O CÉU E O INFERNO
OU
A JUSTIÇA DIVINA SEGUNDO O ESPIRITISMO
Por ALLAN KARDEC ( Autor de O Livro dos Espíritos
)
A cada um segundo suas obras
7 . O progresso
nos Espíritos é fruto do próprio trabalho; mas como são livres,
trabalham no seu adiantamento com maior ou menor atividade, com mais
ou menos negligência, segundo sua vontade, acelerando ou retardando
o progresso e, por conseguinte, a própria felicidade.
(O Céu e O Inferno, Cap. III
- O CÉU. Grifos nossos)
Destacamos
anteriormente três idéias (atividade, qualidade e felicidade)
e levantamos a questão acerca da força da nossa motivação.
Assim, recordando o que havíamos colocado usando o pensamento de Weber: as
idéias nada mais são que trilhos nos quais o interesse corre.
É principalmente no campo da educação que essa questão
(o interesse, a motivação) fica mais perceptível. Muitos estudiosos já dedicaram
considerável tempo à questão do aprendizado. Rousseau, Pestalozzi,
Comenius, Piaget, Vygotsky,
Wallon, etc. As teorias são as mais diversas. Basta
passar os olhos na seção de Pedagogia / Psicologia de qualquer grande livraria
para termos uma idéia disso. É claro que todas são úteis dentro da perspectiva
em que surgiram Mas como é importante contextualizar! Uma questão permanece
em tudo isso, entretanto. Muitas delas partem de um pressuposto muito óbvio:
o sujeito quer aprender. E não conhecemos nenhuma que trate
da questão da motivação de forma mais direta, apenas como questão
satélite, importante, mas nunca como foco de estudo. Há recomendações
para que se estimule, mas sempre dentro de uma linha pré-definida de
conteúdos / necessidades que se supõe básicas. O Construtivismo chega a abordar
a questão, mas também aqui a práxis (a prática) se revela, freqüentemente,
distante da teoria. Isso porque uma
boa explicação (uma teoria) sobre algo que já aconteceu não é o mesmo
que a prática necessária (o método) para permitir que aconteça novamente.
Mas. por que isso parece tão difícil? Arrisquemos
uma reflexão...
Inicialmente há, o leitor, de concordar conosco (e se
não concordar basta escrever!): Não estamos muito à vontade para trabalhar
(lidar com) a espontaneidade - que sempre surge ao tratarmos
com o outro. Mas é aí que a coisa começa
a ficar interessante. Procure o leitor se lembrar da sua reação frente à espontaneidade
daqueles com quem convive. Como se sentiu? Estava preparado? Quantas
surpresas, sustos, não? Na teoria costuma-se dizer que é muito importante,
básica, etc. Mas, na prática... infelizmente isso
ainda é tratado como algo que incomoda. Afinal, pensamentos como dava
tudo tão certo antes, por que não daria agora? costumam
nos ocorrer. Então chegamos até a arranjar alguns nomes para definir
a situação constritora, como, por exemplo, falta de vontade, indisciplina,
distúrbio de aprendizagem, síndrome-de-disfunção-de-algoque-não-se-sabe-o-que-é
(e, chega a ser cômico o quanto muitas vezes brigamos por causa de nomes!).
Bem, dar nomes é importante, pois possibilita a comunicação das idéias.
Mas também pode trazer a falsa impressão de está tudo no seu devido lugar.
Tudo certo no horizonte...
Por que será tão difícil lidar com a espontaneidade?
Não caracteriza ela a própria condição de ser livre
o Espírito? Veja bem, leitor, que não estamos aqui advogando um ambiente sem
ordem, que, aliás, está presente em tudo na Natureza. Mas há algo que hoje
nos está escapando no processo de educação: como lidar com a espontaneidade?
E, qual a relação dela com as questões básicas com as quais temos tratado
aqui?
Pelas reflexões que fizemos na página anterior podemos
chegar a dizer que progredir não é apenas uma necessidade, mas
antes um direito! Um direito fundamental de todo Espírito. Pois
é a base do próprio direito pela busca da própria
felicidade. Além disso, se o corpo exige o trabalho para a sua sobrevivência,
a atividade é da própria essência do Espírito. Satisfeitas as
necessidades básicas, como segurança e sobrevivência, aparece
como uma urgência pela qual ele (o Espírito) vai lutar com todas as
armas de que dispõe para conseguir o seu fim: progredir.
