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O CÉU E O INFERNO OU A JUSTIÇA DIVINA SEGUNDO O ESPIRITISMO Por ALLAN KARDEC
(Autor de “O Livro dos Espíritos”) Caminhamos? Sim, mas importa saber para onde… Para cada nova existência de permeio à matéria, entra o Espírito com o cabedal adquirido nas anteriores, em aptidões, conhecimentos intuitivos, inteligência e moralidade. Cada existência é assim um passo avante no caminho do progresso. (O Céu e O Inferno, Cap. III - O CÉU. Grifos nossos)Já teria o
leitor alguma vez pensado sobre a origem dos desejos que possuímos? Mais ainda,
seria possível colocar um desejo no coração de alguém? Ou será que tudo o que
podemos fazer é, digamos, abrir uma porta para os que já existem, trancados,
escondidos em algum “cômodo” interior? Haveria desejos esquecidos? A questão do
desejo caminha ao lado das experiências adquiridas nas várias
existências que já vivemos. De certa forma, esse cabedal também pode ser comparado
ao fundo das águas. Como afirma Rubem Alves, “O fundo das águas é lugar
encantado, onde moram também lindas criaturas, (…). Vivem lá, submersas,
esquecidas… Mas quem as submergiu? Nós mesmos.” - O Retorno e o Terno E as experiências do cotidiano (a existência corporal)
não teriam também o papel de acordar os desejos que já moravam em nós? Acordar
para que, perguntará o amigo. Para nos levar a escolher. Ou para responder a
grave questão colocada por Jesus: Onde estiver o nosso tesouro, aí estará
também o nosso coração. Experiências que parecem ter voz a nos propor:
“Onde está o seu coração? Qual é a sua verdade?” Pense por alguns instantes
sobre isso, amigo leitor. Nas mais simples questões da vida de todo dia, vozes
a nos “provar”, “testar”, solicitando-nos fazer escolhas: “Esta ou aquela?” E,
à medida que escolhemos, como as flores que vão perdendo as pétalas ao sabor do
vento, vamos também nós perdendo pétalas para ver o que sobra, para ver o
que somos. Necessidade, desejo e motivação. Difícil precisar uma
nítida separação entre os três. Onde termina uma necessidade e começa um
desejo? Quando um desejo se torna capaz de sustentar a nossa disposição, isto é
, uma motivação? A dificuldade de separá-los não é casual. E a evolução encerra
um processo de desenvolvimento também do que poderíamos chamar de fatores
conativos (motivacionais). Do impulso
primitivo de sobrevivência com as necessidades fisiológicas (como a fome) do
recém-nascido, passando pela necessidade de sobrevivência imediata e do
princípio do prazer-desprazer nos primeiros meses de vida. Em seguida o
aparecimento da satisfação dos desejos,
a necessidade de sobrevivência e
segurança prolongadas, na primeira infância; depois as raízes da força de
vontade e escolha autônoma, o senso de pertencer, na segunda etapa da infância.
Chegando `a força de vontade propriamente dita, ao autocontrole, às metas e
desejos temporais, necessidades de auto-estima do período da adolescência e
juventude. Finalmente, na idade da razão, a intencionalidade, o desejo
criativo, significação, vontade espontânea, auto-realização e autonomia, até o
estágio superior da compaixão, do amor como fator motivacional
superior. Eis porque “Uma só existência corporal é
manifestadamente insuficiente”. Curioso perceber que , assim como a inteligência se
desenvolve em etapas, tornando-se cada vez mais complexa, enriquecida, a
motivação ou força motivacional também se transforma
à medida que vamos amadurecendo no processo da evolução. Em artigos anteriores apresentamos a motivação
como “aquilo que inspira nossas ações no momento”, ou o nosso estado
de espírito. A motivação vai surgindo de uma necessidade intrínseca de
felicidade que carregamos inscrita em nós,
desdobrando-se a cada etapa segundo uma “roupagem” específica. E em O Livro
dos Espíritos, sobre a indagação acerca da soma de felicidade comum a todos
os homens, os Espíritos Superiores assim se expressaram: “Com
relação à vida material, é a posse do necessário. Com relação à vida
moral, a consciência tranqüila e a fé no futuro.” De fato, a falta do necessário na vida material gera
sofrimento e acaba por interferir na “visão” sobre tudo o que nos cerca. Então,
ocorre que as privações alteram o que poderíamos chamar de disposição
geral, força motivadora das nossas ações, o estado de espírito. Quem tem fome
busca antes de tudo o pão. Mas isso não é tudo. Mesmo quando temos mais do que
o suficiente à vida material, podemos sofrer. Expectativas não atingidas podem
ser outra causa de sofrimento. O que seria a “consciência tranqüila” senão o resultado
de estarmos sabendo empregar com correção a nossa capacidade de escolher. Coisa
que só é possível perceber mantendo o compromisso com uma ação diante
dos desafios da vida. Quem escolhe define atitudes (para si e para os outros em
relação a si próprio) e, ao agir, se dá a conhecer, isto é, se mostra tal qual
é (de novo, para si e para os outros). De alguma sorte desejos, felicidade, consciência e fé
estão todos interligados. A propósito disso, o Espírito Lourdes Catherine assim
coloca a questão, “Não existe bem-estar
sem liberdade de pensar e de agir. O Criador não quer
escravos, quer filhos livres. Portanto, nossa felicidade é o
resultado da maneira pela qual vivenciamos aquilo que somos.(…) A
felicidade não é simplesmente uma meta a ser alcançada, mas uma conseqüência: a
colheita de nossos atos e atitudes diante da existência.” Por isso havíamos
colocado em artigo anterior felicidade como disposição afetiva (que
dá qualidade ao nosso fazer no momento mesmo
da ação, também conferindo clareza e intensidade à percepção). Daí a
concepção de felicidade como um resultado, tal que, interfere na nossa
própria interação com a vida. Dois caminhos surgem no pensamento de Lourdes
Catherine, 1.
