível. Procura esquivar-se
à multidão, e a luz odiosa o devassa continuamente. Quer
fugir, e desanda numa carreira infrene, desesperada, através
dos espaços incomensuráveis, e por toda a parte luz, olhares
que o observam. E corre, e voa novamente em busca da sombra, em busca
da noite, e sombra e noite, não mais existem para ele! Chama
pela morte... Mas a morte não é mais que palavra sem sentido.
E o infeliz foge sempre, a caminho da loucura espiritual - castigo tremendo,
dor horrível, a debater-se consigo para se desembaraçar
de si mesmo, porque tal é a lei suprema para além da Terra,
isto é: o culpado busca por si mesmo o seu mais inexorável
castigo”(1).
Quanto tempo durará esse estado? Até o momento em que
a vontade, por fim vencida, se curve constrangida pelo remorso, humilhada
a fronte altiva ante os Espíritos de justiça e ante as
suas vítimas apaziguadas.
Notai a lógica profunda das leis imutáveis; com isso o
Espírito realizará o que escrevia nessa altaneira comunicação
tão clara, tão lúcida, tão desconsoladoramente
egoística.
| Bibliografia: |
| |
1. Kardec ,Allan, O Céu
e o Inferno, CAPÍTULO VII:- Espíritos endurecidos
:- Lapommeray |
| |
2. Lacan, J. Escritos.
(1998). |
| |
3. Borges Romam ,G,Um
breve ensaio sobre a negação no raciocínio
humanístico,Cadernos da pós-graduação,UFPR |
| |
4. Schopenhauer, Arthur
“A Arte de Insultar” |
| |
5. Kardec,Allan, O Livros
dos Espíritos, Questões 916 e 917 |
| |
6. Joanna de Ângelis/,
Divaldo Pereira Franco, ”Meditações” |
| |
7. Kardec,Allan, O Livros
dos Espíritos, Questão 913 |
| |
8. KARDEC ALLAN ,Obras
Póstumas : A morte espiritual. |
| |
Laurelucia Orive Lunardi
Maio / 2008 |
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