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Nesta obra Allan
Kardec reafirma o caráter científico do Espiritismo e avalia
como ciência de observação, a nova doutrina, enfrentando
o problema das penas e recompensas futuras à luz da História,
estabelecendo comparações entre as idealizações
do céu e do inferno nas religiões anteriores e nas religiões
cristãs, revelando as raízes históricas, antropológicas,
sociológicas e psicológicas dessas idealizações
na formulação dos dogmas cristãos.
CapituloV : Suicidas
UM ATEU
“M.J.-B.D... era um homem instruído, mas em extremo
saturado de idéias materialistas, não acreditando em Deus
nem na existência da alma...
... Que motivo poderia ter-vos levado ao suicídio? - R. O tédio
de uma vida sem esperança...”
...Donde provinham as vossas idéias materialistas de outrora?
- R. Em anterior encarnação eu fora mau e por isso condenei-me
na seguinte aos tormentos da incerteza, e assim foi que me suicidei.1
O termo "ateu" é formado pelo prefixo grego a-, significando
"ausência" e o radical "teu", derivado do
grego theós, significando "Deus". O significado literal
do termo é, então: "sem Deus".Alguns autores
entretanto defendem um uso mais restrito do termo, reservando-o apenas
para determinados grupos ( 2,3). Assim, não poderiam ser englobadas
na categoria dos ateus todas as pessoas indecisas quanto a qualquer
crença religiosa.Contudo, é freqüente, em discursos
orientados por uma religião e cultura específicas, que
se considere como ateu todo aquele que não partilhe as mesmas
crenças religiosas. Por exemplo, era freqüente que os antigos
romanos acusassem os antigos cristãos de ateísmo, justificando
assim a sua perseguição. Os textos cristãos, por
seu lado, usavam o mesmo termo para classificar os seus perseguidores.
Este tipo de discurso ainda é freqüente atualmente na maioria
dos discursos religiosos, onde o meu Deus não é o seu
Deus.
Na pratica o vocábulo ateu aceita três significados:
Quem
nega a existência de Deus é Ateu ou Agnóstico ou
Materialista. No primeiro sentido, o ateu apenas não crê
na existência divina, é incréu, caracteriza-se pela
ausência de uma convicção que gera uma negação
. Neste caso encontraremos duas formas de negação: a negação
relativa e a negação absoluta. A negação
relativa `e aquela em que se nega por falta de prova em contrário,
ou seja, por jamais se haver demonstrado enfaticamente, com base na
observação, a existência da divindade.Já
na negação absoluta, o ateu afirma a inexistência
de Deus, mediante a refutação dos argumentos que pretendem
provar-lhe a existência ou mercê da formulação
de outros, que demonstram a impossibilidade desta existência.
Assim a negação relativa corresponde a uma certa indiferença
à idéia de Deus e a negação absoluta, a
uma atitude ativa, de caráter negador.
O
segundo significado de ateu corresponde aos materialistas.Estes apóiam-se
em um conjunto de doutrinas filosóficas que, ao rejeitar a existência
de um princípio espiritual liga toda a realidade à matéria
e a suas modificações. O termo materialismo é também
utilizado para designar a atitude ou o comportamento daqueles que se
apegam aos bens, valores e prazeres materiais em detrimento aos valores
espirituais . Hegel, filosofo alemão que viveu entre 1770 e 1831,
inspirador de Karl Marx na sua doutrina Materialista, dizia que ...”a
natureza não seria mais que a "exteriorização"
em forma secundária da "idéia absoluta".Para
os materialistas a natureza seria a única realidade.
..."A Natureza existe de forma independente de toda filosofia;
é o
solo sobre o qual nós, homens, produtos nós mesmos da
natureza, brotamos
e crescemos. Fora da natureza e dos homens nada existe, e os seres superiores,
criados por nossa fantasia religiosa não são senão
o reflexo fantástico de nosso próprio ser." ...4
O
terceiro significado de ateu corresponde aos agnósticos. O termo
'agnóstico' foi criado por T. H. Huxley (5) inspirado pelos filósofos
David Hume e Immanuel Kant6.O Agnosticismo é a postura de
acreditar que o conhecimento da existência de Deus é impossível.
