O Céu e o Inferno
por
ALLAN KARDEC
Nesta obra
Allan Kardec reafirma o caráter científico do Espiritismo
e avalia como ciência de observação, a nova doutrina,
enfrentando o problema das penas e recompensas futuras à luz
da História, estabelecendo comparações entre as
idealizações do céu e do inferno nas religiões
anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes
históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas
dessas idealizações na formulação dos dogmas
cristãos.
CAPÍTULO XI
DA PROIBIÇÃO
DE EVOCAR OS MORTOS
Quando houverdes entrado na terra que o Senhor vosso Deus vos há
de dar, guardai-vos; tomai cuidado em não imitar as abominações
de tais povos; - e entre vós ninguém haja que pretenda
purificar filho ou filha passando-os pelo fogo; que use de malefícios,
sortilégios e encantamentos: que consulte os que têm o
Espírito de Píton e se propõem adivinhar, interrogando
os mortos para saber a verdade. O Senhor abomina todas essas coisas
e exterminará todos esses povos, à vossa entrada, por
causa dos crimes que têm cometido. (Deuteronômio, cap. XVIII,
vv. 9, 10, 11 e 12.)(1)
O termo
"evocar" vem do latim "evocare" e significa chamar
alguém, de algum lugar. No Dicionário Aurélio(2)
esta palavra é definida, como chamamento dos seres espirituais
e em termos mediúnicos, a evocação intenciona chamar
um Espírito para junto de si com algum intuito.
As comunicações entre os homens e aqueles que já
morreram bem como as evocações tem lugar em todas as épocas
e em diferentes regiões do planeta.
Na China, no Egito
desde a antiguidade, se entregavam à evocação dos
Espíritos dos ancestrais. Os.Hebreus se entregaram à
essas práticas descrita na Bíblia(4) no Deuteronômio.
Na Era cristã, entre os primeiros cristãos, há numerosas
indicações quanto às comunicações
com os Espíritos dos mortos ( Atos dos Apóstolos).
Segundo o Catecismo da Igreja Católica(5) a necromancia
ou a evocação dos Espíritos para que revelem coisas
ocultas é proibida pela Lei do Antigo Testamento (cf. Lev 19, 31;
20, 6; Dt 18, 11). O Espiritismo, segundo a mesma fonte é um sistema
doutrinal que pretende pôr os homens em contacto com os desencarnados,
portanto a sua pratica é severamente proibida por Deus.
A Necromancia ou nigromancia foi uma poderosa escola de magia que envolvia
a morte e os mortos. O necromante praticava seus atos com rituais e
oferendas após desenterrarem um morto recente. A cerimônia
se realizava ao redor do corpo, com o intuito de despertar o espírito
e questioná-lo sobre o futuro.Cemitérios e tumbas se tornaram
assim centros de histórias, lendas de terror e mistério(6).
Nos dias de hoje grupos minoritários tentam reviver estes costumes
e práticas primitivas para restabelecer esse diálogo,
incluindo práticas como a de se deitarem sobre túmulos,
ou ainda, jejuarem e depois passarem a noite em um cemitério,
vestirem mantos, pronunciando certas palavras, oferecendo incensos,
dormindo sozinhos no cemitério, a fim de que uma pessoa morta
lhe apareça e se comunique em sonhos e respondendo o que porventura
quer saber.
Uma das mais citadas práticas de necromancia foi realizada no
século XVI, em Walton-Le-Dalo, Lancashite, por John Dee, um conhecido
e respeitado matemático que desenvolveu um grande interesse no
ocultismo. Foi esse interesse que causou sua própria morte. Dee
estudou na Universidade de Cambridge na Europa. Escreveu numerosos livros
matemáticos complexos. Um desses era o estudo do calendário,
outro era os avanços da ciência de navegação.
Esses trabalhos fizeram-no Professor de Cambridge. Em 1550, com seus
24 anos de idade, Dee se dedicou a astrologia e à necromancia.
Lendo horóscopo de homens e mulheres da nobreza. Foi acusado
de heresia e de tentar assassinar a Rainha Mary pela Magia Negra(5).
Segundo a Bíblia Sagrada, ( Editora Vozes)(4) "
A Necromancia ou evocação dos mortos, é uma prática
que supõe a possibilidade de entrar em contato com os mortos
e de esses poderem comunicar mensagens do além, a até
de aconselhar os vivos em problemas difíceis ". Outras
doutrinas evangélicas consideram que "As almas dos mortos,
que Deus proíbe evocar, essas demoram no lugar que lhes designa
a sua justiça, e não podem, sem sua permissão,
colocar-se à disposição dos vivos." Sob essas
afirmações deduzem que se Deus não permite e o
Espiritismo evoca, os Espíritos que se apresentam nessas evocações
são demônios.
Estas posturas, porém, não encontram apoio no Espiritismo.
