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Nesta obra Allan Kardec reafirma o caráter
científico do Espiritismo e avalia como ciência de observação,
a nova doutrina, enfrentando o problema das penas e recompensas futuras
à luz da História, estabelecendo comparações
entre as idealizações do céu e do inferno nas religiões
anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes
históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas
dessas idealizações na formulação dos dogmas
cristãos.
CapituloV : Suicidas
ANTOINE BELL
“...Ao guia do médium: - Um Espírito
obsessor pode, realmente, levar o obsediado ao suicídio?(1)
O tema obsessão é de há muito tempo, conhecido
da Medicina Clássica e se caracteriza por expressar um pensamento
contínuo capaz de, com o tempo, desestruturar a personalidade.
No conceito Espírita, obsessão é uma patologia
de ordem psíquica e emocional.Consiste num constrangimento das
atividades de um Espírito (encarnado ou não) pela ação
de um outro. A influência espiritual só é qualificada
como obsessão quando se observa uma perturbação
constante, se esta é esporádica, ela não se caracterizará
como uma obsessão. “...A palavra obsessão
é, de certo modo, um termo genérico, pelo qual se designa
esta espécie de fenômeno, cujas principais variedades são:
a obsessão simples, a fascinação e a subjugação."
(2).
Allan Kardec sobre este assunto apresenta na Revista Espírita,
ano de 1858, mês de Outubro(3) o que se segue:
....”Os Espíritos não são iguais
nem em poder, nem em conhecimento, nem em sabedoria. Como não
passam de almas humanas desembaraçadas de seu invólucro
corporal, ainda apresentam uma variedade maior que a que encontramos
entre os homens na Terra. Há, pois, Espíritos muito superiores,
como os há muito inferiores; muito bons e muito maus muito sábios
e muito ignorantes, há os levianos, malévolos, mentirosos,
astutos, hipócritas, espirituosos, trocistas etc. •- Estamos
incessantemente cercados por uma nuvem de Espíritos que, nem
por serem invisíveis aos nossos olhos materiais, deixam de estar
no espaço, em redor de nós, ao nosso lado, espiando os
nossos atos, lendo os nossos pensamentos, uns para nos fazer o bem,
outros para nos fazer o mal, segundo os Espíritos bons ou maus.
•- Pela inferioridade física e moral de nosso globo, na
hierarquia dos mundos, os Espíritos inferiores aqui são
mais numerosos que os superiores. •- Entre os que nos cercam,
há os que se ligam a nós, que agem mais”. particularmente
sobre o nosso pensamento, aconselhando-nos, e cujo impulso seguimos
sem nos apercebermos; felizes se escutarmos a voz dos bons.
- Liga-se os Espíritos inferiores àqueles que os ouvem,
junto aos quais têm acesso e aos quais se agarram. Se conseguirem
estabelecer domínio sobre alguém, identificam-se com o
seu próprio Espírito, fascinam-no, obsediam-no, subjugam-no
e o conduzem como se fosse uma criança.
- A obsessão jamais se dá senão por Espíritos
inferiores. Os bons Espíritos não produzem nenhum constrangimento;
aconselham, combatem a influência dos maus e se afastam, desde
que não sejam ouvidos.
- O grau de constrangimento e a natureza dos efeitos que produz marcam
a diferença entre a obsessão, a subjugação
e a fascinação.
- Por sua vontade pode sempre o homem sacudir o jugo dos Espíritos
imperfeitos, porque em virtude de seu livre arbítrio, há
escolha entre o bem e o mal. Se o constrangimento chegou a ponto de
paralisar a vontade e se a fascinação é tão
grande que oblitera a razão, então a vontade de uma terceira
pessoa pode substituí-la. “
As causas da obsessão segundo Joanna de Ângelis (Espírito)
(4) são:
“ Inerentes à individualidade que lhe padece
o constrangimento, suas causas se originam no passado culposo, em cuja
vivência o homem, desatrelado dos controles morais, arbitrariamente
se permitiu consumir por deslizes e abusos de toda ordem, com o comprometimento
das reservas de previdência e tirocínio racional.”
As obsessões relativas ao passado são aquelas provenientes
do processo de evolução a que todos os Espíritos
estão sujeitos. Nas suas experiências reencarnatórias,
por ignorância ou livre arbítrio, um Ser pode cometer faltas
graves em prejuízo do próximo. Se a desavença gerar
ódio, o desentendimento poderá perdurar por encarnações
a fio, despontando nos desafetos, brigas, desejos de vingança
e perseguição. Casos assim podem dar origem a processos
obsessivos tenazes. A subjugação é um desse tipo
de obsessão, e se caracteriza por apresentar um elevado grau
de domínio do aspecto corporal e às vezes moral do paciente,sempre
acontecendo por afinidade e sintonia mental,onde a vontade do obsidiado
se anula . Joanna de Angelis sobre este tema coloca que :
“...A identificação vibratória
é sempre o recurso que faculta o intercâmbio nefasto do
agressor sobre aquele que lhe padecerá a influência perniciosa.
