O
CÉU E O INFERNO
OU
A
JUSTIÇA DIVINA SEGUNDO O ESPIRITISMO
Por ALLAN
KARDEC (Autor de "O Livro dos Espíritos")
O "CÉU" DOS ESPÍRITOS...
Assim, nas questões do "aproveitamento" das horas, onde quer que estejamos, vez por outra seguimos com "exigências" para estarmos bem... Um lugar tranquilo, uma música suave (ou agitada!), amigos a nos compreender, condições financeiras para nos atender as aspirações. E assim, vamos construindo a nossa "realidade". Pessoal, única, intransferível por ser o resultado da nossa forma de ver e viver. Mas dentro desse "caleidoscópio" de possibilidades, quanta variedade não encontramos a cada amanhecer... Convites da vida a se renovarem como "marcas" deixadas pelo Senhor da Vida... Para lembrarmos de que há sempre algo importante, único mesmo, que pode ser feito a cada dia, compondo no fluxo das horas por nós "consumidas" o tesouro das nossas memórias... Isso nos lembra o poeta Rabindranath Tagore, quando no rasgo da sua sensibilidade assim se expressa sobre "Os Pássaros das Recordações"... Mas não procure ler de um golpe, caro amigo, pois a verdade só se mostra ao coração que se detém para percebê-la, não se permitindo ser "tomada de assalto"...
Eis uma
verdade para nós espíritas, não é mesmo?
Lembranças a nos levar aqui e acolá, agradáveis
umas, difíceis outras, periodicamente "sobrevoando"
as paisagens da nossa consciência. Mas o poeta continua...
A sua presença
sombreia-me ora com a tristeza dos erros cometidos, vezes outras com
a luz das ações dignificantes, num calidoscópio
mágico de retornos e fugas. 3
Ao lermos
e relermos tais palavras, buscando a "lente" das noções
da vida espiritual, quão reais não ficam tais pensamentos,
não? Pode o leitor que pacientemente nos acompanhou até
aqui sentir isso? Por que será que alguns , de imediato se identificam
com tais colocações, enquanto outros, entendem-nas, mas
não conseguem senti-las? Mistério? Gostos, preferências
pessoais? Tempo, hábito? Muitas serão as respostas e,
provavelmente quase todas corretas dentro da perspectiva com que foram
formuladas... Mas há aqui um dado essencial, principalmente para
aqueles que tratam com o "outro" no cotidiano das realizações...
E, quem de nós, queira ou não, não acaba se relacionando
com tudo e todos que nos cerca? Daí nos propormos nesse espaço
concedermos um espaço a tais indagações...
Que elas possam ser úteis na construção do "relacionar-se
melhor" de cada um de nós. Comecemos, pois.
Na citação
inicial do nosso livro de estudo, Kardec nos traz dados importantes
para a nossa reflexão. Procuremos perceber o sentido dado às
palavras aplicadas ao Espírito, em negrito:
Não
se trata de um jogo de palavras colocadas para ocupar o espaço
do texto, mas , juntas, mostram um processo pedagógico
em curso em cada um de nós. Assim, definem uma meta, uma direção,
um objetivo a alcançar e, mais ainda, um resultado com o qual
podemos avaliar o que acontece. Eis porque vale o esforço de
compreendermos o sentido delas no capítulo sobre o céu.
Aliás, permita-nos o leitor adiantar uma pergunta: qual será
o céu dos Espíritos? Já pensou nisso? Vamos
a alguns esclarecimentos, então.
Simples,
isto é, sem experiências, que vêem
das realizações, do fazer, o resultado,
por assim dizer, da ação do Espírito. E o que a
experiência representa para o Espírito? O que a
sua experiência representa para você, leitor? Pense nisso.
Talvez vejamos juntos que a experiência é o nome que damos
àquilo que já sabemos que funciona... E que não
funciona também... Sem muita explicação: simplesmente
é. Não confundir, então, a experiência
com a movimentação para consolidá-la. Experiência
é, então, o resultado do movimento
que fazemos ao viver... Mas, há algo mais aqui. Como
fica essa "experiência" armazenada em nós? Como,
de fato, podemos usá-la? A palavra é simples, embora necessite
de explicação: memória, a marca da
perenidade cobrindo as distâncias colocadas pelas horas
vividas por nós. Memória é reserva energética
para o Espírito, a lhe impulsionar, como uma massa crítica
para que algo possa ocorrer, nem muito nem pouco, na medida certa. É
, então, mais do que habilidade que se consolida em nós.