O que percebemos
daquilo que somos? Ou, mais especificamente, o quanto podemos
confiar naquilo que percebemos sobre aquilo que somos? 2.
Como vivenciamos
essa percepção? Aceitando, rejeitando, evitando, etc. Será essa experiência
algo que nos proporciona satisfação? Estaremos buscando novas formas de entender
e agir ? De novo nos ocorre a figura
de Protágoras, filósofo grego, ao afirmar: o homem é a medida de todas as
coisas. Como assim? Somos hoje aquilo que fizemos de nós ao longo
da nossa história: o ser que dimensiona, mas também o próprio instrumento de
medida! O olhar, o instrumento e o que é olhado. Ora, quer dizer que
nós avaliamos as experiências pelo tamanho e perspectiva
da visão que já conseguimos no momento. Não a que os outros gostariam
que tivéssemos, mas, a nossa. Daí a necessidade de “burilar” o instrumento. Assim, teríamos o “termômetro” da felicidade como um
indicativo para a validade desses dois momentos da alma (perceber com
veracidade e agir com inteligência). E,
como conseguir alargar esses horizontes sem o auxílio do experimentar,
do fazer? Mas, atenção, caro leitor. Não se trata de qualquer
experiência… há muitos movimentos que são apenas um debater-se sem sair do
lugar – como as lutas que apenas demonstram a rebeldia em assumir a
responsabilidade por si mesmo. Enquanto há outros, que, aparentando
imobilidade, são intensos movimentos da
alma em busca de Deus. Observe o leitor que um indivíduo malfeitor, uma
pessoa portadora de mau caráter, poderia estaria momentaneamente satisfeito
por continuar a fazer exatamente o que fazia antes. Portanto, podemos
nos enganar sobre nós mesmos. Então, deve estar faltando algo, porque seria o
caos se assim fosse. O que nos faltaria? Precisamente os limites à nossa
possibilidade de escolha. De que outra maneira obstar o movimento enlouquecido
na busca de prazer (que não é felicidade)? E assim, tais limites funcionam à
conta de trilhos reguladores da nossa possibilidade de ação no cantinho do
mundo em que estamos. Uma doença limitante, um revés momentâneo na vida, um
relacionamento mais complicado, uma “bronca” de um chefe, um não quando se
esperava um sim, um sim quando se desejava um não… Sob esse aspecto importa ver que a janela de nossa
percepção tem influência decisiva. “De nada adianta conselhos alheios
para cuidados que para mim não são importantes”. Ora, não enxergando, não tomaremos atitudes
em conformidade com aquilo que só os outros percebem. Assim, as opções se
limitam ao que efetivamente é percebido (em qualidade e intensidade). A esfera
de ação está sempre restrita pelo que é
visto como possível para cada um em particular. Por tudo isso, por causa dessa necessidade de afinar a
sensibilidade, é que destacamos a importância do Espiritismo ao tirar o
Cristo da cruz. Ou seja, mostrar uma percepção mais verdadeira do Cristo. E,
com isso, descortinar novas escolhas para nós. Não mais o Cristo
salvador. E sim, o Cristo que é mestre, que ensina fazendo. Que mostra um
caminho alternativo aos velhos problemas da alma humana. E quantos não
são eles…! Entender Jesus de um ponto de vista psicológico – e não simplesmente
histórico, teológico ou emocional. A história, passa. A teologia distrai, mas
cansa. A emoção dura pouco. Evidentemente o Seu não é um papel tão secundário
na vida do ser humano. Entendê-lo como alguém que ensina como “transpor
os limites da encarnação”, deixando esta de ser necessária e, assim nos
tornando aptos para progredir no estado espiritual. Assim, descobrir no Cristo um como fazer e um critério
que nos permita avaliar para onde estão nos levando nossas opções. Para onde
vamos no “andar da carruagem” da vida? Veja, leitor, que muitos relatos de
espíritos, mesmo informados da vida espiritual quando aqui encarnados, deixam
claro sobre as suas surpresas nem sempre agradáveis diante da “mudança de
endereço”. Então não se trata de apenas estar informado. Mas, de transformar
tal informação em formação mediante a ação esclarecida e
motivada. Para finalizar, nas palavras do grande poeta da
humanidade, Gibran Khalil Gibran, “E agora perguntais em vosso coração: ´Como
distinguiremos o que é bom no prazer do que é mau ?´ Ide,
pois aos vossos campos e pomares e, lá, aprendereis que o prazer da abelha é
sugar o mel da flor, Mas
que o prazer da flor é entregar o mel à abelha. Pois,
para a abelha, uma flor é uma fonte de vida. E
para a flor, uma abelha é uma mensageira de amor. E
para ambas, a abelha e a flor, dar e
receber o prazer é uma necessidade e um êxtase.”
Vanderlei Luiz Daneluz Miranda
KARDEC, Allan, “O Céu
e o Inferno”, 1ª Parte – Cap. 3 O Céu. FEB.
32ª ed. Rio .1994 GIBRAN, Gibran Khalil, “O Profeta”.
ACIGI. FRANCO, Divaldo P.
[pelo espírito Joanna de Ângelis] “Alerta”, Cap.
34. 3ª edição. Salvador. LEAL, 1986. |