Na raiz de todo desafio obsessivo, encontra-se pulsante o ser endividado,
que, não tendo adquirido valores éticos substanciais,
é compelido por automatismos vibratórios a sintonizar
com aqueles desencarnados que lhe são semelhantes, sejam-lhe
as vítimas transitas ou outros que se lhe assemelham.Tratando-se
de seres pensantes, portadores de discernimento e de lucidez, embora
embotados pela ignorância ou pela impiedade, urdem planos hábeis,
aguardando os momentos próprios para iniciar ou dar prosseguimento
a desforços injustificados, gerando parasitose cruel.”(5)
Este é o caso de Antoine Bell , caixa de uma casa bancária
do Canadá e suicidou-se a 28 de fevereiro de 1865, cujo caso
foi relatado por um contemporâneo seu:
.... "Conhecia-o, havia perto de 20 anos, como homem
pacato e chefe de numerosa família. De tempos a certa parte imaginou
ter comprado um tóxico na minha farmácia, servindo-se
dele para envenenar alguém. Muitas vezes vinha suplicar-me para
lhe dizer a época de tal compra, tomado então de alucinações
terríveis. Perdia o sono, lamentava-se, batia nos peitos. A família
vivia em constante ansiedade das 4 da tarde às 9 da manhã,
hora esta em que se dirigia para a casa bancária, onde, aliás,
escriturava os seus livros com muita regularidade, sem que jamais cometesse
um só erro. Habitualmente dizia sentir dentro de si um ente que
o fazia desempenhar com acerto e ordem a sua contabilidade. Quando se
afigurava convencido da extravagância das suas idéias,
exclamava: - "Não; não; quereis iludir-me... lembro-me...
é a verdade..."(1)
O processo obsessivo que culminou com o seu enforcamento é relatado
pelo próprio suicida:
“...eu era bom por natureza, e, depois de submetido,
como todos os homicidas, ao tormento da visão perseverante da
vítima, que me perseguia qual vivo remorso, dela me descartei
depois de muitos anos, pelo meu arrependimento e pelas minhas preces.
Recomecei outra existência - a última -que atravessei calmo
e tímido. Tinha em mim como que vaga intuição da
minha inata fraqueza, bem como da culpa anterior, cuja lembrança
em estado latente conservara.Mas um Espírito obsessor e vingativo,
que não era outro senão o pai da minha vítima,
facilmente se apoderou de mim e fez reviver no meu coração,
como em mágico espelho, as lembranças do passado”(1)
Neste relato, Antoine mostra que o processo
obsessivo se instalou graças a psicosfera criada a partir do
sentimento de culpa e do remorso.
Léon Denis em O Problema do Ser, do Destino e da Dor(6),
destaca:
"Mais cedo ou mais tarde, todo o produto do Espírito
reverte para seu autor com suas conseqüências, acarretando-lhe,
segundo o caso, o sofrimento, uma diminuição, uma privação
de liberdade..."
"O pensamento, dizíamos, é criador, não atua
somente ao nosso redor, influenciando nossos semelhantes para o bem
ou para o mal, atua principalmente em nós; gera nossas palavras,
nossas ações e, com ele construímos, dia-a-dia,
o edifício grandioso ou miserável de nossa vida presente
e futura".
O uso inadequado do livre-arbítrio desencadeia, no faltoso, reações
profundamente desarmônicas do tipo arrependimento e remorso, contingências
responsáveis por sofrimentos prolongados, desde que o indivíduo
não se proponha a reparar, assim que possível, o mal cometido.O
remorso equivale a uma certa quantidade de energia desequilibrada a
vibrar nos fulcros localizados na intimidade do corpo espiritual.
...”Tenho horror ao meu crime e sou muito infeliz!” “.....há
já bastante tempo que vivia numa cidade banhada pelo Mediterrâneo.
Amava, então, uma bela moça que me correspondia; mas,
pelo fato de ser pobre, fui repelido pela família. A minha eleita
participou-me que desposaria o filho de um negociante cujas transações
se estendiam para além de dois mares, e assim fui eu desprezado.