É freqüentemente oferecido como um meio termo entre o teísmo
e o ateísmo. Compreendido desta forma, o agnosticismo é
o ceticismo com respeito a tudo o que seja teológico. O agnóstico,
opõe-se não propriamente a Deus, mas sim à possibilidade
de a razão humana conhecer tal entidade , gnose tem a sua origem
etimológica na palavra grega que significa “conhecimento”.
Para os agnósticos, assim como não é possível
provar racionalmente a existência de Deus, é igualmente
impossível provar a sua inexistência, logo, constituindo
um labirinto sem saída a questão da existência de
Deus, não se deve colocar sequer como problema, portanto, desnecessário
se preocupar com isto.
Os ateus, seja fugindo das religiões, seja racionalizando Deus
,na verdade,embalados pela perfeição da Obra Divina, acabam
tomando o efeito pela causa, considerando que seus corpos físicos
são eles mesmos. O depoimento de M.J.-B.D. acima citado nos prova
esta visão pois ...” era um homem instruído, mas
em extremo saturado de idéias materialistas, não acreditando
em Deus nem na existência da alma...1 Quando foi lhe pedido....”
Tende a bondade de nos descrever do melhor modo possível a vossa
atual situação. Respondeu......”Sofro pelo constrangimento
em estou em crer em tudo quanto negava.1”.
Outro exemplo que corrobora com esta idéia pode ser encontrado
no livro "Memórias de Um Suicida", escrito pela médium
Yvonne do Amaral Pereira, em uma passagem muito interessante da narrativa
de um materialista suicida, Belarmino de Queiroz :.... "Eu julgava,
sinceramente, que o túmulo absorveria minha personalidade, transmudando-a
na essência que se perderá nos abismos da Natureza: - seria
o Nada!7.”
Em "O Livro dos Espíritos", na questão de número
06,os Espíritos superiores comentam sobre o sentimento íntimo
que cada pessoa tem, sobre a existência de Deus8. Então,
tendo em vista este sentimento já existente dentro do ser humano,
como pode ser justificado o ateu?
Em nota explicativa neste capitulo e passagem acima descrita, Allan
Kardec1 explica :
... ”Aqui há todo um corolário de idéias.
Muitas vezes nos perguntamos como pode haver materialistas quando, tendo
eles passado pelo mundo espiritual, deveriam ter do mesmo a intuição;
ora, é precisamente essa intuição que é
recusada a alguns Espíritos que, conservando o orgulho, não
se arrependeram das suas faltas. Para esses tais, a prova consiste na
aquisição, durante a vida corporal e à custa do
próprio raciocínio, da prova da existência de Deus
e da vida futura que têm, por assim dizer, incessantemente sob
os olhos. Muitas vezes, porém, a presunção de nada
admitir, acima de si, os empolga e absorve. Assim, sofrem eles a pena
até que, domado o orgulho, se rendem à evidência.”
1
...”Que motivo poderia ter-vos levado ao suicídio?
- R. O tédio de uma vida sem esperança.” 1
A falta de crença num Ser Superior, e a idéia de que tudo
acaba com a morte, tornam os seres humanos desesperançados, inseguros
e angustiados.
