O Céu e o Inferno
por
ALLAN KARDEC



Nesta obra Allan Kardec reafirma o caráter científico do Espiritismo e avalia como ciência de observação, a nova doutrina, enfrentando o problema das penas e recompensas futuras à luz da História, estabelecendo comparações entre as idealizações do céu e do inferno nas religiões anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas dessas idealizações na formulação dos dogmas cristãos.

SEGUNDA PARTE

EXEMPLOS

CAPITULO I O PASSAMENTO

Item 3 - A insensibilidade da matéria inerte é um fato, e só a alma experimenta sensações de dor e de prazer. Durante a vida, toda a desagregação material repercute na alma, que por este motivo recebe uma impressão mais ou menos dolorosa. É a alma e não o corpo quem sofre, pois este não é mais que instrumento da dor: - aquela é o paciente. Após a morte, separada a alma, o corpo pode ser impunemente mutilado que nada sentirá; aquela, por insulada, nada experimenta da destruição orgânica. A alma tem sensações próprias cuja fonte não reside na matéria tangível. (1)

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Camões(2)

Perguntarão pela tua alma
A alma que é ternura,
Bondade,
Tristeza,
Amor.
Mas tu mostrarás a curva do teu vôo
Livre, por entre os mundos...

Carlos Drummond De Andrade

Em todas as áreas do conhecimento e em todas as civilizações o homem tenta compreender sua essência. Cantada em prosa ou versos, como os acima citados; descrita na Antiguidade pelos filósofos gregos, como uma espécie de ar, fino e rarefeito, que sobreviveria ao ar mais grosso, essência do universo (Anaxímenes) ou como fogo fino e rarefeito (Heráclito) (3), a natureza imaterial humana assume posição destacada. Assim no Egito Antigo, a constituição humana era compreendida por apresentar várias almas, além do corpo material (Kha; Chat), pela aura ou invólucro etéreo (Ba; Anch), pelo veículo das paixões e emoções ou corpo astral (Khaba; Ka), pela alma animal (Seb; Ab-Hati), pela alma intelectual ou inteligência (Akhu; Bai), pela Alma Espiritual (Putah; Cheybi) e pelo Espírito ou Alma Divina (Atmu; Shu).
Na Índia a entidade máxima seria o Atma (Espírito), fonte primordial de onde emanariam todas as demais manifestações.O corpo físico (Sthula Sharira) seria envolto por um veículo composto pelo "éter", denominado Linga Sharira. Estas entidades, corpo físico e corpo etéreo, são energizadas pela força vital ou Prana, uma corrente do oceano de vitalidade (Jiva) ou fluido cósmico universal. Como princípios intermediários, temos o corpo das paixões, das emoções e dos sentimentos (Kama-Rupa), a mente ou alma humana (Manas), que se divide em Manas Inferior (Intelecto) e Manas Superior (Consciência). Num nível acima teríamos a alma espiritual ou Buddhi, que é a manifestação da Sabedoria Celestial, intuindo o homem ao auto-aperfeiçoamento moral e espiritual e acima dela o Atma. (4)

Hoje para o Espiritualistas de diferentes correntes do pensamento a Alma é uma substância imaterial, distinta do corpo e capaz de existir por si só. Para os Materialistas não existe alma, todas as ansiedades, as dores, o sentir e o pensar, fazem parte da função do organismo, sendo na realidade, o conjunto das funções do cérebro e da medula espinal. (5)
E para o Espiritismo O que é a alma?
Allan Kardec ao questionar os Espíritos nesse sentido recebe as seguintes respostas: (6)

Que é a alma?
"Um Espírito encarnado."

a) - Que era a alma antes de se unir ao corpo?

"Espírito.".

b) - As almas e os Espíritos são, portanto, idênticos, a mesma coisa?

"Sim, as almas não são senão os Espíritos. Antes de se unir ao corpo, a alma é um dos seres inteligentes que povoam o mundo invisível, os quais temporariamente revestem um invólucro carnal para se purificarem e esclarecerem.".


              O emprego das duas palavras - alma e Espírito - como sinônimas, é comum na literatura. Por isso, anota Allan Kardec: "Seria mais exato reservar a palavra alma para designar o Princípio Inteligente e o termo Espírito para o ser semimaterial formado desse princípio e do corpo fluídico; mas, como não se pode conceber o princípio - inteligente isolado da matéria, nem o perispírito sem ser animado pelo princípio inteligente, as palavras alma e Espírito são, no uso, indiferentemente empregadas uma pela outra (...); filosoficamente, porém, é essencial fazer-se a diferença." (7).
              Para um melhor entendimento da relação corpo e alma e a morte os Espíritos superiores nos explicam que quando encarnado o homem é formado por três coisas: 1º, o corpo ou ser material análogo aos animais e animado pelo mesmo princípio vital; 2º, a alma ou ser imaterial, Espírito encarnado no corpo; 3º, o laço que prende a alma ao corpo, princípio intermediário entre a matéria e o Espírito.Tem assim o homem duas naturezas: pelo corpo, participa da natureza dos animais, cujos instintos lhe são comuns; pela alma, participa da natureza dos Espíritos. O laço ou perispírito, que prende ao corpo o Espírito, é uma espécie de envoltório semimaterial. A morte é a destruição do invólucro mais grosseiro, o corpo físico. ( 8) Complementando esta visão Léon DENIS observa: "Chamamos Espírito à alma revestida do seu corpo fluídico. A alma é o centro de vida do perispírito, como este é o centro de vida do organismo físico. Ela que sente, pensa e quer; o corpo físico constitui, com o corpo fluídico, o duplo organismo por cujo intermédio ela atua no mundo da matéria". (9)

