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O CÉU E O INFERNO OU A JUSTIÇA DIVINA SEGUNDO O ESPIRITISMO Exame comparado das doutrinas sobre a passagem da vida corporal à vida espiritual, sobre as penalidades e recompensas futuras, sobre os anjos e demônios, sobre as penas, etc., seguido de numerosos exemplos acerca da situação real da alma durante e depois da morte
Artigo de julho de 2001:
O “ FEITIÇO ” DAS
PALAVRAS “Somos o que pensamos. Tudo o que somos vem dos nossos pensamentos. Com nossos pensamentos fazemos o mundo”1 (Buda) E a palavra, o que tem com isso? Ora, não é ela justamente uma das expressões do pensamento, isto é, da maneira de pensar? Além disso, quando falamos, falamos com alguém. Isso nos permite considerar melhor o uso das palavras. O implícito torna-se explícito. Por isso, acabamos esclarecendo para nós mesmos o que antes só conhecíamos de modo difuso. É estreita a interligação entre pensamento e linguagem. Onde o pensamento é uma fala internalizada, e a linguagem, a expressão do pensamento. Assim, convidamos você, amigo leitor, para que realize conosco um teste de auto-percepção. Como? Simples. Repare, em qualquer conversa comum do seu dia, as palavras que usa - sem se preocupar para isso em escolhê-las melhor. Isso mesmo. Apenas se dê conta do que vai saindo de sua boca. De fato isso exige um certo malabarismo, um como que distanciamento daquele momento em que nos identificamos tão intimamente com o que dizemos. Mas o que acontece? O que observamos? Encontramos em nossas palavras mais do que um veículo de manifestação do nosso pensamento, e, por extensão, dos nossos desejos, aspirações. Platão acreditava que a linguagem fosse uma espécie de pharmakon (palavra grega que significa, ao mesmo tempo, remédio, veneno e cosmético). Para Platão, então, as palavras seriam remédio na medida que, através delas, descobrissemos a nossa própria ignorância e aprendêssemos algo. Seriam veneno se nos deixássemos seduzir por elas, sem indagar se são verdadeiras ou falsas. Seriam cosmético se mascarássemos a verdade sob as palavras. Aqui vale a reflexão: Como estamos usando as palavras? Para quê? Elas representam os sentimentos-conceitos2 do indivíduo relativos a importância pessoal, à identidade, ao seu papel no mundo. Necessitamos, pois, de estudar o vocabulário que utilizamos. É por meio da palavra (e do pensamento) que internalizamos, quando crianças, as primeiras proibições e exigências dos nossos pais, e criamos com isso um modelo do mundo e de nós mesmos dentro do mundo. Assim, nunca encontramos palavras “soltas”, desatreladas de contextos, mas sempre “amarradas” a pessoas, situações, coisas, vivências enfim, onde nas palavras de Wittgenstein (filósofo da Analítica da Linguagem): “Os limites da minha linguagem denotam os limites do meu mundo.” (Ludwig Wittgenstein) Há, então palavras que encantam, como as juras de amor, ou os primeiros ensaios do nosso filho na tentativa de nos chamar pelo nome. Palavras que fazem agir, que despertam, que reascendem a esperança, que acolhem, que distanciam, que recolhem na memória momentos sublimes ou que insistem em martirizar momentos de pesar. Mas há também palavras que aprisionam, fazem emudecer, que podem deter-nos os movimentos de busca e construção da felicidade. Essas são as mais terríveis! Mas, como não têm realidade por si mesmas, elas são os próprios pensamentos daqueles que as utilizam... Por isso há uma mudança no vocábulário daquele que muda algo em si mesmo. A criança, ao crescer, não usa mais certos termos. O adolescente “esquece” algumas gírias muito comuns em dada época da vida. O senhor de idade avançada, sulcado pelas marcas da própria experiência, também esquece ou passa a centralizar a sua atenção em algumas expressões mais significativas para ele à medida que envelhece. É por isso que pensamos ser necessário fazer, com certa freqüência, um inventário da bagagem dos conceitos que carregamos em nossa bagagem (memória). Pois “A nossa linguagem conceitual tende a fixar as nossas percepções e, derivativamente, nossos pensamentos e comportamento... A resposta não é dada à situação física mas à situação conceitualizada. (Robert K. Merton) ”3 O que isso quer dizer? Que quando atribuímos algum sentido à situação, o nosso comportamento subseqüente e algumas das conseqüências deste comportamento são determinados por esse sentido anteriormente atribuído. Ou