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A GÊNESE OS MILAGRES E AS PREDIÇÕES SEGUNDO O ESPIRITISMO Por ALLAN KARDEC, autor de "O Livro dos Espíritos" DEUS Da natureza Divina
O
homem não pode, porque não consegue, sondar a natureza íntima
de Deus. Para compreendê-lo, ainda nos falta o sentido próprio,
que só se adquire pôr meio da completa depuração
do espírito. No entanto, se não pode penetrar na essência
de Deus, o homem, desde que aceite como premissa a sua existência, pode,
pelo raciocínio, chegar a conhecer-lhe os atributos necessários,
porquanto, vendo o que ele absolutamente não pode deixar de ser sem
deixar de ser Deus, deduz, daí, o que ele deve ser, ou seja, não
podendo compreender como Deus é, pode compreender como ele não
pode deixar de ser.
É impossível compreender-se a obra da criação sem o conhecimento dos atributos de Deus. Esse o ponto de partida de todas a crenças religiosas e, é pôr não terem se reportado a isso, como ao farol capaz de as orientar, que a maioria das religiões errou em seus dogmas. As que não atribuíram a Deus a onipotência, imaginaram muitos deuses; as que não lhe atribuíram soberana bondade, fizeram dele um Deus cioso, colérico, parcial e vingativo. Deus sé a suprema e soberana inteligência. É limitada a inteligência do homem, pois que não pode fazer nem compreender tudo quanto existe. A de Deus , abrangendo o infinito, tem que ser infinita. Se a supuséssemos limitada num ponto qualquer, poderíamos conceber outro ser mais inteligente, capaz de compreender e fazer o que o primeiro não faria e assim pôr diante, até ao infinito. Deus é eterno, Deus não teve começo e não terá fim. Se tivesse tido princípio, houvera saído do nada. Ora, não é coisa alguma e portanto coisa nenhuma pode produzir. Ou, então, teria sido criado pôr outro ser anterior e, nesse caso, este ser é que seria Deus. Se lhe supuséssemos um começo ou fim, poderíamos conceber uma entidade existente antes dele e capaz de lhe sobreviver, e assim pôr diante, ao infinito. Deus é imutável. Se estivesse sujeito a mudanças, nenhuma estabilidade teriam as leis que regem o Universo. Deus é imaterial. A sua natureza difere de tudo o que chamamos matéria. De outro modo, não seria imutável, pois estaria sujeito ás transformações da matéria. Deus carece de forma apreciável pelos nossos sentidos, sem o que seria matéria. Dizemos: a mão de Deus, o olho de Deus, a boca de Deus, porque o homem, nada mais conhecendo além de si mesmo, toma a si próprio pôr termo de comparação para tudo o que não compreende. São ridículas essas imagens em que Deus é representado pela figura de um ancião de longas barbas e envolto num manto. Têm o inconveniente de rebaixar o Ente supremo até às mesquinhas proporções da Humanidade. Daí a lhe emprestarem as paixões humanas e fazerem-no um Deus colérico e cioso, não vai mais que um passo. Deus é onipotente. Se não possuísse o poder supremo, sempre se poderia conceber uma entidade mais poderosa e assim pôr diante, até chegar-se ao ser cuja potencialidade nenhum outro ultrapassasse. Esse então é que seria Deus. Deus é soberanamente justo e bom.
A providencial
sabedoria das Leis Divinas se revela nas mais pequeninas coisas, como nas
maiores, não permitindo essa sabedoria que se duvide da sua
justiça nem da sua bondade. Deus, pois, não poderia ser simultaneamente bom e mau, porque então, não possuindo qualquer dessas duas qualidades no grau supremo, não seria Deus; todas as coisas estariam sujeitas ao seu capricho e para nenhuma haveria estabilidade. Não poderia ele, pôr conseguinte, deixar de ser ou infinitamente bom, ou infinitamente mau. Ora, com suas obras dão o testemunho da sua sabedoria, da sua bondade e da sua solicitude, concluir-se-á que, não podendo ser ao mesmo tempo bom e mau sem deixar de ser Deus, ele necessariamente tem de ser infinitamente bom. A soberana bondade implica a soberana justiça, porquanto, se ele procedesse injustamente ou com parcialidade, numa só circunstância que fosse, ou com relação a uma só de suas criaturas, já não seria soberanamente justo e, em conseqüência, já não seria soberanamente bom. Deus é infinitamente perfeito. É impossível conceber-se Deus sem o infinito das perfeições, sem o que não seria Deus, pois sempre se poderia conceber um ser que possuísse o que lhe faltasse. Para que nenhum ser possa ultrapassá-lo, é preciso que ele seja infinito em tudo. Sendo infinitos, os atributos de Deus não são suscetíveis bem de aumento, nem de diminuição, visto que do contrario não seriam infinitos e deus não seria perfeito. Se lhe tirassem a qualquer dos atributos a mais mínima parcela, já não haveria Deus, pois que poderia existir um ser mais perfeito. Deus é único. Do fato de serem infinitas as suas perfeições, resulta a unicidade de Deus. Não poderia existir outro Deus, salvo sob a condição de ser igualmente infinito em todas as coisas, visto que, se houvesse a mais ligeira diferença, um seria inferior ao outro, subordinado ao poder desse outro e, então não seria Deus. Se houvesse entre ambos igualdade absoluta, isso eqüivaleria a existir, de toda a eternidade, um mesmo pensamento, uma mesma vontade, um mesmo poder. Confundidos, assim, quanto à identidade, não haveria, em realidade, mais que um único Deus. Se cada um tivesse atribuições especiais, um não faria o que o outro fizesse; mas, então não existiria igualdade perfeita entre eles, pois que nenhum possuiria autoridade soberana.
A ignorância
do princípio de que são infinitas as perfeições
de Deus foi que gerou o politeísmo,
Em resumo, Deus não pode ser Deus senão sob a condição de que nenhum outro o ultrapasse, porquanto o ser que o excedesse no que quer que fosse, ainda que apenas na grossura de um cabelo, é que seria o verdadeiro Deus. Para que tal não se dê, indispensável se torna que seja infinito em tudo. É assim que, comprovada pelas suas obras a existência de Deus, por simples dedução lógica se chega a determinar os atributos que o caracterizam. Tal o eixo sobre que repousa o edifício universal. Esse farol cujos raios se estendem pôr sobre o Universo inteiro, única luz capaz de guiar o homem na pesquisa da verdade. Orientando-se pôr essa luz, ele nunca se tranviará. Em filosofia, em psicologia, em moral, em religião, só há de verdadeiro o que não se afaste nem um til, das qualidades essenciais da Divindade. A religião perfeita será aquela de cujos artigos de fé nenhum esteja em oposição àquelas qualidades; aquela cujos dogmas todos suportem a prova dessa verificação sem nada sofrerem.
Abril / 2003 |