“...A incredulidade, a simples dúvida sobre o futuro, as
idéias materialistas, numa palavra, são os maiores incitantes
ao suicídio; ocasionam a covardia moral. Quando homens de ciência,
apoiados na autoridade do seu saber, se esforçam por provar aos
que os ouvem ou lêem que estes nada têm a esperar depois
da morte, não estão de fato levando-os a deduzir que,
se são desgraçados, coisa melhor não lhes resta
senão se matarem? Que lhes poderiam dizer para desviá-los
dessa conseqüência? Que compensação lhes pode
oferecer? Que esperança lhes pode dar? Nenhuma, a não
ser o nada. Daí se deve concluir que, se o nada é o único
remédio heróico, a única perspectiva, mais vale
buscá-lo imediatamente e não mais tarde, para sofrer por
menos tempo. A propagação das doutrinas materialistas
é, pois, o veneno que inocula a idéia do suicídio
na maioria dos que se suicidam, e os que se constituem apóstolos
de semelhantes doutrinas assumem tremenda responsabilidade. Com o Espiritismo,
tornada impossível a dúvida, muda o aspecto da vida. O
crente sabe que a existência se prolonga indefinidamente para
lá do túmulo, mas em condições muito diversas;
donde a paciência e a resignação que o afastam muito
naturalmente de pensar no suicídio; donde, em suma, a coragem
moral.9”
“...Quisestes escapar às
vicissitudes da vida... Adiantastes alguma coisa? Sois agora mais feliz?1
“...Tende a bondade de nos descrever do melhor modo possível
a vossa atual situação1
“R. Sofro pelo constrangimento em que estou de crer em tudo quanto
negava. Meu Espírito está como num braseiro, horrivelmente
atormentado.” 1
“...Podereis dar-nos uma descrição mais precisa
dos vossos sofrimentos?1
“R. Não sofreis aí na Terra no vosso orgulho, no
vosso amor-próprio, quando obrigados a reconhecer os vossos erros?1
"O vosso Espírito não se revolta com a idéia
de vos humilhardes a quem vos demonstre o vosso erro? Pois bem! Julgai
quanto deve sofrer o Espírito que durante toda a sua vida se
persuadiu de que nada existia além dele, e que sobre todos prevalecia
sempre a sua razão. Encontrando-se de súbito em face da
verdade imponente, esse Espírito sente-se aniquilado, humilhado.
A isso vem ainda juntar-se o remorso de haver por tanto tempo esquecido
a existência de um Deus tão bom, tão indulgente.
A situação é insuportável; não há
calma nem repouso; não se encontra um pouco de tranqüilidade
senão no momento em que a graça divina, isto é,
o amor de Deus, nos toca, pois o orgulho de tal modo se apossa de nós,
que de todo nos embota, a ponto de ser preciso ainda muito tempo para
que nos despojemos completamente dessa roupagem fatal. Só a prece
dos nossos irmãos pode ajudar-nos nesses transes.”
1
A morte, como fenômeno natural, tem as suas leis que o Espiritismo
revela através de rigorosa investigação. O sofrimento
do suicida decorre do rompimento arbitrário dessas leis. As conseqüências
do suicídio são muito diversas; não há penas
fixadas, e em todos os casos são sempre relativas às causas
que a ele conduziram; mas uma conseqüência à qual
o suicida não pode escapar, é o desapontamento. De resto,
a sorte não é a mesma para todos : depende das circunstâncias
; alguns expiam sua falta imediatamente, outros em uma nova existência
que será pior que aquela da qual interromperam o curso10 ou
em existências compostas mais ou menos dos mesmos detalhes visando,
neste caso, testar-lhe, apos a estada no processo educativo ocorrido
na vida espiritual, o teor de entendimento já conquistado, situação
esta que se à primeira vista pode parecer a mais suave,na realidade
seja a mais difícil. Bloqueio, lesões físicas,
deformidades, doenças desde o berço, limitações
de vários teores, serão sempre relativas e particularizadas,
isto è adequadas a cada um
| Bibliografia: |
| |
1.
Kardec ,Allan, “ Céu e Inferno” CapituloV : Suicidas
|
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2.
Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio
(1830), tradução de Paulo Meneses, São Paulo:
edições Loyola, vol. I (A ciência da lógica)
1995. |
| |
3.
Rohden, Valério, Interesse da Razão e Liberdade. São
Paulo: Ática, 1981 |
| |
4.
Kojève, Alexandre. Introdução à leitura
de Hegel, tradução de Estela dos Santos Abreu, Rio
de Janeiro: Contraponto/Editora da Universidade do Estado do Rio
de Janeiro, 2002. |
| |
5.
Thomas, H Huxley Man's Place in Nature Edit. Modern Library Science) |
| |
6.
Rubens Rodrigues Torres Filho ,Sobre Kant São Paulo: EDUSP/Iluminuras,
1993. |
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7.
Yvonne do Amaral Pereira, "Memórias de Um Suicida", |
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8.
Kardec ,Allan, "O Livro dos Espíritos", questão
06. |
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9.
Kardec ,Allan ,O Evangelho Segundo o Espiritismo" - Capítulo
V, item 16 |
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10.
Kardec ,Allan, "O Livro dos Espíritos", questão
957. |
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Laurelucia Orive Lunardi
Abril / 2007
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