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Nesta obra Allan Kardec reafirma o caráter
científico do Espiritismo e avalia como ciência de observação,
a nova doutrina, enfrentando o problema das penas e recompensas futuras
à luz da História, estabelecendo comparações
entre as idealizações do céu e do inferno nas religiões
anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes
históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas
dessas idealizações na formulação dos dogmas
cristãos.
CapituloV : Suicidas
FÉLICIEN
...” um homem rico, instruído,
poeta de espírito, possuidor de caráter são, obsequioso
e ameno, de perfeita honradez. Falsas especulações comprometeram-lhe
a fortuna, e, não lhe sendo possível repará-la em
razão da idade avançada, cedeu ao desânimo, enforcando-se
em dezembro de 1864, no seu quarto de dormir.”(1)
O desânimo é um conjunto de
alterações comportamentais, emocionais e de pensamento,
que levam ao afastamento do convívio social, perda de interesse
nas atividades profissionais, perda do prazer nas relações
levando a um sentimento de culpa ou auto depreciação,
baixa auto-estima, desesperança.Em resumo é a perda da
esperança e esta perda faz toda a diferença. Pois a esperança,
do latim sperare, é o sentimento que leva o homem a olhar para
o futuro, considerando-o portador de condições melhores
que as oferecidas pelo presente. Deste modo a luta pela vida e os sofrimentos
são enfrentados como situações passageiras. Sob
o ponto de vista teológico, a Esperança é uma virtude
sobrenatural, que leva o homem a desejar Deus, como bem supremo (2,3).
A esperança é filha da fé. (4) .Nesse sentido,
Paulo de Tarso, fala aos hebreus “Ora, a fé é o
firme fundamento das coisas que se esperam, e a certeza das coisas que
não se vêem” (5) assim como o Espírito Emmanuel
(6): "A fé é guardar no coração
a certeza iluminada de Deus, com todos os valores da razão tocados
pelo perfume do sentimento.” A fé este sentimento
inato no indivíduo, pode ser cega ou raciocinada. A fé
cega, não examinando nada, aceitando sem controle o falso como
verdadeiro, se choca, a cada passo, contra a evidência e a razão;
levando a desesperança.Este era o caso de Felicien.
Não era materialista
nem ateu, mas um homem de gênio um tanto superficial, ligando pouca
importância ao problema da vida de além-túmulo”(1)
Com receio do após a morte, muitos se afastam desta realidade mais
íntima, a realidade espiritual. Apegam-se a cada dia, ainda mais,
as preocupações terrenas e esquecendo as espirituais. As
dificuldades do dia-dia, problemas emocionais, o medo e receio, pavor
da morte, entre tantos desafios,levam ao esmorecimento. Ensina Emmanuel
em "Justiça Divina" - que: ..."Somos Espíritos
doentes em laboriosa restauração" devidos aos débitos
contraídos no passado. "Todos somos enfermos pedindo alta"
(7).No caso de Felicien , Allan Kardec explica que:
“Nota - Este caso particular
de suicídio, posto que realizado em circunstâncias vulgares,
apresenta uma feição especial. Ele mostra-nos um Espírito
que sucumbiu muitas vezes à provação, que se renova
a cada existência e que renovará até que ele tenha
forças para resistir.Assim se confirma o fato de não haver
proveito no sofrimento, sempre que deixamos de atingir o fim da encarnação,
sendo preciso recomeçá-la até que saiamos vitoriosos
da campanha.(1) ”O
Espírito de Felicien explicando seu ato comenta:
``... R. Como morri? Pela
morte por mim escolhida, a que mais me agradou, sendo para notar que meditei
muito tempo nessa escolha com o intuito de me desembaraçar da vida.
Apesar disso, confesso que não ganhei grande coisa: - libertei-me
dos cuidados materiais, porém, para encontrá-los mais graves
e penosos na condição de Espírito, da qual nem sequer
prevejo o termo (1).”
