O CÉU E O INFERNOOU A JUSTIÇA DIVINA SEGUNDO O ESPIRITISMO
PorALLAN KARDEC(Autor de "O Livro dos Espíritos") SERVIÇO:
O VIÇO DO SER
Introduzindo
o assunto desse mês gostaríamos de "provocar" o leitor
com algumas questões: Ora, se todos vivemos muitas vezes sobre a Terra,
por que ainda hoje prolifera a ignorância sobre a vida após a morte,
mesmo entre nós espíritas ? Por que ainda hoje, a comportamento
da maioria é tão assustadoramente descompromissado com a idéia
de que "somos responsáveis" dentro dos quadros de nossas realizações ?
Que efeito estranho é esse que parece envolver-nos numa espécie
de "entorpecimento" que dura, às vezes, uma vida inteira ? As
palavras de Tamassía, acima, dão-nos uma pista dessa questão.
É o toque de cada alma, a luz de seu olhar que dá cor, brilho,
ao que o cerca, incluindo à vida que consegue viver.
"1. - Vivemos, pensamos e operamos – eis o que é positivo. E que morremos não é menos certo. Mas, deixando a Terra, para onde vamos ? Que seremos após a morte ? Estaremos melhor ou pior ? Existiremos ou não ? Ser ou não ser, tal a alternativa. Para sempre ou para nunca mais; ou tudo ou nada: Viveremos eternamente, ou tudo se aniquilará de vez ? " É
fato que podemos viver nas condições mais diferenciadas. Podemos
pensar dentro de uma multiplicidade de possibilidades. Operamos (fazemos, agimos)
conforme uma gama variada de solicitações. Mas todos, invariavelmente
nos defrontaremos com a morte, i.e., o não ser. Então
por que esse fato não nos leva adiante, ao questionamento em torno do
futuro que nos espera ? Se, como afirmavam os Espíritos Superiores, o
nada não existe, como podem alguns "crer" no nada ?
Busquemos lançar algumas considerações sobre esse ponto. Se examinarmos um pouco a questão, poderíamos vislumbrar, de início, duas situações: uma primeira, em que as pessoas mantêm-se numa corrida desenfreada, agitadas, excitadas, sempre insatisfeitas. Agitando-se tal qual a mariposa aprisionada dentro do quarto, voando em círculos ao redor da "luz" que consegue perceber. Embriagada, fascinada pela luz artificial, ela está sempre em movimento circular até a exaustão. Numa segunda situação, encontramos aquelas outras que parecem ter desistido, paralisadas ou retidas em seus processos de sofrimento, na inação, mantendo-se nos estados de aprisionamento, de estagnação. Não lutam, defendem-se. Não perguntam mais, dão as respostas esperadas. Não alimentam sonhos, vivenciam seus pesadelos. Qual a semelhança entre essas situações ? Arriscaríamos dizer que são duas formas de negação do ser, duas manifestações do não ser. Uma espécie de "auto-hipnose", de fascinação em torno das questões satélites que somos capazes de criar quando nos defrontamos com o desafio de viver. Mais ainda, são dois exemplos de endurecimento do Espírito. Endurecido como uma pedra de granito. Sólida, dura, definida - que pode machucar com suas bordas afiadas. Ou como as pedras já desbastadas pelo atrito com as outras pedras, que são lisas, polidas, mas também impermeáveis. "Alto lá!" Alguém vai gritar. "O Espírito não é uma pedra!" E com razão. Mas o Espírito é energia inteligente capaz de criar realidades, materializar pensamentos, expressar sentimentos em acontecimentos, objetos e ações. Pode parecer uma divagação filosófica reflexionarmos sobre não ser e suas conseqüências. Mas isso tem reflexos na prática de nossa vida. Alguém que tenta o suicídio, por exemplo. Alguém que busca a eutanásia. Acreditar no não ser pode ser uma forma velada de desacreditar no que de fato somos, confundindo com aquilo que estamos. Uma tentativa de modificar, de mascarar uma situação, uma ocorrência, que nos envolve. Assim, se é instintivo o sentimento de que continuamos após a morte, o entorpecimento desse sentimento pode ser bem um sinal de que estamos doentes. Doença da alma. A doença do "não sei" ou do " não quero saber" por que vivo, por que sofro, por que estou aqui...". Uma espécie de desinteresse de si mesmo. Um forma de manifestar-se que faz muito barulho, que chama a atenção pela inquietude. Que marca a presença pela astúcia. Outra que também chama a atenção, só que pela ausência, pelo deixar acontecer, pela inação. Que marca a presença pelo desânimo. Dois movimentos de um mesmo processo de estagnação, de endurecimento. Almas doentes são almas que estagnaram. O que acha o leitor dessa colocação ? Concordaria com ela ? Baseado em que ? À propósito dessa questão, a palavra inferno, etmologicamente, significa estar fechado. Estar fechado em suas memórias, fechado no encadeamento de causas e efeitos de seus atos. Estar prisioneiro. Convidamos o leitor a examinar nosso livro de estudo na segunda parte, no capítulo VII – Espíritos Endurecidos. Atentemos para o depoimento do Espírito Angèle, nulidade sobre a Terra e depois nos comentários feitos por Monod (instrutor) (grifos nossos). Angèle era uma dessas criaturas sem iniciativa, cuja existência é tão inútil a si como ao próximo. Amando apenas o prazer, incapaz de procurar no estudo, no cumprimento dos deveres domésticos e sociais as únicas satisfações do coração, que fazem o encanto da vida, porque são de todas as épocas, ela não pôde empregar a juventude senão em distrações frívolas; e quando deveres mais sérios se lhe impuseram, já o mundo se lhe havia feito um vácuo, porque vazio também estava o seu coração. Sem faltas graves, mas também sem méritos, ela fez a infelicidade do marido, comprometendo pela sua incúria e desleixo o futuro dos próprios filhos...
