O Céu e o Inferno

por

Allan Kardec

 


Nesta obra Allan Kardec reafirma o caráter científico do Espiritismo e avalia como ciência de observação, a nova doutrina, enfrentando o problema das penas e recompensas futuras à luz da História, estabelecendo comparações entre as idealizações do céu e do inferno nas religiões anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas dessas idealizações na formulação dos dogmas cristãos.


CAPÍTULO VII:- Espíritos endurecidos:-

“... A crença é o primeiro passo; vindo em seguida a fé e a transformação a seu turno; mas, além disso, força é que muitos venham revigorar-se no mundo espiritual”(1)

Na epistemologia um ramo, da filosofia que trata dos problemas filosóficos relacionados à crença e ao conhecimento, crença é um estado mental que pode ser verdadeiro ou falso. Ela representa o elemento subjetivo do conhecimento. Platão, iniciador da tradição epistemológica, opôs a crença (ou opinião - "doxa", em grego) ao conceito de conhecimento.

Como é considerada como um estado mental, a crença segundo alguns autores é uma certeza .A certeza por sua vez pode ser onbservada em quatro níveis: Opinião, Convicção, Crença e Fé
.

Opinião:- è a certeza que pode ser mudada com facilidade, de acordo com percepções que temos das coisas Segundo Gustave Le Bon, psicólogo francês conhecido pensador do inicio do século XX: ” As opiniões representam geralmente pequenas crenças, mais ou menos transitórias (2).
Convicção:- è a certeza com uma carga emocional tão intensa que pode provocar reações às vezes, desprovidas de qualquer racionalidade.
A convicção segundo o filosofo alemão Friedrich Nietzsche... ”As convicções são inimigos da verdade bem mais perigosos que as mentiras(3)
Crença:- geralmente baseada em experiências, ou em experiências salpicadas com fortes emoções. É, por natureza, mais forte que a opinião e mais irracional que a convicção.
Com relação a crença, Krishnamurti, filósofo indiano, comenta... ”A mente, procurando segurança, cria a crença. Ela a cria por si mesma, ou aceita as crenças de outros, e, quer ela própria a tenha criado, quer a tenha recebido de outros, a mente adota e diz “eu creio”. Ou, “projeta” a crença para o futuro e faz dela uma certeza, uma garantia, de acordo com a qual a mente disciplina a si própria. Segundo este autor”...A crença, inevitavelmente, divide”. “Pois como fatores diferentes só podem conduzir a crenças diferentes, um crê em Deus, e outro crê que não há Deus. Um é maometano, outro hindu, outro cristão, e que acontece então? O desejo de estar em segurança, psicologicamente, cria infalivelmente a divisão, porquanto estais criando e dando importância a várias coisas que são secundárias. Vede o que a crença está fazendo no mundo. Política ou religiosamente, há inúmeros planos, que acreditais capazes de resolver as nossas dificuldades. Há crenças religiosas extraordinariamente variadas, e cada indivíduo se atém à sua própria crença, porque ela lhe dá conforto; e o individuo se torna um meio de propaganda e exploração.

... Quando tendes uma crença e buscais a segurança em vossa crença pessoal, vós vos separais daqueles que procuram a segurança em outras formas de crença. Por conseqüência, todas as formas de crença se baseiam no separatismo, embora preguem a fraternidade”(4).
Fé:- é uma firme convicção de que algo seja verdade, sem nenhuma prova de que este algo seja realmente verdade, pela absoluta confiança que depositamos em algo ou alguém. A palavra Fé veio da palavra grega pí•stis, que transmite a idéia de confiança, fidúcia, firme persuasão, portanto fé pode ser considerado sinônimo dos verbos acreditar, confiar ou apostar.(5)

..."Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam a convicção de fatos que se não vêem". - Hebreus 11:1 (6)
Em geral a fé está associada a algo de religioso. Ter fé em Deus, em Jesus, numa santa ou num santo. Algumas vezes, fé significa compromisso numa relação com Deus. Nesse caso, fé é usada no sentido de fidelidade. Tal compromisso não precisa ser cego ou submisso e pode ser baseado em evidências de caráter pessoal. No contexto religioso, "fé" tem muitos significados. Às vezes quer dizer lealdade a determinada religião. Nesse sentido, podemos, por exemplo, falar da "fé católica" ou da "fé islâmica".(5)


Segundo o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica (7), a fé "é a virtude teologal pela qual cremos em Deus e em tudo o que Ele nos revelou e que a Igreja nos propõe para acreditarmos, porque Ele é a própria Verdade. Pela fé, o homem entrega-se a Deus livremente.

