O
Céu e o Inferno
por
ALLAN KARDEC
No volume
em estudo, Allan Kardec reafirma o caráter científico
do Espiritismo e avalia como ciência de observação,
a nova doutrina, enfrentando o problema das penas e recompensas futuras
à luz da História, estabelecendo comparações
entre as idealizações do céu e do Inferno nas
religiões anteriores e nas religiões cristãs,
revelando as raízes históricas, antropológicas,
sociológicas e psicológicas dessas idealizações
na formulação dos dogmas cristãos.
CAPITULO V
Purgatório
A palavra
"Purgatório" é definida no Novo Dicionário
Aurélio como "Lugar de purificação para as
almas dos justos antes de admitidas na bem-aventurança; qualquer
lugar onde se sofre por algum tempo." O Evangelho não faz
menção alguma do Purgatório, que só foi
admitido pela Igreja no ano de 593.
O que a Igreja Católica quer dizer quando usa a palavra "Purgatório"?
"Todos que morrem na graça e comunhão com Deus, mas
ainda imperfeitamente purificados, têm a garantia da salvação
eterna; mas após a morte passam por uma purificação,
de forma a obter a santidade necessária para entrar no gozo dos
céus. A Igreja dá o nome de Purgatório a essa purificação
final..." [Catecismo pg 268, parágrafo #1030, 1031]
O Purgatório é descrito como um lugar de "sofrimento
temporário" ,isto é, quem for ao Purgatório,
depois de um certo tempo, será recebido nos céus, mas
precisará pagar antes por alguns de seus pecados. Na teologia
católica romana, a maioria das pessoas acabará entrando
nos céus, sendo portanto salvas, fig 1.
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| Fig.1:-Pintura
realizada por Gustave Dore (1832-1883), como ilustração
da Divina Comédia, escrita por Dante. Na concepção
do artista o purgatório seria um lugar desolado e triste
onde seriam pagos os pecados. |
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Localizados o céu e o Inferno, as seitas cristãs foram
levadas a não admitir para as almas senão duas situações:
a felicidade perfeita e o sofrimento absoluto.O Purgatório é
uma posição intermediária e passageira, ao sair
da qual as almas passam, sem transição, à mansão
dos justos. Incontestavelmente um dogma mais racional e mais adequado
com a justiça de Deus que o Inferno, porque estabelece penas
menos rigorosas e resgatáveis para as faltas de gravidade mediana.
O princípio do Purgatório é, pois, fundado na eqüidade,
porque, comparado à justiça humana, é a detenção
temporária que antecede ao juízo e a condenação
perpétua. Que julgar de um país que só tivesse
a pena de morte para os crimes e os simples delitos? O que seria das
almas somente culpadas de ligeiras faltas? Compartilhariam da felicidade
dos eleitos, ainda quando imperfeitas? Ou sofreriam o castigo dos maiores
criminosos, ainda quando não houvessem feito muito mal, o que
não seria nem justo, nem racional.Sem o Purgatório, só
há para as almas duas alternativas extremas: a suprema felicidade
ou o eterno suplício. Mas, necessariamente, a noção
do Purgatório é incompleta, porque apenas conhecendo a
penalidade do fogo fizeram dele um Inferno menos tenebroso, visto que
as almas aí também ardem, embora em fogo mais brando.
Allan Kardec em suas obras mostra que tal situação não
compatível com as leis que regem o Universo e não podem
ser aceitas como verdade,sendo um dogma de impossível convivência
frente a Lei de Progresso. Pela visão do Purgatório as
almas que aí se encontram não se livram dele por efeito
do seu adiantamento, mas em virtude das preces que se dizem ou que se
mandam dizer em sua intenção, não levando nenhum
crescimento a estas almas visto que o crédito é de quem
fez as preces e não de quem as recebeu.
Jamais foram determinados e definidos claramente o lugar do Purgatório
e a natureza das penas aí sofridas.Em resposta Questão
1.011 "O Livro dos Espíritos" estes respondem que
"A localização absoluta das regiões das penas
e das recompensas só na imaginação do homem existe.
Provém da sua tendência a materializar e circunscrever
as coisas, cuja essência infinita não lhe é possível
compreender. As penas e os gozos são inerentes ao grau de perfeição
dos Espíritos. Cada um tira de si mesmo o princípio de
sua felicidade ou da sua desgraça. E, como os Espíritos
estão por toda parte, não existe um lugar circunscrito
ou fechado que possamos chamar de paraíso, Inferno ou Purgatório.
Existe o estado moral dos Espíritos"
A Nova Revelação veio auxiliar o homem a compreender a
importância do estado moral de cada um, explicando a causa das
terrenas misérias da vida, das quais só a pluralidade
das existências poderia mostrar-nos a justiça. As misérias
humanas decorrem necessariamente das imperfeições da alma,
pois se esta fosse perfeita não cometeria faltas nem teria de
sofrer-lhe as conseqüências. Assim um homem que na Terra
fosse em absoluto sóbrio e moderado em relação
a bebida , por exemplo, não padeceria enfermidades oriundas de
seus excessos. A pluralidade das existências, a reencarnação
leva pelo desenvolvimento do potencial pessoal do Bem a reparar na vida
terrena as falhas anteriores em uma vida de provações
e lutas desgastando os desequilíbrios anteriores. As vicissitudes
que experimenta são, por sua vez, uma correção
temporária e uma advertência quanto às imperfeições
que lhe cumpre e liminar, a fim de evitar males maiores e progredir
libertando-se. São para a alma lições da experiência,
rudes às vezes, mas tanto mais proveitosas para o futuro, quanto
profundas as impressões que deixam. Essas vicissitudes ocasionam
incessantes lutas que lhe desenvolvem as forças, as faculdades
intelectivas e morais. Por essas lutas a alma se retempera no bem, triunfando
recomeçando progredindo. É, pois, nas sucessivas encarnações
que a alma se despoja das suas imperfeições, que se purga,
em uma palavra, até que esteja bastante pura para deixar os mundos
de expiação como a Terra, onde os homens expiam o passado
no presente, em proveito do futuro. O livramento se dá, não
por conclusão de tempo nem por alheios méritos, mas pelo
próprio merecimento face ao trabalho que consigo realizar. Consoante
com estas ações apalavras do Cristo: - A cada um, segundo
as suas obras, palavras que resumem integralmente a justiça de
Deus.
Bibliografia
consultada:
Allan Kardec "Livro dos Espíritos".
Allan Kardec "Céu e Inferno" capitulo IV.
Xavier, F.C. "A Caminho da Luz" (História da
Civilização à Luz do Espiritismo). Rio de Janeiro,
FEB, 1972
Andrade, Jayme - "O Espiritismo e as Igrejas Reformadas",
1a edição, 1993, Ed. Gráf. "ABC do Interior",
Conchas - SP;
Laurelucia Orive Lunardi
Maio / 2004