É a possibilidade de transformar os estímulos que nos
chegam para o objetivo que aspiramos alcançar... O Espírito
acaba tornando-se líder de si mesmo nesse contexto, torna-se
capaz, sim, de criar satisfação par si mesmo... Mas para
isso é preciso... experimentar, aventurar-se, sair do círculo
da acomodação e das desculpas. André Luiz,
no livro Mecanismos da Mediunidade, nos coloca que passa o Espírito
por estágios de ausência de magnetismo residual,
isto é, pessoas por largo tempo entregues a profunda e
reiterada ociosidade espiritual, portanto, sem reserva vibratória
para realizações de crescimento mais intensas: é
quando ele necessita urgentemente do outro, mais adiantado e que se
interesse por ele... para ajudá-lo a interessar-se por
si mesmo (interesse quer dizer 'estar entre, no meio;
participar'). E com isso, encontramos o segundo ponto colocado
por Kardec: a ignorância do que o Espírito
representa no contexto da Criação é um entrave
hoje e sempre a toda realização espiritual, independentemente
de denominações religiosas... E quantas religiões
não tratam mais do corpo do que do espírito, não?
(e, ás vezes, muito mal até do próprio corpo...).
Ignorantes,
quer dizer sem conhecimento transformativo.
E o que é isso? Algum gênero novo sendo vendido nas "prateleiras"
do mercado milionário da auto-ajuda moderna? Não, simplesmente
não se trata disso, talvez para decepção daqueles
que buscam afoitos por "receitas" de transformação
(principalmente acompanhadas de pouco esforço e ocupação).
O conhecimento aqui se refere ao filtro, à "peneira"
por nós usada para avaliarmos aquilo que,
de fato, fazemos, e não apenas o que gostaríamos
de ter feito. Então, conhecimento transformativo é aquele
do qual dispomos no momento da ação, não
apenas antes, ou depois. Mas durante a realização.
Eis porque hoje se busca, num esforço mundial, consolidar o processo
filosófico junto às crianças e aos jovens no que
ficou conhecido como o ensino de Filosofia para Crianças.
Não se trata de ensinar sobre a história da Filosofia,
mas lhes permitir o próprio processo de filosofar, isto é,
refletir com interesse sobre o que nos cerca...o que demanda, sem dúvida,
capacidade de percebe, observar, raciocinar e concluir para ser capaz
de tomar atitudes coerentes junto aos valores éticos úteis
ao ser humano.Mais ainda, respeito pelo que o outro tem a dizer, aceitando-lhe
as opções, sem que isso queira dizer fazer o mesmo ou
concordar.Não foi por acaso que Kardec foi aluno de Pestalozzi,
aprendendo naquele ambiente de Yverdun a prática do observar,
atentar para as coisas e pessoas ao nosso redor. Talvez em palavras
mais simples, aprender a valorizar o tempo no espaço de
nossas construções. Aprender a pensar
com qualidade.
Assim,
para que tudo isso se torne realizável é necessária
a convivência num ambiente em que o pensar com critérios
seja valorizado (e não apenas comentado), isto
é, não apenas dizer: vá estudar, mas também
fazer, e junto, quando possível. Um ambiente como a sua casa,
leitor amigo, o seu trabalho, a escola, etc. Sempre ao seu alcance da
maneira mais simples. Afinal, talvez você não tenha se
dado conta ainda de que dispõe de tesouros de incalculável
valor: respostas. Isto mesmo, você. Espírita,
tem ao seu alcance respostas às questões mais fundamentais
para a vida do Espírito aqui na terra. Respostas que muitos buscam
com sofreguidão, depois que o cansaço das ilusões
começa a varrer o pó deixado por elas anteriormente.Assim,
podemos , então, mais uma vez perguntar: qual o uso que tem feito
desses tesouros? Estariam encostados nas prateleiras da demonstração?
Ou já teria o leitor se animado a compartilhá-lo nos "diálogos
de verdade" que já é capaz de estabelecer?