No Protestantismo,nas palavras do Catecismo de Westminster: "Fé em Jesus Cristo é a graça da salvação, por meio de qual nós recebemos e repousamos sobre ele para a salvação, como ele é ofertado para nós no evangelho". O objeto da fé salvadora é toda a revelação da palavra de Deus. Fé aceita e acredita nisso como verdade mais certa. Mas o ato especial de fé que une a Cristo tem como seu objeto a pessoa e o trabalho do Senhor Jesus Cristo (Jo 7:38; At 16:31). Esse é o ato específico de fé que um pecador é justificado perante Deus (Rm. 3:22, 25; Gl. 2:16; Jo 3:26-36; At 10:43; 16:31)(8)

A fé islâmica consiste numa frase - que deve ser dita com a máxima sinceridade - através da qual cada muçulmano atesta que "não há outro deus senão Allah e Muhammad é seu servo e mensageiro"; os muçulmanos xiitas têm por costume acrescentar "e Ali ibn Abi Talib é amigo de Deus". Esta frase também é dita quando se chama à oração (azan). De acordo com a maioria das escolas islâmicas, para se converter ao Islão é necessário proclamar três vezes a chahada ("o testemunho") perante duas testemunhas: Achadu ala ilaha ila Allah. Achadu ana Mohammad Rassululah. ("Testemunho que não há outra divindade senão Deus. Testemunho que Mohammad é seu profeta mensageiro")(9)

Para religiões que se baseiam em crenças, a fé também quer dizer que alguém aceita as visões dessa religião como verdadeiras. Sob este ponto de vista Krishnamurti em seu livro “O verdadeiro objetivo da vida” comenta:-... ”Cada conjunto de dogmas e crenças possui uma série de rituais, uma série de compulsões que amarram a mente e separam um homem do outro A crença é corruptora porque atrás dela e dos ideais de moralidade aninha-se o ‘eu ‘, o ego - o ego que está cada vez maior e mais poderoso. Achamos que crer em Deus é religião. Consideramos que crer é ser religioso. Se vocês não crêem, serão considerados ateus e condenados pela sociedade. Uma sociedade condena os que não crêem em Deus, a outra condena os que crêem. Ambas são uma só e a mesma coisa. Nessas condições, a religião se torna uma questão de crer, e o crer atua como uma limitação sobre a mente, então a mente nunca é livre...” (10)

Sobre esse conceito atribuído às religiões dogmáticas como a "fé cega”,Allan kardec publicou em "O Evangelho Segundo o Espiritismo" uma proposição que se tornou famosa nos meios doutrinários espíritas: "Fé inabalável só é a que pode encarar a razão, face a face, em todas as épocas da Humanidade".(11) Allan Kardec analisa a fé religiosa e apresenta a condição da fé inabalável. A fé pode ser cega ou raciocinada. No primeiro caso, a fé nada examina e aceita sem controle o falso e o verdadeiro(12). Aquela que tem a verdade por base é a única que pode resistir às transformações devido ao progresso do conhecimento. Assim no Espiritismo a Fé e razão caminham juntos.A principio parece existir uma contradição de conceitos ,visto que a fé se funda na convicção e a razão, na dúvida ; desta forma ,a fé raciocinada parece um disparate. Entretanto é necessário analisar melhor esta questão:- como pensar é inerente ao ser humano duvidar também o e´. Allan Kardec em sua proposição apresenta que o primeiro o movimento seria o do raciocínio e, somente depois, a fé se constituiria.

Importa ressaltar que fé raciocinada não é o mesmo que fé racionalizada, que e ´aquela que através do uso tendencioso da razão, como falsa concepção da realidade, como pretexto para justificar o dogma religioso em que se apóia, o que transforma o argumento racional em argumento ideológico.

A fé raciocinada,– qualidade esta que a tornaria inabalável – seria aquela que se constituiria através de uma decisão racional, mas não apenas à razão de uma época ou situação, mas, que no exercício da própria fé se mantivesse em regime de racionalidade contínua. Significando que a crença espírita é basicamente uma fé que admite dúvida e com ela convive, durante todo o tempo. Trata-se, pois, de uma fé aberta, disposta a modificar as próprias opiniões ou o objeto de sua manifestação como crença, desde que satisfeitas as condições do livre exercício da razão.Isto é, busca sempre um saber mais amplo, argumenta e se questiona. Para isso, a fé espírita há de ser permanentemente reconstruída no diálogo com os diversos saberes, especialmente na interação entre o saber humano, de vertente científica ou filosófica .

“...A crença é o primeiro passo; vindo em seguida a fé e a transformação a seu turno;...(1)

Para que a transformação ocorra necessário se faz educar, mostrar, raciocinar, indicar, método mais trabalhoso e mais lento do que impor, decidir, determinar. Nada há na natureza que não possa ser pesquisado, caminhando-se para uma tomada de conhecimento gradual e crescente. É o sentido histórico da Humanidade, uma derrogação evidente do pretexto do sobrenatural (que nunca existiu) e o caminho para a verdade que libertará.


Bibliografia:

1. Kardec ,Allan, O Céu e o Inferno, CAPÍTULO VII :- Espíritos endurecidos :- Lapommeray
2. Gustave Le Bon; As Opiniões e as Crenças.
3. Nietzsche, F. - Obras Incompletas. Coleção Os Pensadores;
4. Krishnamurti J. Uma Nova Maneira de Viver
5. http://pt.wikipedia.org/wiki
6. Bíblia Sagrada : Hebreus 11:1
7. Compêndio do Catecismo da Igreja Católica
8. Catecismo de Westminster
9. CARMO, António - Antropologia das Religiões
10. Krishnamurti J. “O verdadeiro objetivo da vida”
11. Kardec ,Allan, O Evangelho Segundo o Espiritismo
12. Kardec ,Allan, O Evangelho Segundo o Espiritismo( 12 )capítulo XIX do Evangelho Segundo o Espiritismo)
 
Laurelucia Orive Lunardi
Julho / 2008

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