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O Céu
e Inferno
Neste
livro Allan Kardec reafirma o caráter científico do Espiritismo
e avalia como ciência de observação, a nova doutrina,
enfrentando o problema das penas e recompensas futuras à luz
da História, estabelecendo comparações entre as
idealizações do Céu e do Inferno nas religiões
anteriores e nas cristãs, revelando as raízes históricas,
antropológicas, sociológicas e psicológicas dessas
idealizações na formulação dos dogmas cristãos. Quando analisamos as religiões cristãs observamos que na sua maioria ,mesmo nos dias de hoje, se baseiam na figura do pecado, que segundo elas,sempre acarreta uma dupla conseqüência : o pecado grave leva a privação da comunhão com Deus e, conseqüentemente, o homem incapaz para a vida eterna. A essa privação é dado o nome de pena eterna.Em algumas religiões o perdão dos pecados e a restauração da comunhão com Deus são alcançados por meio do Sacramento da Penitência, por meio da qual aconteceria a remissão das penas eternas, permanecendo porém, as conseqüências negativas do pecado, as suas seqüelas : as penas temporais. Através das indulgências essas penas temporais podem ser purificadas, garantindo que Deus perdoou tudo. "Essa remissão da pena temporal devida pelos pecados já perdoados quanto à nossa falta foi chamada de indulgência" Que é a indulgência, segundo os ensinamentos da Igreja Católica, por exemplo? É a remissão, diante de Deus, da pena temporal devida pelos pecados já perdoados quanto à culpa, que o fiel, devidamente disposto e em certas e determinadas condições, alcança por meio da Igreja, a qual, como dispensadora da redenção, distribui e aplica, com autoridade, o tesouro das satisfações de Cristo e dos Santos.( 'MANUAL DAS INDULGÊNCIAS' (Edições Paulinas, São Paulo, 1990). Desde o princípio do século XIV, era doutrina corrente na igreja o "perdão da pena e da dívida", sendo possível a compra do perdão ou da remissão mediante o pagamento de uma soma estipulada de acordo com a espécie do pecado. Afirma o historiador Koestlin que e os pecados podem ser substituídas pelo pagamento de determinadas somas em dinheiro que serviam a fins religiosos especiais ou expressam piedade peculiar. Leão X quis utilizar esse dinheiro para concluir a basílica de São Pedro, para que fosse o templo mais belo do mundo. A doutrina das penas eternas teve sua razão de ser, como a do inferno material,visando pelo temor constituir um freio para os homens pouco adiantados intelectual e moralmente. Na impossibilidade de apreenderem as nuanças tantas vezes delicadas do bem e do mal, como o valor relativo das atenuantes e agravantes, os homens não se impressionam, então, a não ser pouco ou mesmo nada com a idéia das penas morais. Tampouco compreendem a temporalidade dessas penas e a justiça decorrente das suas gradações e proporções.Quanto mais próximo do estado primitivo, mais material é assimilando-o à sua própria natureza, Deus não passa para ele de um soberano absoluto, tanto mais terrível quanto invisível, como um rei despótico que, fechado no seu palácio, jamais se mostrasse aos súditos. Sem compreenderem seu poder moral, só o aceitam pela força material. Não O percebam senão armado com o raio, ou no meio de coriscos e tempestades, semeando de passagem a destruição, a ruína, semelhantemente aos guerreiros invencíveis. Deus, que lhes é superior deve ser ainda mais terrível do que eles.Para esses homens são necessárias crenças religiosas adequadas à sua natureza ainda rude.. A medida que o senso moral nele se desenvolve. , o véu material vai se dissipando pouco a pouco, e os habilitam a compreender as coisas espirituais. Depois de tantos séculos passados, resistindo à história, as mudanças culturais ,aos conceitos científicos, o que restou foram atributos de Deus único, eterno, imutável, imaterial, onipotente, soberanamente justo e bom, infinito em todas as perfeições É impossível conceber Deus de outra maneira.Sem a infinita perfeição, poder-se-ia criar outro ser que lhe fosse superior. Para que seja único acima de todos os seres, faz-se mister que ninguém possa excedê-lo ou si quer igualá-lo em qualquer aspecto, logo, é necessário que seja de todo perfeito. Esse entender não acontece senão lenta e gradualmente. Compreender a proclamação de um Deus clemente, falando do seu reino, não deste mundo, Jesus,aceitando, entendendo e vivenciando " Amai-vos uns aos outros e fazei bem aos que vos odeiam", leva a crença na eternidade das penas perder terreno dia a dia, uma vez que esta fecha a perspectiva da vida. A outra por sua vez, acena com a importância da renovação, onde o homem se supera frente a própria Evolução.Outra analise, ainda mais lógica leva a considerar que a doutrina das penas eternas conduz à negação, ou, pelo menos, ao enfraquecimento de alguns atributos de Deus, pois é incompatível com a perfeição absoluta, donde resulta este dilema: ou Deus é perfeito, e não há penas eternas, ou há penas eternas, e Deus não é perfeito. Segundo a Doutrina Espírita, de acordo mesmo com as palavras do Evangelho, com a lógica e com a mais rigorosa justiça, o homem é o filho de suas obras, durante esta vida e depois da morte, nada devendo ao favoritismo. A recompensa pelos esforços, as punições pela negligência, estão inseridas como decorrência da observância ou não das leis de Deus.No Pai Nosso Jesus nos ensina a orar: - Perdoai-nos, Senhor, as nossas faltas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores. Pois se o culpado não devesse esperar algum perdão, inútil seria pedi-lo. Esse perdão é, porém, incondicional? É uma remissão pura e simples da pena em que se incorre? Não; a medida desse perdão subordina-se ao modo pelo qual se haja perdoado, o que equivale dizer que não seremos perdoados desde que não perdoemos. Deus, fazendo do esquecimento das ofensas uma condição absoluta, não podia exigir do homem fraco o que Ele, onipotente, não fizesse. O Pai Nosso é um protesto cotidiano contra a eterna vingança de Deus, e um convite, uma abertura para que o homem se entenda como perfectível e capaz de romper barreiras ruma à eternidade.
Bibliografia:
Laurelucia Orive Lunardi
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