Se tirarmos do seu alcance os meios, veremos a luta se estabelecer prontamente.
E parece até muito natural querer ajudá-lo nessa empreitada, não? Os pais
não querem o melhor para os seus filhos? Bem, então começa o primeiro embaraço.
Senão vejamos.
Queremos o
melhor para o nosso irmão, só que esquecemos, veja que coisa, de
perguntar-lhe o que ele considera como melhor! Expliquemos. Não
nos ocorre que pode não ser tão simples assim. Porque talvez seja preciso
que nos aproximemos dele, que sintamos os seus anseios, aguardemos a sua manifestação,
cultivemos o convívio, sem pressa, sem ansiedades. Assim, sem muita lógica,
e pressionados por nossas próprias tensões, o que fazemos? Vamos decidindo
por ele, esperando que ele até nos
agradeça pela nossa boa-vontade... Seria cômico, se não fosse
trágico. Trágico porque ele quer progredir, é uma necessidade e um direito.
Então, se ele não sentir que estamos ajudando, sentirá que a nossa ação é
um obstáculo, levando a uma reação. E, nisso tudo, via de regra, não acreditamos
que Deus possua um plano divino para todos nós (já diziam os
Espíritos Superiores a Kardec que é na consciência que está escrita a Lei
de Deus!). Então, talvez a nossa contribuição seja mais eficaz se agirmos
no sentido de facilitar o acesso desse irmão à própria consciência,
para que possa se recordar desse plano que lhe diz respeito.
Assim, não se trata de dar algo, de transferir conhecimentos, de fazer repetir
conceitos aprendidos de boca alheia, sem real familiaridade com eles. Não
fizemos isso no passado, ao abusarmos das palavras do Cristo para atingirmos
fins pessoais e escusos? É muito difícil mudar hábitos consolidados...
Mas, então a questão muda um pouco de figura. Poderíamos,
assim, perguntar: como se chega até o coração do outro? E por
que seria isso importante para nós? O escritor italiano Umberto Eco, em seu
livro Cinco ESCRITOS morais [1]
trata essa questão de maneira muito interessante.
Diz ele que é o outro, é seu olhar, que nos define e nos forma.
Nós (assim como não conseguimos viver sem comer ou sem dormir) não conseguimos
compreender quem somos sem o olhar e a resposta do outro.
Assim, mesmo quem mata, rouba, espanca, somente o faz
em momentos excepcionais, mas, pelo resto da vida vai em
busca de respeito, carinho, amor, aprovação
de seus semelhantes. Certamente morreríamos ou enlouqueceríamos se vivêssemos
em uma comunidade na qual as pessoas se comportassem como se não existíssemos,
ignorando-nos. Mas, por que então há massacres, guerras, crimes, explorações
diversas, num flagrante desrespeito ao outro? Um contra-senso, não? Nem tanto.
Pela questão (também cultural) de quem é os outros para nós. Restringimos
esse conceito a uma comunidade específica em detrimento do resto, considerando,
então, o resto como seres desumanos, bárbaros, que não merecem o nosso amor.
Assim, que grave questão nos aparece aos olhos aqui. O que estamos fazendo
para modificar essa idéia em nós? Qual o tamanho da nossa comunidade? E veja,
leitor amigo, não importa o nome que se dê. Inclusive que se chame de Espíritos
aos integrantes da nossa comunidade. Então, tudo isso quer dizer apenas que estamos
aprendendo a amar. Isso é um fato. Daí não ser tão fácil assim
chegar ao coração do outro para sentir-lhe os anseios
da alma.
A par disso, nosso passado está efetivamente marcado
pelas nossas atitudes, constituindo-nos uma reserva de energia presente
aqui e agora (memória espiritual) com a qual percebemos, agimos
e transformamos o mundo a nossa volta. Ora, recordemos que tal energia
(fluidos) é o veículo do pensamento e que ela tem dimensão afetiva.
Então, tal dimensão afetiva pode agir no sentido de contaminar nossa
visão, como ocorre nos mecanismos de transferência, descritos na psicologia,
só para dar um exemplo. Quando estamos sob o poder de fortes emoções e pensamentos
negativos, como o ódio e a raiva. Nesse momento nossa mente e coração estão
conturbados, o que nos faz não só perder o senso de percepção e perspectiva,
como também não enxergar o provável impacto de nossas ações sobre os outros.
