A GÊNESE
OS MILAGRES E AS PREDIÇÕES SEGUNDO O ESPIRITISMO
Por ALLAN KARDEC, autor de O livro dos Espíritos
CARÁTER DA REVELAÇÃO ESPÍRITA (VIII)
Se se tirar ao homem o Espírito livre e independente, sobrevivente à matéria far-se-á dele uma simples máquina organizada, sem finalidade, nem responsabilidade; sem qualquer outro freio além da lei civil, máquina essa própria a ser explorada como um animal inteligente. Se o homem, pois, nada esperar depois da morte, não terá nenhum impedimento para procurar aumentar os gozos do presente, pois que, se sofre, só tem a perspectiva do desespero e o nada como refúgio. Já com a certeza do futuro, com a certeza de encontrar novamente aqueles a quem amou e com o temor de tornar a ver aqueles a quem ofendeu, todas as suas idéias mudam. Por essa razão, ainda que o Espiritismo só fizesse impedir que o homem tenha dúvida quanto a vida futura, teria feito mais pelo seu aperfeiçoamento moral do que todas as leis disciplinares que apenas o detêm, mas que não o transformam.
É também pela preexistência da alma e pela pluralidade dos renascimentos que se podem conciliar não só a idéia da Justiça Divina com as diferenças e disparidades existentes entre os homens como também a doutrina do chamado pecado original, que sem a preexistência seria inconciliável com a Justiça de Deus pois que essa crença tornaria todos os homens responsáveis pela falta de um só, seria também um contra-senso, tanto menos justificável quanto, segundo essa doutrina, a alma não existia na época em que se pretende fazer com que a sua responsabilidade remonte.
O verdadeiro pecado original do homem é o gérmen
que traz, ao renascer, das sua imperfeições, de seus defeitos, dos
quais não se corrigiu e que se traduzem, pelos instintos naturais e pelos
seus pendores para tal ou tal vício. E as conseqüências desse
pecado o homem as sofre naturalmente, mas com a diferença capital de
que sofre a pena de suas próprias faltas e não as de outrem; e com
a diferença, ao mesmo tempo consoladora e animadora e soberanamente eqüitativa
de que cada existência lhe oferece meios de se redimir pela reparação
e de progredir, quer despojando-se de alguma imperfeição, quer adquirindo
novos conhecimentos e assim, sucessivamente até que, suficientemente purificado
não necessite mais da vida corporal e possa viver a vida exclusivamente
espiritual, eterna e bem-aventurada. Pela mesma razão, aquele que progrediu
moralmente traz, ao renascer, qualidades naturais, como o que progrediu intelectualmente
traz ideais inatas; já estando identificado com o bem, pratica-o sem esforço,
sem cálculo e por assim dizer, sem pensar. Aquele que é obrigado
a combater as suas mas tendências vive ainda em luta; um já venceu,
o outro procura ainda vencer. Existe, pois,a virtude original, como existe o saber
originale o pecado, ou antes, o vício original. Denizart Castaldeli
Março / 2002