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O CÉU E O INFERNO OU A JUSTIÇA DIVINA SEGUNDO O ESPIRITISMO Por ALLAN KARDEC (Autor
de “O Livro dos Espíritos”) Prelúdio da volta… “10 . – (…) O estado corporal é transitório
e passageiro. É no estado espiritual sobretudo que o Espírito colhe os
frutos do progresso realizado pelo trabalho da encarnação; é também nesse
estado que se prepara para novas lutas e toma as resoluções que há de pôr
em prática na sua volta à Humanidade“. (O Céu e O Inferno, Cap. III
- O CÉU. Grifos nossos) De repente vê-se a cena: Um corpo de
olhos cerrados que nada vêem, o peito sem aquele movimento simples que por
tantas vezes trocava o ar, como a refrescar
os sonhos cultivados pela imaginação ao sabor das brisas que sopravam nas
tardes após as chuvas da primavera.
Suas pernas, pálidas e rígidas incapazes de contar as distâncias percorridas
quando o coração, ainda jovem, andava
inquieto em busca de paz. Aqui
e ali, alguns comentários… sempre atestando uma certa miopia endêmica dos que ficaram. Por mais tentassem, as suas não poderiam ser
nunca palavras de consolo, incapazes de identificar o significado daquele
momento. As
mãos, unidas numa atitude de submissão nem saberiam dizer quantas vezes haviam
assumido aquela postura a representar, às vezes, reverência, outras tantas,
inconformação … Tantas foram as lutas, tantas foram
as promessas que chamais se realizaram e que jamais se tornariam real – agora
não eram mas importantes. E
assim, num misto de prece e exaltação,
vai o cortejo repetindo a canção… ritmo monótono, lamentoso,
de dor e paixão. Onde as testemunhas dos atos heróicos? Daqueles que
ninguém viu, por estarem resguardados da curiosidade alheia, em algum canto
do coração. O rosto, nem belo nem feio, vincado por sulcos diversos, recordaria
alguma terra distante, após anos de experiências contínuas no cultivo incessante da esperança de dias melhores.
Quantas vezes não teriam aqueles olhos visto o sol nascer… dia após dia, sem
que se repetissem os acontecimentos. E,
de algum lugar uma voz tímida parece soltar no ar uma atmosfera de agradecimento,
deixando cair lágrimas de suave gratidão… Enquanto isso, lá fora as crianças
brincando, parecem não se importar com o que acontece…
Talvez elas saibam na sua ignorância infantil a verdade. Por isso continuam
o que tem que fazer: crescer. No
canto, um amigo mais chegado, no silêncio da sua dor-perda (porque há vários
tipos de dores, dor-paixão, dor-languidez, dor-desespero,etc), reflexiona
em torno dos acontecimentos – mas não consegue evitar que pensamentos estranhos,
convidados incômodos, penetrem-lhe a inconformação: “Pois,
o que é a vida? Parece que já não sabemos. Saberemos ainda o que é viver?
Talvez seja por isso, por nos havermos esquecido do que é a vida. Que perdemos
a sabedoria do saber morrer. Onde está a vida que perdemos ao viver?” “Reverência pela vida”, foi com essas palavras que Albert
Schweitzer sintetizou a essência da sua filosofia,
descoberta nas noites da África, junto aos segredos da selva, onde a vida
pulsa como um coração vivo. Mas, o que é a vida? Diz um poeta da vida que vida “são os olhos que saúdam as madrugadas, que acariciam as noites, acolhem sorrisos; ouvidos que recebem o barulho dos ventos, ouvem gemidos de dor, escutam palavras de amor; bocas que experimentam o deleite dos frutos e dos beijos e recitam poemas; (…) Pernas que andam pelos bosques e levam mensagens a lugares distantes; braços que plantam jardins, e que se estendem para os abraços e para as lutas. A vida é um poema enorme, uma explosão de gestos e de sentidos espalhados pelo espaço. Mas, como tudo o que é humano, a vida também é cansaço que anseia por sono. (…)Saber viver e também saber morrer. Cada poema se inclina para a última palavra; cada canção se prolonga na direção do seu silêncio. Última palavra que continuam a reverberar todas aquelas que a antecederam: silêncio onde ressoam os sons que o prepararam.” Pode-se, então, medir a qualidade do viver de
uma pessoa, em relação à sua capacidade de produzir vida. Perguntaríamos ao
leitor, a título de provocação: Como vivencia a sua vida? O que lhe parece
urgente nos múltiplos pensamentos que lhe ocorrem ao longo dos dias? Qual
a qualidade do seu viver? Há pessoas que diante de dificuldades assumem posturas
estereotipadas, ficando presas pelas concepções empobrecidas em que se enredaram.
São as que se deixam consumir pelos preconceitos de toda espécie. Agindo como
se estimuladas por um “programa de computador”, diante de certos estímulos
adotam tal e tal atitude. Nunca se questionam da validade da sua estratégia.