Muita das vezes confunde-se o corpo físico com o Eu, assim como confunde-se o individuo pela roupa que veste.O que seria o nosso corpo, se não tivesse alma?"Simples massa de carne sem inteligência, tudo o que quiserdes, exceto um homem." Respondem os Espíritos à Allan Kardec (10). Assim como tiramos o traje social depois da festa e continuamos os mesmos, no modo de sentir e pensar, ao nos desprendermos do corpo físico a mesma identidade permanece.Por isso essa dúvida comum acode os pensamentos: no momento da morte sofremos?

(...) A insensibilidade da matéria inerte é um fato, e só a alma experimenta sensações de dor e de prazer. Durante a vida, toda a desagregação material repercute na alma, que por este motivo recebe uma impressão mais ou menos dolorosa. É a alma e não o corpo quem sofre, pois este não é mais que instrumento da dor, nos diz Allan Kardec (1)

              É a alma que fornece ao homem o seu principio de vida e movimento. A alma humana é uma vontade livre e soberana, é a unidade consciente que domina todos os atributos, todas as funções, todos os elementos materiais do ser, como a alma divina domina, coordena e liga todas as partes do Universo para harmonizá-las. A dissolução das formas materiais prova simplesmente que a alma é separada do organismo por meio do qual se comunicava com o meio terrestre. Não deixa, por esse fato, de prosseguir a sua evolução em novas condições, sob formas mais perfeitas e sem nada perder da sua identidade (11).Esta separação não passa de uma etapa da vida.(...) "O nascer e o morrer são os pontos de inflexão da gigantesca senóide biológica que se desenvolve em alternâncias, às quais ora chamamos de vida, ora chamamos morte. Viver e morrer são os dois aspectos de um mesmo fenômeno, ao qual poderíamos chamar, simplificadamente, de vida apenas, pois a morte já está nela implícita." (12)". No passamento a rápida solução do problema liberatório depende em grande parte, da vida mental e dos ideais a que se liga o homem na experiência terrestre.
(...)Se o homem não se preparou, convenientemente, para a renúncia aos hábitos antigos e comodidades dos sentidos corporais, demorar-se-á preso ao mesmo campo de luta em que a veste de carne se decompõe e desaparece. E se esse homem complicou o destino, assumindo graves compromissos à frente dos semelhantes, através de ações criminosas, debater-se-á, chorará e reclamará embalde, porque as leis que mantêm coesos os astros do Céu e as células da Terra lhe determinam o encarceramento nas próprias criações.Inferiores." (13). Entretanto (...)as pessoas que na vida física pautaram o seu viver em harmonia com a ética do bem praticado e do cumprimento dos deveres consagrados, trabalhando construtivamente, amando solidariamente sem paixões egoísticas, puderam de imediato entrar em contato com os planos espirituais mais elevados, sentindo-se felizes na convivência com Espíritos afins em colônias espirituais cujo padrão vibratório e ambiental se caracteriza por uma atmosfera luminosa, a refletir beleza, harmonia e plenitude." (14).

    Bibliografia:
  1. Kardec, Allan, " O Céu e Inferno" Segunda Parte, capitulo I item 1.
  2. Hernâni Cidade, Luís de Camões - Lírica, Círculo de Leitores, Lisboa, 1973.
  3. Frost JR., S. E. Ensinamentos Básicos dos Grandes Filósofos. São Paulo: ed. Cultrix.
  4. Stoddart, W. O Hinduismo, Ed EBRASA.
  5. Léon Denis, O Problema do ser do destino e da dor, FEB, 1979,p; 58.
  6. Kardec, Allan, " O Livro dos Espíritos ", questão 134 a e b.
  7. Kardec, Allan, O Que É o Espiritismo". 379 ed., Rio de Janeiro: FEB, 1995, p. 155: Capo lI).
  8. Kardec, Allan, "O Livro dos Espíritos ", questão135.(9 )Léon Denis Cristianismo e Espiritismo". ed., Rio de Janeiro: FEB, p. 219.
  9. Kardec, Allan, "O Livro dos Espíritos ", questão141.
  10. Léon Denis, O Problema do ser do destino e da dor, FEB, 1979,p; 56.
  11. Andrade, Hernani Guimarães. "Morte, Renascimento, Evolução". 9_ ed., São Paulo: PENSAMENTO, 1993, p. 155: Capo XI).
  12. Francisco Candido Xavier, Irmão Jacob "Voltei", ed. FEB, 1994, pp. 63 e 64.
  13. Teixeira, Cícero Marcos. "Anatomia do Desencarne". Porto Alegre: KUARUP, 1997, p. 27: Cap. Z).

Laurelucia Orive Lunardi
Julho / 2005

 
 

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