O CÉU E O INFERNO

OU

A JUSTIÇA DIVINA SEGUNDO O ESPIRITISMO

Por ALLAN KARDEC (Autor de "O Livro dos Espíritos")

Atividade: a "Música" da Alma

"8 . – A encarnação é necessária ao duplo progresso moral e individual do Espírito: ao progresso intelectual pela atividade obrigatória do trabalho; ao progresso moral pela necessidade recíproca dos homens entre si. A vida social é a pedra de toque das boas ou más qualidades".

(O Céu e O Inferno, Cap. III - O CÉU. Grifos nossos)

   Não pareceria razoável ao leitor se afirmássemos que todos nós, de algum modo, buscamos ser felizes e evitar a dor e o sofrimento? Em qualquer idade e em todos os povos, isso parece ser uma disposição comum a todos os seres humanos. Mas, apesar desse nosso profundo desejo de felicidade, por que, então, deparamos constantemente com o sofrimento e a dor no seu lugar? A razão está em termos certos modos fundamentalmente falhos tanto de perceber a nós mesmos e ao mundo, quanto de nos relacionarmos com nós mesmos e com ele. Visões fundamentalmente falhas da realidade levam a certos modos equivocados de nos relacionarmos com o mundo e com nós mesmos, o que por sua vez leva a confusão, infelicidade e sofrimento.

           Então, Protágoras, filósofo grego, tinha razão ao afirmar: o homem é a medida de todas as coisas. Como assim? Somos hoje aquilo que fizemos de nós ao longo da nossa história: o ser que dimensiona, mas também o próprio instrumento de medida! O olhar, o instrumento e o que é olhado. Ora, quer dizer que nós avaliamos as experiências pelo tamanho e perspectiva da visão que já conseguimos no momento. Não a que os outros gostariam que tivéssemos, mas, a nossa. Daí ser necessário um exame mais atento nas urgências que nos motivam as ações e os sentimentos nos nossos relacionamentos. Esse é o material a ser trabalhado, pois o resto é conseqüência.

           Em artigos anteriores, chamamos isso de força motivadora de nossas ações. Procuramos apresentar, então, motivação como "aquilo que inspira nossas ações no momento", ou o nosso estado de espírito. Mais ainda, destacamos que a motivação envolvia três componentes: Atividade, Qualidades e Felicidade.

           Retomemos, agora, essas idéias. Inicialmente vamos esclarecer o que elas significam no contexto desse trabalho e qual a sua importância dentro do objetivo de progresso do Espírito.

Atividade

           Representa aquilo que de fato fazemos. Embora pareça óbvio, cada ação por nós desenvolvida na vida é o resultado, a manifestação de:

  1. como pensamos e
  2. o que sentimos no momento.

           Bem, podemos entender que sendo o pensamento do Espírito formado de fluidos (energia), tais energias são como que "materializadas" através daquilo que fazemos. Tais "materializações" podem ser tão sólidas como uma escultura, uma poesia, um discurso, uma oração. Mas também podem compor um conjunto de atitudes, repetidas por muito tempo, formando um "destino", isto é, um tipo de vida. A raiz de tudo: as idéias que conseguimos ter e o modo como as combinamos – aqui colocado com o nosso modo de pensar.

           Assim, se sentimos fome num dado momento, pode nos ocorrer ir à geladeira, ir ao supermercado, preparar um lanche, etc. Cada uma dessas possibilidades envolve uma ação mental, consciente ou inconsciente, mas sempre baseada na experiência anterior que realizamos (o que já aprendemos, as idéias que já assimilamos de tal modo a se tornarem patrimônio nosso). Quando temos o pensamento de ir ao supermercado, por exemplo, o que na verdade vivenciamos é o próprio pensamento, o pensamento interior e seu significado – os símbolos, as imagens, a idéia de ir ao mercado. Notemos que esse pensamento só faz sentido em termos da nossa bagagem de experiências. Se vivêssemos numa sociedade tribal primitiva, milhares de anos atrás, não teríamos o pensamento de "ir ao supermercado". Seria, talvez, "hora de matar o cervo".