Nesse sentido, o conhecimento é prático, é entendimento
das próprias e reais necessidades como Espíritos que somos
e, passa a ter o importantíssimo papel de multiplicar as escolhas
que percebemos, dar-nos novas opções ante às
decisões que tomaremos. Entendimento que confere liberdade
para escolher. E o que seria essa liberdade? É fazer
o que vier à cabeça? Muitos, talvez, ainda gostariam que
assim fosse... Mas quem age dessa forma, sem consciência de sua
motivação, seria muito diferente de um autômato,
uma máquina? Escravizado aos impulsos que lhe constituíram
uma segunda natureza? Veja,leitor, a título de exemplo, o caso
do ciúme. Aprisionar o amor nas dimensões dos nossos braços...?
O amigo chamaria isso de liberdade? Achamos que não. Jesus,
então, tem essa incrível capacidade... a de nos ajudar
a conquistar a liberdade para amar a si mesmo
Quantas
vezes não agimos desta ou daquela maneira simplesmente porque
acreditamos ter que ser assim. Não era isto que
fazia Jesus com aqueles que o buscavam, sempre com motivos particulares,
mas recebendo dele a verdade da sua realidade espiritual, além
do atendimento das necessidades mais imediatas (o pão e o peixe,
o alívio ou a cura, etc.). Assim, conhecer como forma de:
Percebemos,
então, que pensar também é estar constantemente
fazendo faxina naquilo que nos acostumamos a acreditar
como verdades. Por que? Porque muitas são válidas,
mas muitas outras simplesmente não são... e pode ser que
demore algum tempo até alguém aparecer e nos dizer isso...
É
um fato isso: nos acostumamos a pensar de uma certa maneira, e vamos
vivendo enquanto que a vida parece se encaixar naquilo que representamos
como nossas ideias. Vamos vivendo mergulhados nessas ideias... e muitas
não são nem criações nossas... Até
o dia que isso parece, "que azar!", não funcionar mais.
Então ficamos amedrontados, raivosos, insatisfeitos... "De quem
é a culpa? como posso fazer para reverter isso? Ah! Que saudades
daquele tempo em que eu..." E vai por aí a fora. Quem são
esses Espíritos? Talvez aqueles que sempre TÊM QUE alguma
coisa. Por exemplo, você já ouviu algo assim:
- tenho que
me amar, (mas, para isso, será que preciso ser diferente do
que se é?. Então, como mudar sem se aceitar?)
- tenho que
cumprir meu "carma", senão TENHO QUE voltar e fazer
de novo... (mas há algum sentido
O que
há nisso tudo? Ora, o nosso crescimento vem de lidar com
as coisas e não de achar que tem que. Esse
último traz a triste ideia de que há algo fora de nós,
a nos obrigar a ser o que não conseguimos se quer perceber...
Seria isso confortador, animador? Faz-nos sentir melhor? Parece-nos
que não. E onde está então o nó cego?
ora, se aquilo que pensamos não nos deixa nos sentir melhor,
é porque o que pensamos pode estar errado, por maior que seja
a nossa boa-vontade para com as coisas na vida... Há uma ideia
interessante para nos fazer pensar um pouco mais: as condições
e os recursos de auxílio da nossa vida, permitidas por Deus para
o nosso crescimento, são para a pessoa que somos,
não para aquela que TEMOS QUE ser...
Por isso,
alertamos para essa dinâmica: conhecimento e experiência,
desenvolvimento de novas faculdades, ampliação da percepção
e, CONSEQUENTEMENTE, novos gozos desconhecidos dos espíritos
inferiores (ou que se situam aquém do momento evolutivo e que
nos encontramos então). Eis, novamente , uma ideia revolucionária
dentro da perspectiva da psicologia do Espírito: do que depende
o "estar feliz"? Mas, deixemos isso para o próximo
mês - muita informação pode provocar congestão,
não é mesmo? É preciso digerir para assimilar.
Finalizando,
é dentro disso, então, que perceberemos que há
muitos modos de ver, sentir, ouvir ou compreender, sempre a depender
da abertura da janela da nossa consciência. E, por
essa janela, observamos também os pássaros livres
de nossa emotividade, ganhando os espaços por nós conquistados,
recordando-nos da sensibilidade agora mais aguçada pelo amor
que expande livre para preencher todos os espaços que antes,
na nossa ansiosa busca pelo crescer, acabaram ficando vazios da nossa
presença junto a Deus, o nosso Eterno PAI... nas palavras de
Tagore...
Vanderlei Luiz Daneluz Miranda |