Pode ocorrer um tal aturdimento que sequer cogitamos do direito do outro à
felicidade.
Assim podemos dizer que todo pensamento tem uma dimensão
afetiva. A percepção de uma característica, como uma cor, por exemplo, tem
uma dimensão afetiva. Do mesmo modo, toda sensação traz uma experiência cognitiva.
Ou seja, podemos identificar diferentes tipos de emoções: instintivas, como
a de repulsa ao ver sangue, e as que têm um componente racional mais desenvolvido,
como o medo da pobreza. E o que teria tudo isso a ver com a questão da motivação?
Vejamos mais exemplos.
Imaginemos uma situação em que nos envolvemos em um desentendimento
com um membro de nossa família. A maneira como lidamos com a atmosfera pesada
que se instala vai depender em grande parte daquilo que inspira nossas ações
no momento isso é para nós, então, motivação, ou também,
estado de espírito. Quanto menos calmos ficarmos, maior a probabilidade
de reagirmos negativamente com palavras ásperas, de dizermos ou fazermos coisas
de que mais tarde nos arrependeremos amargamente, mesmo que os nossos sentimentos
de afeto por aquela pessoa sejam profundos.
Por outro lado, imaginemos agora a situação em que esbarramos
alguém involuntariamente ao passar por ela na rua, e ela grita dizendo que
andemos com mais cuidado. Ora, há uma grande possibilidade de não ligarmos
importância a isso se a nossa disposição geral for sadia, se nossos corações
estiverem plenos de compaixão (um sentimento que encerra compreensão e ternura),
do que se estivermos sob a influência de emoções negativas. Nas palavras do
Dalai Lama:
Quando a força motivadora de nossas ações é sadia, nossos atos tendem
automaticamente a contribuir para o bem-estar dos outros.[2]
Assim, poderíamos dizer que o grande desafio está no
estado de motivação que nos envolve. Procurar percebê-lo, avaliá-lo em tudo
o que estivermos fazendo, cultivá-lo, pois que para querer progredir
é preciso estar feliz. Ou não? Vejamos bem, que não dissemos ser feliz.
Mas simplesmente estar feliz, isto é, dispor de um estado de mente e coração
sadios. Vejamos, então, para finalizarmos com uma proposta,
o que diz a questão 922 de O Livro dos Espíritos (grifos nossos):
922.
A felicidade terrestre é relativa à posição de cada um. O que basta para
a
felicidade de um, constitui a desgraça de outro. Haverá, contudo,
alguma soma de
felicidade comum a todos os homens?
Com
relação à vida material, é a posse do necessário. Com relação à vida
moral, a
consciência tranqüila e
a fé no futuro.
Mas, então, leitor amigo, há muitas questões a serem
respondidas. Como propiciar a alguém uma consciência tranqüila? Como dar fé
acerca do futuro? Por que isso é tratado como felicidade pelos Espíritos?
Tente o leitor responder a essas questões. Pense nos filhos, pais, amigos,
etc. No próximo mês estaremos abordando tais reflexões. Mas antes, um pensamento
sutil de Tagore;
Até onde chegue o pensamento, envio minha mensagem
ao mundo, coroada de encorajamento.
Desde
os primeiros bocejos matinais do sol, ergo meu espírito que ama, e conduzo
o carro das horas, cobrindo as estradas do dia com encantamento e júbilo.
Em
cada parada da minha marcha procuro um ser que não sabe amar, e digo:
-Alegra-te, viandante triste! Ergue-te
e louva a vida, homem desalentado!
E
vou além... (...)
Trago
comigo uma mensagem de amor e, até onde vá meu pensamento, a minha mensagem
irá também.
[3]
Vanderlei Luiz Daneluz Miranda
Abril / 2002
[1] ECO, Humberto, [trad. De Eliana
Aguiar] Cinco ESCRITOS Morais,
Quando o outro entra em cena. 3ª
edição. Rio de Janeiro. Record, 1998.
[2] LAMA, Dalai. [trad. de Maria Luiza Newlands]. Uma
ética para o novo milênio. Cap. 2
Sem mágica, sem mistério. 5ª edição.
Rio de Janeiro. Sextante, 2000.
[3] FRANCO, Divaldo P. [pelo espírito
R. Tagore] Filigranas de Luz, Cap. 34.
3ª edição. Salvador. LEAL, 1986.