A vida não tem fim,
é patrimônio eterno, concedido por Deus a seus filhos, cuja
finalidade é o progresso crescente, até a perfeição
espiritual. No livro "O Céu e o Inferno", Allan Kardec
diz o seguinte : ..."Ninguém tem o direito de dispor de
sua vida, porque ela lhe foi concedida visando aos deveres que teria de
cumprir na Terra. Por isso, não deve abreviá-la sob pretexto
algum. Visto possuir o livre-arbítrio, ninguém pode impedi-lo
de fazê-lo, mas terá de sofrer as conseqüências.
O suicídio mais severamente punido é o cometido por desespero,
no propósito de fugir das misérias da vida. Sendo estas,
ao mesmo tempo, provações e expiações, furtar-se
a elas, é recuar diante da tarefa que se impôs..."
Quais as conseqüências do suicídio sobre o Espírito
?
...”As conseqüências do suicídio são
muito diversas: não existem penalidades fixas e, em todos os casos,
são sempre relativas às causas que o provocaram; mas uma
conseqüência da qual o suicida não pode escapar é
o desapontamento. Além disso, a sorte não é a mesma
para todos: depende das circunstâncias. Alguns expiam sua falta
imediatamente; outros, em nova existência, que será pior
do que aquela cujo curso interromperam. (8)”.
O Espírito de um suicida voltará a novo corpo terreno em
condições muito penosas de sofrimento, agravados pelas resultantes
do grande desequilíbrio que o desesperado gesto provocou em seu
corpo astral, isto é, no perispirito. E para o seu próprio
benefício, terá que repetir o programa terreno que deixou
de executar.
No livro "Religião dos Espíritos", Emmanuel, assinala
que "os resultados dos suicídios não se circunscrevem
aos fenômenos de sofrimento íntimo, porque surgem os desequilíbrios
com impositivos de reajuste em existências próximas."(9).
Os Espíritos nos advertem das provações a que são
conduzidos os que, tentam fugir da vida. Mas nos advertem também
sobre o amor de Deus, que renova a todos oportunidades de reconstrução
do equilíbrio. da superação das dificuldades.
...”Entretanto, eu não podia furtar-me de outro
modo aos embaraços da minha posição material. Agora,
só tenho necessidade de preces; orai, principalmente, para que
me veja livre desses hórridos companheiros que aqui estão
junto de mim, obsidiando-me com gritos, sorrisos e infernais motejos.
Eles chamam-me covarde, e com razão, porque é covardia renunciar
à vida. (1)”.O suicida sofre antes, durante e
depois do ato impensado, pois leva a dor como bagagem.
“...É a quarta
vez que sucumbo a essa provação, não obstante a formal
promessa de não falir... Fatalidade!...Ah! Orai... Que suplício
o meu! Quanto sou desgraçado! Orando, fazeis por mim mais que por
vós pude fazer quando na Terra; mas a prova, ante a qual fracassei
tantas vezes, aí está retraçada, indelével,
diante de mim! E preciso tentá-la novamente, em dado tempo... Terei
forças? Ah! recomeçar a vida tantas vezes; lutar por tanto
tempo para sucumbir aos acontecimentos, é desesperador, mesmo aqui!
Eis por que tenho carência de força. Dizem que podemos obtê-la
pela prece... Orai por mim, que eu quero orar também.(1).A
prece feita de coração para o suicida lhe cai como um bálsamo
restaurador, as vezes como um primeiro contato entre ele e sua própria
realidade como relata Divaldo Pereira Franco no livro "O Semeador
de Estrelas" . ... ele nos diz sobre o hábito de escrever
em um caderninho o nome de suicidas para rezar por eles. Certa feita,
ele (Divaldo), muito amargurado, muito triste por um problema grave, começou
a chorar e eis que um espírito lhe aparece consolando-o, e se apresentou
como o suicida do trem, que ele (Divaldo), orava pedindo intercessão.
E o espírito assim falou:
Há muitos anos eu me joguei embaixo das rodas de um trem. E
não há como definir sensação eterna da tragédia.