Na Doutrina Espírita não se exige a presença dos
mortos desenterrando seus corpos, nem se evocam Espíritos Superiores
ou não, para obter revelações ou buscar informações
para benefícios pessoais. As manifestações quando
acontecem são espontâneas(7). Allan Kardec responde
ás criticas ocorridas na época do lançamento de
seus livros, que situavam o Espiritismo e evocação dos
Espíritos, no mundo da magia e superstições :-"
A troco da própria alma, ninguém os evocava que não
fosse para obter favores da sorte e da fortuna, achar tesouros, revelar
o futuro ou obter filtros. A magia com seus sinais, fórmulas
e práticas cabalísticas era increpada de fornecer segredos
para operar prodígios, constranger Espíritos a ficarem
às ordens dos homens e satisfazerem-lhes os desejos(8).
Não há equívocos quanto estas palavras, provam
de maneira clara que, nesse tempo, as evocações tinham
por objetivo a adivinhação, e que delas se fazia um comércio;
estavam associadas às práticas da magia e da feitiçaria.
Como no Espiritismo a comunicação com os Espíritos
não visam a curiosidade, nem obter lucros, vantagens ou mesmo
antecipar o futuro, mas sim um desejo de instruir-se, melhorar-se, um
sentimento de piedade, aliviando as almas sofredoras; a proibição
bíblica não lhes pode ser extensiva. No cap XI do livro
Céu e Inferno(1), Allan Kardec discute a intervenção
dos demônios nas comunicações espíritas analisando
a invocação dos Evangelhos como fazem alguns religiosos
como justificativa, em especial em Levítico, Cap. XIX, v. 31,
e Deuteronômio Cap. XVIII, vv. 10, 11 e 12. Analisando o papel
da Lei mosaica citada na Bíblia comenta : "Há
duas partes distintas na lei de Moisés: a lei de Deus propriamente
dita, promulgada sobre o Sinal, e a lei civil ou disciplinar, apropriada
aos costumes e caráter do povo. ".... " Demais, é
preciso expender os motivos que justificavam essa proibição
e que hoje se anularam completamente. O legislador hebreu queria que
'o seu povo abandonasse todos os costumes adquiridos no Egito, onde
as evocações estavam em uso e facilitavam abusos, como
se infere destas palavras de Isaías: "O Espírito
do Egito se aniquilará de si mesmo e eu precipitarei seu conselho;
eles consultarão seus ídolos, seus adivinhos, seus pítons
e seus mágicos." (Cap. XIX, v. 31)Os israelitas não
deviam contratar alianças com as nações estrangeiras,
e sabido era que naquelas nações que iam combater encontrariam
as mesmas práticas. Moisés devia pois, por política,
inspirar aos hebreus aversão a todos os costumes que pudessem
ter semelhanças e pontos de contacto com o inimigo. "
A lei civil contemporânea pune todos os abusos que Moisés
tinha em vista reprimir.As leis se modificam com o tempo, e a ninguém
ocorre que possamos ser governados pelos mesmos meios por que o eram
os judeus no deserto Se os que clamam injustamente acusam o Espiritismo
se aprofundassem mais no sentido das palavras bíblicas, reconheceriam
que nada existe de análogo, nos seus princípios, em relação
ao que se passava entre os hebreus. O Espiritismo apóia tudo
o que motivou a proibição de Moisés, o abuso, o
uso indevido a insistência na prática da magia e do comércio.
Nas outras formas de crença inclusive m não há
como negar a realidade das manifestações. Como explicar
a evocação de Espíritos conhecidos, por exemplo,
os dos "Santos" famosos? Ou não serão eles Espíritos
que habitaram corpos de carne quando viveram entre nós? E o afastamento
dos Espíritos Inferiores através da prática de
expulsão?
A doutrina ensinada pelos Espíritos nada tem de novo; seus fragmentos
são encontrados na maior parte dos filósofos da Índia,
do Egito e da Grécia, e se completam nos ensinos de Jesus Cristo(9).O
que há de novo é a explicação lógica
dos fatos, o conhecimento mais completo da natureza dos Espíritos,
de sua missão e de seu modo de agir; a revelação
do nosso estado futuro e, enfim, a constituição dele num
corpo científico e doutrinário em suas múltiplas
aplicações. Que objetivam a educação do
homem, através de testemunhos espirituais visando sua evolução.
Bibliografia:
- Kardec, Allan, " Céu e Inferno" capitulo XI
- Dicionário Barsa da Língua Portuguesa -Aurélio
- Oliveira Martins Mitos Da Religião ( editora MADRAS)
- Bíblia Sagrada em CD-ROM, Editora Vozes).
- Aula 898 : Catecismo da Igreja Católica
- Levi, Eliphas Dogma e Ritual da Alta Magia - [século XIX].
[Trad. Rosabis Camayasar]São Paulo: Ed Pensamento, 1995
- Kardec, Allan, "O livro dos Espíritos.Introdução,
pg 21 Edit. Instituto de Difusão Espírita, 77a Edição,
1974
- Kardec, Allan, " Céu e Inferno" capitulo X item
9 a 15
- Kardec, Allan O que é o Espiritismo - Introdução.
Laurelucia
Orive Lunardi
Abril / 2005