Louco de dor, resolvi acabar com a vida, não sem deixar de assassinar
o detestado rival, saciando o meu desejo de vingança. Repugnando-me
os meios violentos, horrorizava-me a perpetração do crime,
porém o meu ciúme a tudo sobrepujou. Na véspera
do casamento, morria o meu rival envenenado, pelo meio que me pareceu
mais fácil. Eis como se explicam as reminiscências do passado...
Sim, eu já reencarnei, e preciso é que reencarne ainda...
Oh! meu Deus, tende piedade das minhas lágrimas e da minha fraqueza!”(1)
Destaque-se que o Espírito, encarnado ou desencarnado, que localiza
seus pensamentos na esfera dos sentimentos improducentes, como a dor,
o remorso, o orgulho e o ódio, situa toda sua atenção
em uma idéia fixa. Tal procedimento, resultado do livre arbítrio,
reduz o padrão vibratório do indivíduo, favorecendo
o intercâmbio de idéias semelhantes e dificultando a ação
benéfica de Espíritos que queiram auxiliar.
Nesta situação o Ser (encarnado ou desencarnado), passa
obrigatoriamente a contemplar, dentre suas possibilidades sensoriais,
as cenas, sons e percepções relacionados com os atos indevidos
que tenha procedido, contrariando as leis da natureza, pelo tempo equivalente
àquele gasto nos atos cometidos. Existem diversos relatos de
Espíritos que permaneceram séculos isolados do mundo exterior,
escravizados a um tipo de pensamento ou idéia, só conseguindo
se libertar pela bênção da reencarnação,
igualmente compulsória, com o auxílio da expiação
renovadora.No caso dos encarnados as monos-idéias, levam ou a
processos auto obsessivos ou abrem caminho para a obsessão por
terceiros.
Os Espíritos disseram a Allan Kardec em "A Gênese(7),
"O pensamento é para o Espírito o que a mão
é para o homem".
Sobre isto Joanna de Angelis(4) comenta:
..”Originária, às vezes, da consciência
perturbada pelas faltas cometidas nas existências passadas, e
ainda não expungidas - renascendo em forma de remorsos, recalques,
complexos negativos, frustrações, ansiedades -, impõe
o auto-supliciamento, capaz, de certo modo, de dificultar novos deslizes,
mas ensejando, infelizmente, quase sempre, desequilíbrios mais
sérios...”
Confirmando assim o relato de Antoine(1)
.... Fascinado por esse demônio obsessor, deixei-me
arrastar para o suicídio. Sou muito culpado realmente, porém
menos do que se deliberasse por mim mesmo. Os suicidas da minha categoria,
incapazes por sua fraqueza de resistir aos obsessores, são menos
culpados e menos punidos do que os que abandonam a vida por efeito exclusivo
da própria vontade.(1)
Sobre a questão da culpabilidade deste processo( suicídio
decorrente de obsessão) os Espíritos comentam com Allan
Kardec no Livro O Céu e o Inferno(1):
“... a obsessão que, de si mesma, é
já um gênero de provação, pode revestir todas
as formas. Mas isso não quer dizer isenção de culpabilidade.
O homem dispõe sempre do seu livre-arbítrio e, conseguintemente,
está em si o ceder ou resistir às sugestões a que
o submetem.
Assim é que, sucumbindo, o faz sempre por assentimento da sua
vontade. Quanto ao mais, o Espírito tem razão dizendo
que a ação instigada por outrem é menos culposa
e repreensível, do que quando voluntariamente cometida. Contudo,
nem por isso se inocenta de culpa, visto como, afastando-se do caminho
reto, mostra que o bem ainda não está vinculado ao seu
coração.”
O obsessor terá que responder por ter agido contra as leis divinas.
O suicida que desencarna em processo obsessivo tem o mesmo tipo de atenuante
daquele que comete o suicídio em processo de loucura. Deus é
justo.
| Bibliografia: |
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1.
Kardec, Allan, O Céu e o Inferno, CapituloV : Suicidas
. |
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2.
Kardec, Allan, O Livros dos Médiuns, item 237. |
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3.
Kardec, Allan, Revista Espírita, ano de 1858, mês
de Outubro |
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4.
Franco, Divaldo Pereira (Joanna de Ângelis ) "Após
a Tempestade" |
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5. Franco, Divaldo Pereira (Joanna de Ângelis )” Parasitose
Perigosa”, Jornal Mundo Espírita de Março
de 1998. |
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6.
Denis, Léon " O Problema do Ser do Destino e da
Dor " , Cap. XXIII. |
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7.
Kardec, Allan, " A Gênese ", Capítulo
XIV: "Os Fluidos”. |
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Laurelucia
Orive Lunardi
Junho / 2007 |
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