Mas, o que serviu ontem pode não mais servir hoje. Podemos percebê-las na
vida como aquelas que periodicamente são visitadas por problemas de ordem
equivalente, como se estivessem sendo vítimas de uma experiência que constantemente
se repete em suas vidas. Sofrem, e muito, de um tipo de mal que longe está
da concepção do sofrimento do Evangelho quando fala dos “aflitos”. Tais indivíduos
não conseguem perceber, ainda, que a vida que levam tem uma efetiva participação
das suas próprias escolhas. Ainda não
convivem bem com a idéia de que são seres responsáveis – i.e., capazes
de responder- à vida e suas solicitações. Vivem, então presos à uma concepção do tempo que foi – quando eram felizes
– ou do tempo que virá – quando o sofrimento que experimentam tiver
acabado. Isso quando, por um processo particular alternativo, não decidem
congelar-se, cristalizar-se, insensibilizar-se. Tudo isso como forma
de lidar coma situação que vivenciam – atitude detectada pela postura inflexível
que assumem perante a vida. Em suma, perdem momentaneamente a capacidade de
usar o momento que passa. Mas o tempo é a expressão da bondade divina
e, ao seu ritmo, perceberão a importância das próprias opções que hoje fazem.
O tempo acabará por desvelar aos seus olhos a “face do amor”, e, como diz
o poeta português, Fernando Pessoa: “A
morte é a curva da estrada,/ Morrer é como não ser visto… / A terra é feita de céu. / A mentira não tem ninho.
/Ninguém jamais se perdeu. / Tudo é verdade e caminho.” Mas há aquelas outras que, descobriram o segredo: tudo
tem um fim. Assim, não vivem inquietas esperando pelo amanhã. Nem se agarram
ao ontem, como quem busca prender a fumaça que
fica das experiências “queimadas”
com os dedos das mãos. Não são saudosistas. São jovens sem a inquietude da
juventude. Eternamente jovens. E, paradoxalmente, são velhos. Velhos, sem
a acomodação da velhice. Apenas foram aprendendo a substituir o vigor do corpo
físico pelo vigor do coração. O encanto dos olhos pelo olhar encantado da
experiência. Os seus são olhos de “pôr-do-sol”, pois iluminam aqueles que
lhes observam o gesto. São mensageiros da esperança, porque compreenderam
os Espíritos Superiores quando disseram a Kardec: “Só as grandes dores, os
fatos importantes e capazes de influir no moral, Deus os prevê, porque são
úteis à tua depuração e à tua instrução.” Descobriram que podem confiar
no Pai… E, com isso, já não acreditam que “tudo o que sucede está escrito”.
Mas que na maioria das vezes podem ser a conseqüência de um ato praticado
pela livre vontade, de tal sorte que estão sempre atentos ao que estão escolhendo
viver. Mais ainda, descobriram que, pela sua vontade e por seus atos, podem
mesmo alterar a ordem dos fatos quando essa alteração tiver cabimento na seqüência
da vida que escolheram. Daí, cultivarem com mais cuidado e carinho um contato
consigo mesmos através de reflexões periódicas em torno da sua condição definitiva:
descobrem-se Espíritos. Sabem que para atravessar um rio não
basta se atire da margem.. é preciso saber nadar. Assim, estão atentas às
suas próprias faculdades, partindo com elas no caminho de qualquer realização.
Assim, não se enganam facilmente confundindo vocação (aquela voz
interna, o trabalho intransferível que vieram realizar) com o desejo de
satisfazer a certas paixões. São pessoas que descobriram que humildade significa
não querer aparentar ser nem maior e nem menor do que se é. Especializaram-se
na arte de ser o que se é. Aprenderam a respeitar a Lei de Causa
e Efeito,segundo a qual, cada um é terapeuta de si mesmo, sem exceções, não
confundindo mais auxiliar com resolver. Fazem-nos recordar uma
história… “Era
uma vez um turista que, estando em Israel, foi visitar um sábio rabino. Lá
chegando, espantou-se com aquela casa vazia; nenhuma mobília, nenhum enfeite,
nenhum quadro na parede, nem mesmo cadeiras e mesa, nem mesmo cama e armários.
Sem poder conter a sua perplexidade, indagou: “Onde
estão as suas coisas, meu Senhor?”. “E onde estão
as suas ?”, contraperguntou o velho rabino. “Ora,
estão na minha casa, no país de onde veio; eu estou aqui só de passagem”,
respondeu o turista. “Eu também!” , sentenciou o
mestre”. A consciência de que estamos aqui de passagem torna a
existência uma bela e valiosa aventura. Chegamos de mãos vazias, iremos de
mãos vazias. O que levamos? Claro!
O passaporte de nossas ações. Por isso, leitor amigo, dissemos que o segundo
grupo são o das pessoas que descobriram que tudo tem um fim… tudo aquilo que
decorre da nossa condição corporal transitória e passageira… Daí ser importante nascer todos
os dias , um pouquinho mais, em Espírito…
e para o Espírito, afinal, sempre é tempo de aprender a morrer, para renascer
e voltar a viver cada vez melhor, especializando-se
na arte de ser o que se é... Janeiro / 2003 Bibliografia:
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