           Assim, os nossos próprios pensamentos surgem da nossa bagagem de experiências, muito influenciada pelo ambiente cultural em que vivemos. Tal ambiente acaba dando textura, significado e contexto aos nossos pensamentos individuais, e , na verdade, nós nem seríamos capazes de "falar conosco mesmos", se não vivêssemos em uma comunidade de indivíduos que também falassem conosco.

            A nossa comunidade cultural serve, então, como um pano de fundo e um contexto intrínsecos a quaisquer pensamentos individuais que possamos ter. Mas do que se constitui tal pano de fundo? São práticas, linguagem, significados. Há, então, uma espécie de formatação em cada um de nós, com que "vestimos" as nossas idéias. Podemos chamar tal formatação de pré-juízos, isto é pré julgamentos, que assumimos como verdadeiros durante o processo de pensar. São as verdades que a pessoa tem antes de viver um acontecimento. Outros exemplos.

            Há pré-juízos claros como ir de terno e gravata a uma entrevista para emprego, ou esperar que alguém venha vestido assim quando somos o entrevistador. Mas há também pré-juízos bem nebulosos, que não são percebidos como tal pela pessoa. Por exemplo, "Quem ama, perdoa." ou "Homem é tudo igual, Não presta.". O problema aqui é que alguns pré-juízos "caducam", isto é, perdem a sua finalidade à medida que avançamos na trilha da evolução. Numa única existência mesmo, quantas substituições não vão ocorrendo conosco! Observemos como muda aquele tratamento que o pai dispensava ao filho quando se torna avô. Pré-juízos como "Criança não se mete em conversa de adulto" ou "Quando o pai/mãe fala, o filho fica quieto, escuta e obedece." Perdem força, substituídos por outros mais consentâneos à realidade do momento que está passando.

            Embora possa parecer simples mudar os pré-juízos que carregamos, na prática, verificamos justamente o contrário. É fato que encarnamos e nos esquecemos do passado quanto aos detalhes. Mas não esquecemos em absoluto daquilo que incorporamos à nossa bagagem espiritual como pré-disposições no pensamento. Ou seja, os pré-juízos, embora dinâmicos, mutáveis, nos acompanham de uma existência para outra. Se vivemos no passado uma vida de poucas realizações pessoais, por exemplo, na ócio, desfrutando de facilidades, pode ficar muito difícil desenvolver uma atitude de iniciativa pessoal numa outra existência. E será somente através da educação, da formação de novos hábitos que poderemos lograr alterar tal disposição.

            Assim, o objetivo da educação do Espírito é o de transformar e aperfeiçoar essa disposição motivadora das nossas ações, à medida que vamos caminhando na senda do progresso. E cada encarnação é para o Espírito uma oportunidade de alterar os pré-juízos que já caducaram face à nossa situação espiritual atual.

           Não podemos esquecer, no entanto, que eles são também energia, fluidos, que circulam em nós ou que se encontram mantidos na nossa memória espiritual até que algo venha despertá-los (estímulos equivalentes). Ou seja, transformá-los requer dois passos:

           E para isso necessita o Espírito "manifestar-se", isto é, expor-se, posicionar-se frente às situações. O que consegue somente quando faz, constrói, elabora a própria existência. Nesse processo, então, a atividade não é simplesmente "fazer", mas sim, planejar (em que traçamos uma meta, onde definimos para nós mesmos o que nos parece o mais adequado), realizar o que planejamos, avaliar (refletir) sobre o que conseguimos e as conseqüências da nossa ação para nós mesmos ao longo do tempo (somos imortais), e, finalmente, dar origem a uma atitude, como resultado dessa reflexão, que deverá alimentar o caminhar de novas realizações, alterando ou não a meta que nos propomos.

           Com tal atitude, não fica difícil perceber que nos tornamos pessoas melhores, passamos a ser mais capazes de lidar com as adversidades e aumentamos a possibilidade de que nossas ações propiciem bem estar aos outros, pois, de fato, nossa atividade é criadora, tem ritmo, melodia, harmonia, é música, a música da alma. Como afirma Léon Denis:

           "A felicidade não está nas coisas externas nem nos acasos do exterior, mas somente em nós mesmos, na vida interna que soubemos criar."

Será, então, que podemos ainda entender educar como dar algo, transferir alguma coisa?

Vanderlei Luiz Daneluz Miranda
Julho / 2002

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