Eu ouvia o trem apitar, via-o crescer ao meu encontro e sentia-lhe as
rodas me triturando, sem terminar nunca e sem nunca morrer. Quando acabava
de passar, quando eu ia respirar, escutava o apito e começava tudo
outra vez, eternamente. Até que um dia escutei alguém chamar
pelo meu nome. Fê-lo com tanto amor, que aquilo me aliviou por um
segundo, pois o sofrimento logo voltou. Mais tarde, novamente, ouvi alguém
chamar por mim. Passei a ter interregnos em que alguém me chamava,
eu conseguia respirar, para agüentar aquele morrer que nunca morria
e eu não sei lhe dizer o tempo que passou. Transcorreu muito tempo
mesmo, até o momento em que deixei de ouvir o apito do trem, para
escutar a pessoa que me chamava. Dei-me conta, então, que a morte
não me matara e que alguém pedia a Deus por mim. Lembrei-me
de Deus, de minha mãe, que já havia morrido. Comecei a refletir
que eu não tinha”. o”. direito de ter feito aquilo,
passei a ouvir alguém dizendo: "Ele não fez por mal.
Ele não quis matar-se". Até que um dia esta força
foi tão grande que me atraiu; aí eu vi você nesta
janela, chamando por mim." (10)
As preces e o respeito são bálsamos para o seu sofrimento.
Jesus nos afirma a extensão do beneficio da prece, ( 11 )....“Não
são os que gozam de saúde que precisam de médico”.
E reafirma “... a prece tem sobre eles uma ação mais
direta, reanima-os, incute-lhes o desejo de se elevar pelo arrependimento
e pela reparação...”. (12 )
“ ... Oh! obrigado!
Oh! obrigado por tão boas exortações. Delas tenho
tanto maior necessidade, quanto sou mais desgraçado do que demonstrava.
Vou aproveitá-las, garanto, no preparo da próxima encarnação,
durante a qual farei todo o possível por não sucumbir. Já
me custa suportar o meio ignóbil do meu exílio. Félicien.(1)A
prece é a maior caridade que pode ser feita em favor daqueles que
sofreram tal desatino É o que nos diz o amoroso mentor Emmanuel,
na obra "Escrínio de Luz”, estimulando-nos, encorajando-nos
a superar provas, que são "material educativo do templo em
que nos asilamos prece eleva o Espírito, liberta-o momentaneamente
e o coloca em contato com as fontes energéticas do Bem,se revela
no concurso desvelado dos bons Espíritos, que auxiliarão
o soerguimento do culpado para a devida reabilitação, infundindo-lhe
ânimo e esperança e cercando-o de toda a caridade possível.(13)
| Bibliografia: |
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1.
Kardec ,Allan, “ Céu e Inferno” CapituloV : Suicidas
. |
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2.
Ávila, F. B. de S.J. Pequena Enciclopédia de Moral
e Civismo. Rio de Janeiro, M.E.C., 1967. |
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3.
Viktor E. Frankl. Sede de Sentido. Ed. Quadrante |
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4.
Kardec ,Allan, O Evangelho Segundo o Espiritismo. cap. XIX. |
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5.
Bíblia Sagrada, Hebreus, 6, 15 Sociedade Bíblica do
Brasil. |
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6.
Xavier, F. C. pelo Espírito Emmanuel , Fonte Viva |
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7.
Xavier F. C - Emmanuel - Justiça Divina - - Doenças
da Alma pág. 114 |
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8. Kardec ,Allan,
O Livros dos Espíritos, questão 957. |
 |
9. Xavier,
F. C. pelo Espírito Emmanuel Religião dos Espíritos |
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10. Suely Caldas
Schubert ,O Semeador de Estrelas. |
 |
11. Kardec,
Allan - O Evangelho Segundo o Espiritismo capítulo XXVIII |
 |
12. Kardec,
Allan - O Evangelho Segundo o Espiritismo capítulo XXVII,
item 18 |
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13.
Xavier, F. C. pelo Espírito Emmanuel , Escrínio de
Luz. |
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Laurelucia Orive Lunardi
Maio / 2007 |
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