seja, respondemos não apenas aos aspectos físicos, aparentes, de uma situação, mas também ao sentido que dela fazemos. As palavras carregam consigo as proibições, as exigências e expectativas. Em síntese, nos identificamos com o vocabulário de que nos utilizamos. As palavras suscitam sempre reações psicológicas em quem fala e/ou ouve ou capta. Quantas brigas, ódios, mal-entendidos, não surgem pelo conceito interno e pessoal que carregamos nas palavras? Justamente por não nos darmos conta de que são pontes entre nós, cujo objetivo é tornar acessíveis nossos valores, ideais, conquistas – mas, também, que há pontes mal construídas, fracas, resistentes, desengonçadas e firmes. Dentro desta perspectiva, então, não parece ser tão fácil a compreensão das idéias espíritas, veiculadas por palavras que precisam, necessariamente estar ao alcance de quem busca estudá-lo. Que bastaria ir ao Centro Espírita, ouvir palestras, mesmo àquelas que nos encantam, que extraem lágrimas de nossos olhos... Mas isso pode não bastar. É preciso, muitas vezes, realizar uma espécie de cirurgia, desconstrução de estruturas mentais já estabelecidas em nós (formas de pensar extratificadas) – para que não ocorra absurdos como vestir velhas idéias com roupas novas. Vamos a alguns exemplo para melhor esclarecer o leitor. Procure o leitor observar se concorda com algumas afirmações abaixo:
Não me dedico ao bem porque sofro muito... O que pensaria o leitor se disséssemos que
por trás de cada afirmativa dessas há um pano de fundo, uma base, que é
sustentada ao se manter nesses pensamentos: na verdade estamos
prisioneiros das velhas formas de pensar. Só para ilustrar melhor,
tentemos desconstruir a primeira afirmação, à luz do pensamento espírita.
“Não me dedico ao bem porque sofro muito...”. Onde o equívoco?
Inicialmente precisamos lembrar que a provação é inerente à condição do nosso
planeta dado os Espíritos que aqui habitam (necessitados de aperfeiçoar o
sentimento moral), portanto, inevitável. Isto posto, é urgente agir na
construção do bem em nós mesmos, para que a prova, a dificuldade, não nos
encontrem desprevenidos, de braços cruzados. Ou nas palavras de Maia de
Lacerda: Usamos aqui algumas idéias espíritas tais
como a Lei de Ação e Reação, a finalidade da encarnação na Terra, a pluralidade
dos mundos habitados e o gênero das diversas humanidades que habitam tais
mundos, etc. O que fizemos então? Usamos da razão para, com tais idéias,
promover uma limpeza, uma higienização do nosso pensamento, tornando-o mais
vigoroso, otimista, forte – em que eu sou o responsável por mim mesmo, sem
transferências, ou fugas psicológicas. Uma verdadeira batalha deve o espírita
travar aqui! Por isso, dizem os Bons Espíritos, que os “inimigos” de dentro são
os verdadeiros inimigos. São as nossas velhas tendências que nos fazem perdurar
na ação igualmente velha e contraproducente, pois continua a nos trazer doses de
infelicidade. Fica como desafio ao leitor procurar desconstruir as demais
afirmações, caso se interesse em desconstruí-las, é claro... Agora poderíamos nos perguntar, o que tem
tudo isso a ver com o livro O Céu e o Inferno? Ora, segundo o
Espiritismo, reencarnamos para melhorarmo-nos, e, por conseqüência, melhorarmos
a qualidade da nossa vivência (experiência) aqui na Terra. Assim, é de
fundamental importância a desidentificação, a fim de que realizemos a higiene
psicológica, evitando impregnações externas (idéias equivocadas dos outros) e
internas (tendências que reassumam o campo da consciência), contribuindo para
que nos encontremos com a nossa realidade – o que de fato somos, e não o que
gostariam que fôssemos, estimulado pelo desejos alheios (pais, amigos,
sociedade, mídia, etc). Dessa forma superamos a contingência daquilo em que
estamos (problemas, desajustes, situções conflitantes, etc). Não se constrói
realidade sobre um chão de ilusão. Cedo ou tarde “a casa cai” e o desespero se
faz presente.É como diz Alberto Caeiro: Desembrulhar-se, retirar a cobertura do
verniz social que funciona mais como uma capa de astúcia na relação social mal
dirigida, isto é, dirigida às finalidades exclusivamente materialistas, em que o
outro é mero objeto de uso, portanto, descartável. Vários nomes para uma mesma ação: a
de renovar o corpo de idéias pelas quais agimos na vida. E é com esse
propósito, então que utilizando as comunicações dos Espíritos em diversas