Deixamos o resto para a iniciativa do próprio leitor em consultar o livro... Não podemos dizer que esse Espírito nada fazia em vida – distraía-se, passava o tempo, movimentava-se. Mas como se encontrava posteriormente (após a morte) ? Que pensaria leitor quanto às conseqüências desse "modus-vivendi" do espírito enquanto na Terra ? Nas palavras dela mesmo: 1. - P. Que vos falta, pois ? - R. A paz. 2. - Como pode faltar-vos a paz na vida espiritual ? - R. Uma mágoa do passado. - P. A mágoa do passado é remorso; estareis, pois, arrependida ? - R. Não; temor do futuro é o que experimento. - P. Que temeis ? - R. O desconhecido. 3. - Estais disposta a dizer-me o que fizestes na última encarnação ? Isso talvez me facilite a orientar-vos. - R. Nada. (...) 5. - E de que modo
preenchestes a existência ? - R. Divertindo-me em solteira e
enfadando-me como
mulher. - P. Quais eram as vossas ocupações ? - R. Nenhuma.
- P. E quem cuidava da vossa casa ? - R. A criada.
6. - Não será cabível atribuir a essa inércia a causa dos vossos pesares e temores ? - R. Talvez tenhais razão. Mas não basta concordar. - P. Quereis reparar a inutilidade dessa existência e auxiliar os Espíritos sofredores que nos cercam ? - R. Como ? - P. Ajudando-os a aperfeiçoarem-se pelos vossos conselhos e pelas vossas preces. - R. Eu não sei orar. - P. Fá-lo-emos juntos e aprendereis. Sim ? - R. Não. - P. Mas por quê ? - R. Cansa.
Por que faltaria paz a esse Espírito ? Como poderia cansar-se ? Segundo as instruções do Espírito Monod, O homem foi criado para a atividade; a atividade do Espírito é da sua própria essência; e a do corpo, uma necessidade. Cumpri, portanto, as prescrições da existência, como Espírito votado à paz eterna. A serviço do Espírito, o corpo mais não é que máquina submetida à inteligência: trabalhai, cultivai, portanto, a inteligência, para que dê salutar impulso ao instrumento que deve auxiliá-la no cumprimento de sua missão. Não lhe concedais tréguas nem repouso, tendo em mente que essa paz a que aspirais não vos será concedida senão pelo trabalho. Assim, quanto mais protelardes este, tanto mais durará para vós a ansiedade de espera. Trabalhai, trabalhai incessantemente; cumpri todos os deveres sem exceção, isto com zelo, com coragem, com perseverança.
Pelo exposto acima, começamos a vislumbrar que a saúde da alma relaciona-se com a qualidade da atividade que produz. Onde paz não é de forma alguma ausência de luta, de atrito. Onde, por outro lado, movimento pode não produzir paz e, sim, ansiedade. Onde o nada, o não ser são estados de vazio de sentido existencial que podem tomar conta do Espírito quando ele procura deter-se no caminho quando já tem condições de ir à frente, por conta da contingência do seu amadurecimento, quando surge o ser psicológico em cena, aquele que já é capaz de pensar inclusive naquilo que sente. No dizer de Joanna de Ângelis, a existência humana é uma síntese de múltiplas experiências evolutivas, trabalhadas pelo tempo através de automatismos que se transformam em instintos e se transmudam nas elevadas expressões do sentimento e da razão quando delineiam-se, então,
objetivos e sentido existencial. Enquanto tal necessidade (de dar sentido à
própria vida) não surge, predominando o primarismo, o ser apenas
reage, sem saber agir; ambiciona, sem saber para quê; agride ou deprime-se,
por não conhecer o valor da luta saudável necessária
ao progresso. Uma fase em que ter tempo pode ser tão perigoso quanto
não ter tempo nenhum: um pode levar ao estresse, outro à depressão.
Manifestações do vazio de sentido existencial, pois,
"Vive-se, e isso é incontestável. Negá-lo, significa anular-se, anestesiar a capacidade de pensar." Curiosa
essa colocação: viver, pensar. Não pensar, anestesiar-se,
não viver. Daí o parágrafo 1º do capítulo em questão:
Vivemos, pensamos e operamos. Três elementos profundamente interligados
no contexto de nossas existências. Merecedores do mais profundo exame
quanto ao emprego das nossas forças, energias.
"Viver da melhor forma possível é o desafio imediato. Viver bem (...) para bem viver – realizações internas com o desenvolvimento ético adequado, que proporcionam o bem-estar interior – eis a razão por que lutar."
E assim
buscando esse viver saudável, pelo serviço incessante no Bem,
sentiremos o viço de ser e saudaremos cada alvorada de um novo dia
como reza o cântico sânscrito:
Vanderlei
Luiz Daneluz Miranda
Agosto / 2001
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