Nesta obra Allan Kardec reafirma
o caráter científico do Espiritismo e avalia como ciência
de observação, a nova doutrina, enfrentando o problema
das penas e recompensas futuras à luz da História, estabelecendo
comparações entre as idealizações do céu
e do inferno nas religiões anteriores e nas religiões
cristãs, revelando as raízes históricas, antropológicas,
sociológicas e psicológicas dessas idealizações
na formulação dos dogmas cristãos
CapituloV : Suicidas
MÃE E FILHO
Em março de 1865, o Sr. M. C..., negociante em pequena cidade
dos arredores de Paris, tinha em sua casa,gravemente enfermo, o mais
velho dos seus filhos, que contava 21 anos de idade. Este moço,
prevendo o desenlace, chamou sua mãe e teve forças ainda
para abraçá-la. Esta,vertendo copiosas lágrimas,
disse-lhe: "Vai, meu filho, precede-me, que não tardarei
a seguir-te." Dito isto, retirou-se, escondendo o rosto entre as
mãos.As pessoas presentes a essa cena desoladora consideravam
simples explosão de dor as palavras da Sra. C..., dor que o tempo
acalmaria. Morto o doente, procuraram-na por toda a casa e foram encontrá-la,
enforcada num celeiro. O enterro da suicida foi juntamente feito com
o do filho."..( 1 )
"Freqüentemente a
mãe, mais do que amar o filho, ama-se no filho." (Nietzche)
Ao longo dos séculos,
vários filósofos manifestaram suas idéias a respeito
do amor, quer ressaltando seu valor positivo e exclusivamente humano,
quer lendo nele a expressão da transcendência, ou ainda
tratando-o como meta inalcançável. O primeiro pensador
a elaborar uma reflexão ampla e profunda sobre o assunto foi
Platão (428/427-347 a.C.). Na concepção do filósofo
ateniense, este sentimento impulsiona o ser humano a elevar-se ao mundo
ideal, onde residem a verdade, o bem e a beleza. Sentimento que predispõe
alguém a desejar o bem de outrem, ou de alguma coisa , sentimento
de dedicação absoluta de um ser a outro ser ou a uma coisa;
devoção extrema. E nesta categoria está incluído,
em prosa e verso o amor materno. Pensadores , poetas e cantores ao enaltecerem
este sentimento o tornaram um mito
A filósofa e escritora francesa Elizabeth Badinter analisando
esse assunto em seu livro Um amor conquistado: o mito do amor materno(
2 ). Comenta que o amor materno é apenas um sentimento
humano como outro qualquer e, como tal, incerto, frágil e imperfeito.
Pode existir ou não, pode aparecer e desaparecer, mostrar-se
forte ou frágil, preferir um filho ou ser de todos. Contrariando
a crença generalizada, ou seja o mito, esse sentimento não
está profundamente inscrito na natureza feminina; ele não
é tão pouco inerente à condição de
mãe pois uma babá ou, até mesmo um homem, são
capazes de maternar uma criança; enfim, segundo a autora não
se trata de um determinismo mas sim algo que se adquire.
Do ponto de vista evolutivo, o comportamento maternal humano surgiu
depois do aparecimento dos répteis, animais que botam ovos em
esconderijos aquecidos e vão embora; o futuro de sua prole não
lhes diz respeito. Quando houve a transição dos répteis
para os mamíferos a cerca de 90 milhões de anos, nossos
antepassados adotaram estratégias diferentes e mais responsáveis:
manter sua cria no útero, amamentá-la e defendê-la
dos perigos até que ela fosse capaz de fazer isso sozinha. Foi
uma longa caminhada do instinto de conservação até
o instinto materno( 3 ).
No Livros dos Espíritos em resposta a questão 890 os Espíritos(
4 ) esclarecem que o amor materno é uma virtude e um
sentimento instintivo.Este sentimento instintivo é o que acompanha
as fêmeas humanas a milhões de anos , já o amor
maternal é um processo em construção no espírito,
mesmo que quando comparado aos outras formas de amar seja visto como
o que mais aproxima o ser humano do amor divino, pois o espiritualiza
tornando-o mais consciente de seu papel na Terra( 5 )
Se o instinto maternal assegura a sobrevivência física,
o amor maternal assegura a sobrevivência afetiva. É o afeto
que se cultiva todos os dias na relação, que desenvolve
o amor para toda eternidade, e se transforma em virtude.
Inicialmente , como nos diz o poeta Fernando Pessoa, "Ninguém
a outro ama, senão que ama o que de si há nele, ou é
suposto"( 6 ), nos primórdios do amor
ama-se através do instinto, depois na medida que exercícita-se
o afeto, o amor como descrito pelos poetas, abnegado e libertador, vai
se estabelecendo .Ma nesta fase inicial, instintiva, onde a capacidade
de amar ainda é subdesenvolvida, verifica-se relações
desequilibradas onde em nome do amor materno, observa-se uma relação
possessiva, que possui direitos absolutos e permanentes sobre os filhos
, enquanto que a estes é imposto obrigatoriedade da gratidão
eterna, mesmo que freqüentemente sob o manto da hipocrisia.