situações em que se encontravam no Além-túmulo, Kardec “construiu” um manancial
para iluminar a razão, uma “prótese” para o pensamento, ensinando-nos a
direcionar, usar, combinar os diversos ensinamentos dos Espíritos Superiores,
encarregados de auxiliar o homem na sua caminhada na Terra, no sentido de
higienizar o nosso mundo mental, restabelecendo muitos sentimentos-conceitos
que trazemos associado à palavras como E por que isso é importante? Assim,
arriscamos levantar algumas perguntas, correndo o risco de nos anteciparmos ao
leitor, mas certos da utilidade delas. Invariavelmente há sentimentos intensos
associados àqueles termos. Talvez o leitor já tenha conhecido alguém
“paralisado” pela sensação de culpa frente a algo que lhe tenha acontecido. Ou,
então, pessoas, que por não aceitarem mais idéias como céu, inferno, e nem tendo
uma idéia de continuidade após a morte, julgam mais “inteligente” aproveitar
a vida, o que vale dizer, sem nenhum tipo de “freio” em relação ao que
possam fazer ao outro e a si mesmas – sem a noção de responsabilidade por
si mesmas. Vale mencionar também a situação daquelas pessoas que, dizendo-se
espíritas, justificam e reforçam o mecanismo de culpa-castigo com palavras
“novas” tais como os “carmas” na vida, numa visão simplista do “tenho de
suportar, não tem jeito”, isentando o indivíduo daquilo que lhe é mais
fundamental: ele como o agente do seu processo educativo na Vida,
responsável e capaz de mudar-se, mudando também os condicionamentos cármicos,
que existem sim, mas que não são a razão para se viver. Mas tendo o livro sido editado em 1865,
poderia ainda ser de alguma utilidade além do uso histórico? Tratando de
assuntos de caráter imortalista, é evidente que sim. Pois o livro não é apenas
um a confrontação de idéias velhas e novas (como culpa substituída por
responsabilidade), mas, acima de tudo, uma apresentação de situações concretas,
na descrição das vidas de muitas pessoas, correlacionando o como viveram
enquanto na Terra com o gênero de morte que tiveram e o como estavam
após a morte. Onde alguma dessas pessoas poderia ser você mesmo, leitor
amigo! Daí, permite-nos entender, o livro, como se opera o mecanismo da Justiça
Divina (daí o seu outro título). Mas tudo isso fundamentado em um conjunto de
idéias coerentes, precisas, necessário ao atual estágio da razão humana. Assim,
após uma leitura refletida, atenta, é inevitável transpor tudo isso na aplicação
em nossa própria vida. E essa foi a principal intenção do autor: Como que
“materializar” as idéias espíritas numa aplicação vívida e de interesse para
nós, espíritos ainda encarnados, onde pudéssemos discriminar os problemas que
merecem e devem ser investigados, de tal forma a aproveitarmos melhor o
presente momento que vivemos. Isso evidencia o cuidado de Kardec em torno do
próprio objetivo da Doutrina Espírita – o melhoramento moral do homem.
Mas para isso é preciso “quebrar o
feitiço” das palavras que sustentam nossas velhas idéias. para que não nos
percamos entre as grades dos dogmatismos e intolerâncias primeiro para
conosco mesmos, depois para com os outros e até a própria vida. Como também é
preciso cuidar para não cairmos “enfeitiçados” por outras tantas palavras
que mais distraem do que edificam, que, no fim, só fazem “esconder” aquilo que
realmente tem relevância: o fato de TODOS experimentarmos a necessidade de
viver, de gozar, de amar e ser feliz e que há fatores impeditivos dessas
aspirações – reconhecê-los primeiro, para depois exercitarmo-nos em removê-los,
como quem destampa um véu a encobrir-nos os “olhos da alma”, sensibilizando-nos
mais e mais com a Vida, Herança Maior de Nosso Pai... Nesse processo é preciso esquecer
(certas coisas) para se lembrar (dar espaço a outras mais relevantes), quando,
enfim, acabaremos não sendo mais Por Vanderlei Luiz Daneluz Miranda 2WILBER, Ken. In “O Projeto Atman – Uma Visão Transpessoal do Desenvolvimento Humano”, As Esferas Mentais do Ego. Cultrix. 9ª ed. São Paulo. 1999. Sentimento-conceito é utilizado aqui para designar as “forças poderosas e emocionais que motivam ou perturbam” o indivíduo, “sustentadas ou efetivamente engendradas por complicados processos simbólicos”. 3ALVES, Rubem. In “Conversas com quem gosta de ensinar”, Sobre Palavras e Redes. Ars Poetica / Speculum, 1995, p. 63-82. 4 VIEIRA, Waldo. In “Seareiros de Volta”, Falsas Idéias. FEB. 4ª ed. São Paulo. 1987. Pág. 79. |