.... Quero ver meu filho. Tendes o poder de dar-mo?
Cruéis!... Tomaram-mo para levá-lo à luz,e
a mim me deixaram em trevas. Quero-o... quero-o porque me pertence!...
Nada vale então o amor materno( 1 )?
Pode parecer estranho
que se afirme que relações de amor possam gerar processos
obsessivos, mas o amor desmedido e possessivo ,mesmo que seja entre
mãe e filho, geram desequilíbrios os mais diversos; como
o caso, acima descrito, relatado no capitulo V do livro O Céu
e o Inferno.
A perda de um filho é considerada a forma mais agonizante e debilitante
de luto., na ausência de crença na continuidade da vida
após a morte do corpo físico.
.... Pobre mãe! Não pôde suportar a prova
dessa separação momentânea, e tomou, para se unir
ao filho, o caminho que dele mais deveria afastá-la.E por quanto
tempo! Assim, retardou indefinidamente uma reunião que tão
pronta teria sido se sua alma se conformasse submissa às vontades
do Senhor; se fosse resignada,humilde, arrependida diante da provação
que se lhe impunha,da expiação que deveria purificá-la
...( 1 )
Quando no Livro dos Espíritos, Allan
Kardec questiona os Espíritos Superiores:-
"Os que, não podendo suportar a perda de pessoas queridas,
se matam na esperança de se juntarem a elas, atingem seus objetivos(
7 )? recebeu a seguinte resposta:
R: O resultado para elas é bastante diverso do que esperam,
pois em vez de se unirem ao objeto de sua afeição, dele
se afastam por mais tempo, porque Deus não pode recompensar um
ato de covardia e o insulto que Lhe lançado com a dúvida
quanto à Sua providência. Eles pagarão esse instante
de loucura com aflições ainda maiores do que aqueles que
quiseram abreviar, e não terão para os compensar a satisfação
que esperavam.
" Pobre mãe, compartilhamos da vossa dor.Buscastes, no
entanto, um triste recurso para vos reunirdesao vosso filho: - O suicídio
é um crime aos olhos de Deus,e deveis saber que Deus pune toda
infração das suas leis. A ausência do vosso filho
é a vossa punição.
A sentença não é, porém,inexorável,
e o arrependimento do culpado é sempre acolhido.Se tivésseis
aceito a provação com humildade houvésseis esperado
com paciência o momento da vossadesencarnação, ao
entrardes no mundo espiritual, em quevos achais, teríeis imediatamente
avistado vosso filho, o qual vos receberia de braços abertos.
Depois da ausência,vê-lo-íeis radiante. Mas, o que
fizestes e ainda agora fazeis, coloca entre vós e ele uma barreira.
Não o julgueis perdido nas profundezas do Espaço, antes
mais perto do que supondes é que véu impenetrável
o subtrai à vossa vista. Ele vos vê e ama sempre, deplorando
a triste condição em que caístes pela falta de
confiança em Deus e aguardando ansioso o momento feliz de se
vos apresentar. De vós, somente, depende abreviar ou retardar
esse momento...( 1 )
A morte não separa os corações que verdadeiramente
se amam. A morte não mata as emoções,apenas transforma
o corpo, permitindo ao espírito elevar-se em busca do amor espiritual
.
"A felicidade nos Mundos Superiores só é possível
aos que alcançaram amar sem aprisionar o outro( 9 )".
E " os filhos são Espíritos como nós, em processo
evolutivo, que vêm até nós para que os amemos e
os auxiliemos no aproveitamento das experiências do viver na Terra.
Devemos pois, saber devolvê-los para o plano espiritual, quando
eles partem ou deixá-los aqui quando nós, pais, partimos".
Confiemos sempre nas leis naturais da vida, na certeza de que o amor
verdadeiro é eterno, durará para sempre, porque sempre,
aqui ou no além, estaremos exercitando a vida. E o mais importante
do viver é amar, é esquecer-se de si para fazer o outro
feliz. Este é o amor que Jesus exemplificou, amor que todos buscamos,
quase sempre sem mesmo disso ter consciência( 8 ).
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Bibliografia:
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1.
Kardec ,Allan, " Céu e Inferno" CapituloV : Suicidas
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2.
Howard, Craig e Lambert, Kelly. Sabedoria de Mãe. Scientific
American Brasil, Fevereiro de 2006, p. 66-73. |
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3.
Badinter, Elisabeth. Um amor conquistado: o mito do amor materno.
Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 5a ed., 1985 |
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4.
Kardec ,Allan,"O Livro dos Espíritos", questão
890. |
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5.
Novaes, Adenáuer Marcos Ferraz " .Amor Sempre."
- Salvador: Fundação Lar Harmonia 2001, |
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6.
PESSOA, Fernando. Obra poética. Vol único. Rio de
Janeiro, Nova Aguilar, 1995. |
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7.
Kardec ,Allan,"O Livro dos Espíritos", questão
956. |
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8.
Ebner,Leda de Almeida Rezende "Reflexões Úteis" |
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9.
Divaldo Pereira (Joanna de Ângelis ) "Após a Tempestade" |
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Laurelucia
Orive Lunardi
Fevereiro / 2007 |
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